
Edição: Disney CD
Quando esperamos ansiosamente pela chegada de um álbum, enquanto devoramos previsões nos media que declaram em uníssono a sua genialidade, é difícil não nos entusiasmarmos. Quando finalmente ouvimos o álbum, a emoção do momento misturada com o condicionamento mediático prévio torna a isenção quase impossível. E ainda, quando se descobre que as previsões que o declaravam como obra-prima pecavam apenas pela sua contenção, então é aí que toda a neutralidade esperada de um crítico voa pela janela fora.
É assim com a banda sonora de Tron, onde vemos os Daft Punk a dar o próximo passo na missão de auto-reinvenção. Os trabalhos anteriores do duo francês são amplamente conhecidos, tendo há muito cruzado a barreira que limita um músico ‘electrónico’ a um público ‘electrónico’. Depois de derrubada a barreira invisível que separava a electrónica do resto da música popular, resta apenas a não-popular, vulgarmente conhecida por clássica. E eis que surgem os robôs Thomas Bangalter e Guy Manuel de Homem-Christo, apoiados por uma orquestra de 90 músicos, canalizando a influência de compositores de bandas sonoras icónicos como Max Steiner, Bernard Herrmann ou Vangelis.
A missão em que embarcaram foi a criação de um álbum que exemplificasse o que chamam de “retro-futurismo”. Após a divulgação do single que apresenta a banda sonora ‘Derezzed’, ouvimos uma música que é mais ou menos o que esperamos ouvir dos Daft Punk: electrónica orientada para a pista, dançável, ainda que possuidora de classe, com os característicos arpeggios a que já nos habituaram, mas nada de orquestras. A escolha de ‘Derezzed’ para single não foi inocente, porque permite uma primeira espreitadela para dentro do álbum, mas no entanto não revela nada do que lá se passa.
Algo de mágico aconteceu no estúdio do duo. Ao fazerem esta ode ao retro-futurismo, aliando as melodias sintéticas à melancolia que apenas uma secção de cordas pode exprimir, criaram paisagens sonoras épicas, viagens por universos digitais em que o homem se funde com a máquina para criar algo novo. Parece que acabámos de descrever tanto a sinopse do filme como a ‘biografia oficial’ da dupla, mas isso só demonstra a visão da Disney na escolha para a composição desta trilha: são dois projectos diferentes mas com tanto em comum, que parece que se esperaram para se completarem mutuamente.
Não esperem o último grito da electrónica de dança com samples de música clássica, porque não é o que vão encontrar. Isto é uma verdadeira banda sonora, no sentido em que são temas concebidos para dar profundidade emocional a um conjunto de imagens, com a complicada missão de nunca se sobreporem a elas. São ‘músicas de fundo’, afirmação que parece herética mas que serve para nos entendermos. O poder emocional das orquestras que aqui se explora é algo que o passar dos séculos tornou impossível de negar.
Ao aliar esta sensibilidade à estética plástica dos sintetizadores e caixas de ritmos, os Daft Punk presenteiam-nos com uma viagem incomparável, suave mas cheia de altos e baixos, reconfortante ainda que perigosa. Pelo meio desta odisseia épica dentro de um mundo digital, os franceses têm momentos de brilhantismo como são ‘Adagio for Tron’, ‘Disc Wars’ ou ‘C.L.U.’, ainda que pareça injusto destacar estes momentos no conjunto de obras-primas do alinhamento.
É um monumento à carreira dos gauleses, que a celebra ao mesmo tempo que a divide. Ao analisarmos o percurso dos Daft Punk, haverá um antes e depois desta obra, como se o duo que há anos inspira meio mundo com as suas criações só agora tivesse atingido a maturidade. Um disco obrigatório, que nos faz salivar pelo que vem aí, quando dentro de semanas for possível ouvir este álbum numa sala de cinema.
Jorge Duarte