
Edição: Hippos In Tanks
“Break4love”
O que explica o fascínio em torno da curta e estranha carreira dos Hype Williams? Porque é que os seus álbuns, delirantes e esquisitos, caíram no gosto da crítica especializada e dos hipsters de plantão? Existiria algum motivo particular para tamanha adesão ao som da dupla? Pode-se, então, afirmar que eles trabalham a partir de uma estética lo-fi, psych-pop, non-music, e tantos outros rótulos que mais indicam a desorientação dos críticos e ouvintes, do que explicam propriamente o trabalho? Será esta mesma desorientação a causa do falatório? Quem são, de onde vem, para onde vão os Hype Williams?
“One Nation” consolida alguns aspectos comuns no trabalho do grupo, como o parentesco com a inflexão paródica dos Residents, presente em faixas como a inacreditável “Untitled 1”; a tendência em operar em todos os elementos da produção – a execução, a gravação, a mixagem, os volumes e samplers – com a falsa disposição de tornar tudo precário, quando na verdade cada compasso é projetado com extremo rigor; e a aproximação com um tipo de humor entre o nonsense e o bizarro, muito em voga nos 90’s, notabilizado por desenhos animados como Aqua Teen Hunger Force ou Beavis and Butthead. De fato, é a ironia, o sarcasmo, sob a forma de música, o que mais se ressalta em “One Nation”, bem como no trabalho do grupo como um todo.
Mas como transformar a ironia e a paródia em música? Eis outro fator que chama a atenção na sucessão de peças de disco: a unidade obtida a partir da mistura vertiginosa de registros sonoros, da Library Music ao shoegaze, sem grandes sobressaltos. Calcada não em uma estética precária, mas em uma “estética da precariedade”, o álbum se mostra plenamente capaz de dialogar com o luxo e o lixo da indústria cultural, nivelando-os sob a lente da ironia.
Tudo passa a ser comentário, meta-música, meta-discurso. Como na dobradinha “Dragon Stout”/”Homegrown”, por exemplo, onde se pode perceber a alteração do pitch dos sintetizadores acompanhar a inclusão de uma batida saturada de graves. Ou em “Your Girl Smells Chung When She Wears Dior”, na qual a textura lo-fi serve de cama para a repetição persistente da frase “you’re my addiction”. Sem contar a já clássica “Mitsubishi”, para balançar a estrutura dos fãs de tecno, com sua levada… meta-tecno?
A rigor, é uma experiência controversa, que joga com os preconceitos dos ouvintes, e não com aquilo que eles gostariam de ver confirmado. Um álbum que, apesar de toda a badalação, desafia e fica entre o que de mais intrigante se produziu neste ano que ainda começa.
Bernardo Oliveira