
Edição: XL Recordings LP / CD
“NY Is Killing Me”
O sucesso de uma remistura é tudo menos ciência exacta. Normalmente surgem como uma oportunidade para dar nova vida comercial a um tema já de si bem sucedido, uma visão fresca sobre algo conhecido. Dependendo de quem a ouve, pode salvar ou destruir o original. No entanto, apesar da prática de remisturar ser bastante comum, um álbum de remisturas ao encargo de um único produtor é um acontecimento raro.
Não só é raro o formato, como é rara a combinação. Por um lado temos Gil Scott-Heron que, apesar de ter recebido recentemente o prémio de ‘Melhor Artista Novel Internacional’ nos Brit Awards, tem uma carreira de quatro décadas. Homem do jazz, do blues e da soul, poeta amargurado e crítico social de língua afiada, apresentando-se humildemente a uma nova geração ao dizer “I’m new here”. Temos também Jamie Smith, mais conhecido por Jamie XX, responsável pelos arranjos electrónicos dos The XX e dos produtores mais requisitados do momento, principalmente no campo das remisturas (Adele, Glasser, Florence + The Machine).
No entanto, estas colaborações em que o trabalho de uma grande referência da música é reinterpretado por outro talento (relembro “No Protection” de 1995, álbum de remisturas de Mad Professor para os Massive Attack) têm o hábito de gerar grandes expectativas, às vezes difíceis de superar. Já sabemos como a volátil mistura de talento e de insólito, apoiada numa poderosa campanha de marketing, altera a nossa percepção.
Suponho que parte da expectativa gerada é merecida: Jamie XX é, de facto, um jovem produtor cheio de talento e o material de origem de Gil Scott-Heron parece pedir para ser remisturado, com o seu estilo minimalista que deixa a sua voz suspensa num pseudo-vazio instrumental. No entanto, o estilo low-profile de Jamie XX transpira nas suas produções, que se afirmam pela sua simplicidade e delicadeza, sendo difícil imaginá-lo confortável no meio de toda a atenção que sobre ele tem recaído. Temos assim um retrato esquelético, ligeiro e minimalista do que é a música de dança britânica na era pós-dubstep, onde Jamie explora estes diferentes ritmos à medida que lhes dá o seu cunho pessoal, introduzindo a voz de Heron num novo contexto.
O seu cunho é pessoal. É meditativo, recatado, não dá nas vistas. É música feita para ser apreciada no escuro, no meio da massa anónima de um clube. Não pretende substituir nem superar o original, mas sim cumprir uma certa necessidade de “actualização”, ou seja, de dar a conhecer o trabalho de um artista de culto a toda uma nova geração.
Em “Jazz interlude”, Heron afirma que o jazz é simplesmente música de dança, desde as suas origens nos bordéis até aos dias de hoje. Esta frase do natural de Chicago parece definir o que é este álbum: o reconhecimento da electrónica de clube moderna como uma continuação da música negra de dança americana, que ao partilharem uma origem e objectivo semelhantes se tornam dois fenómenos complementares, que nesta combinação encontram o seu equilíbrio.
Um álbum sólido que não pretende ser mais do que aquilo que é: uma reinterpretação, um novo ponto de vista sobre algo já conhecido ou, sendo Jamie e Heron de quem falamos, uma reflexão.
Jorge Duarte