
Octa Push ft. K-Tronik – Legos
Após uma primeira entrega da série Tax Haven, onde a luso-espanhola Iberian Records nos ofereceu um retrato do estado actual da ‘bass music’, eis que chega agora o segundo volume. Se na primeira edição conseguiram transmitir toda a variedade e, simultaneamente, união que caracteriza a cultura ‘bass’, aqui cabe a Migrant, aos portugueses Octa Push e a Cardopusher reforçar a ideia de disparidade ao projectarem o seu som em todas as direcções.
A missão de ilustrar o sentimento comum que une todas as correntes em que se divide o fenómeno apelidado de ‘bass music’ continua presente nesta segunda edição. No entanto, em “Tax Haven 2″ a Iberian decide obrigar o ouvinte a puxar ainda mais pela imaginação, oferecendo três temas completamente distintos, canalizando influências que vão desde o tecno, ‘speed garage’, ‘drum & bass’, alguns toques de electro e até de reggaeton.
No lado A do disco podemos encontrar Migrant, outro pseudónimo de 23hz que, juntamente com Numaestro formam os Relocate, co-fundadores da editora. O britânico traz-nos o tema “Monolith”, uma bomba destinada a explodir na pista e que processa influências tecnóides com breaks de drum & bass, onde até o kuduro encontra espaço na mistura, apimentado pela pressão que as frequências sub-graves exercem, culminando numa faixa claramente feita a pensar nos sistemas de som mais corpulentos. Um tema que parece condensar os principais conceitos de ‘rave’ que dominaram a cultura de electrónica de clube na última década.
No lado B encontramos o duo composto por Dizzycutter e Mushug, os portugueses mais conhecidos por Octa Push, que aqui se unem a K-Tronik, metade do icónico grupo de hip-hop Nigga Poison, para outro assalto à pista. Em “Legos” começamos por ouvir uma batida minimalista em registo ’2step’, dando espaço para as melodias electrónicas e corrosivas se imporem, até que o som explode com a percussão a que os Octa Push já nos habituou: frenética, sincopada, tão inspirada em África como nos subúrbios londrinos.
Continuando esta viagem atribulada pela periferia do fenómeno ‘bass’ encontramos o venezuelano Cardopusher, já conhecido pela sua constante preocupação em transformar-se a cada lançamento. Já o ouvimos em registos como o ‘breakcore’, o dubstep e o garage, todos eles com o seu cunho muito pessoal onde o carácter latino e tropical assumem um papel de destaque. No entanto, este carácter nunca foi tão pronunciado como em “Dembow together”, um tema que funde a sonoridade do reggaeton com o universo do tecno, do electro e da rave, criando um tema sujo, festivo e contagiante.
Mais uma vez, a editora luso-espanhola entrega um disco que demonstra até onde se pode esticar a corda, testemunhando a vitalidade de um estilo que, na verdade, não passa da simples exploração do break, na constante assimilação de influências, num ênfase dos graves e numa sensação de que tudo é permitido. Até parece fácil.
João Pedro Silva