
Edição: Sony Music
“Come together”
Alguns álbuns já nascem clássicos e gozarão eternamente deste prestígio, enquanto outros se tornam clássicos com o passar do tempo. Mas essas são apenas duas possibilidades genéricas. A história dos discos pode ser incrivelmente diversificada, porém não a dos artistas – considerando o álbum como um formato mais ou menos fixado e, em certa medida, ultrapassado.
Os artistas sempre correm na raia da corrupção, e não possuem nem sequer a chance de seguir outro caminho, enquanto a obra paira sobre a duração das coisas e dos tempos como uma espécie de contrapeso, a testemunhar falaciosamente que nós, seres humanos, somos eternos.
“Screamadelica“: trata-se realmente de um clássico? Podemos afirmar que sim, mas antes convém tecer algumas considerações.
Dentre as inúmeras trajetórias possíveis para os álbuns, uma delas me parece por demais curiosa: como um álbum pode prescrever e permanecer no topo? O movimento contrário parece mais comum, quando após anos de negligência, uma obra é (re)descoberta. Mas esta obra, sejamos francos, nunca saiu de moda.
É desde sempre considerado um disco da maior importância, sinal de uma das reviravoltas mais bem sucedidas da história do rock. Nem Bob Dylan gozou do direito de mudar radicalmente o seu modo de criar com tanta fluência como o Primal Scream, e por isto este disco é um clássico.
Alguns álbuns permanecem no topo graças a algum “serviço” prestado, alguma benesse que capitalizou o nome do grupo para além da sua vocação original. Mas não se pode negar ao Primal Scream a responsabilidade pela reunião de universos sonoros distintos, que apesar de muitas semelhanças, se mantinham relativamente afastados.
Ora, imagine o choque dos fãs do rock rasgado presente nos primeiros discos do grupo, diante do excesso de cores, sensualidade e swing de “Screamadelica“? Ou mesmo daquele frequentador assíduo dos clubes londrinos, deparando-se com roqueiros cabeludos produzindo diretamente para a pista de dança? É certo que, vinte anos depois, não há espaço para essas fronteiras. Porém, cabe a pergunta: “Scremadelica” é sintoma ou ponta de lança deste fenômeno?
Apesar de sua sonoridade um tanto quanto desfasada, permanece como o testemunho de um ato de coragem, mesmo que sua audição hoje se resuma a uma combinação datada de Rolling Stones com o insípido pop eletrônico inglês do final dos anos 80 – Charlatans, Stone Roses, Happy Mondays.
Mas quem poderia negligenciar um trabalho que, além do relativo teor experimental, conta com as participações do lendário Jimmy Miller, de membros do 13th Floor Elevators, além de Jah Wobble e The Orb. Se a música já não fala com a mesma pujança que há vinte anos, ao menos traz alguns momentos de inegável vigor criativo. Como resistir ao swing de faixas como “Come together”, às cores psicodélicas de “Higher than the Sun”, ou ainda, ao lirismo de “I’m coming down”?
Em suma: como resistir a uma vibração… irresistível?!
Bernardo Oliveira