
Edição: Rough Trade
“Everything”
Em seu primeiro álbum, “Jewellery“, produzido por Matthew Herbert, Mica Levi ambientou as composições no universo diurno do pop eletrônico, afinado com a eclosão da synthmania no final da década passada. Apesar do mix de referências, a manifestar a contradição de uma “experiência emulatória”, as sutilezas de arranjo e a variedade sonora recorrente no trabalho indicavam uma personalidade musical própria.
Porém, ficava evidente que as composições fragmentárias de Levi não se adequavam ao aspecto demasiado alegre dos sintetizadores. Longe de cumprir o que sempre promete um álbum classificado como experimental, ficava a meio caminho entre o pop e o “alternativo”.
Em “Chopped & Screwed“, gravado ao vivo em colaboração com a London Sinfonietta, percebemos a mudanca do clima: tudo se torna mais sombrio e meditativo. Ao abraçar referências obscuras, efetivamente experimentais, Levi alterou consideravelmente a tonalidade de sua música. Ressaltada pela reverberação soturna da ambiência e os arranjos mais cadenciados, a sonoridade peculiar do disco pode marcar um momento de mudança profunda no trabalho da artista.
Comprova-o o gosto por vocais diáfanos em “State of New York”, influenciada pelos Residents; a bela “Unlucky”, reforçada pela percussividade dos glissandos, até à pletora de pizzicatos a um minuto de seu final; “Everything”, novamente talhada em uma harmonia ousada, mas com um aspecto ligeiramente roqueiro, semelhante a Lykke Li. Sob a influência de Kate Bush, a dramática “Average” é mais um exemplo da escrita peculiar de Levi, enquanto “Fall” explora com desenvoltura nuvens dodecafônicas e modulações seriais.
Se a pretensão não se sustentava nos rodeios juvenis do álbum anterior, aqui ela adquire uma força renovada, e ao mesmo tempo, mais senhora-de-si. Em suma, um álbum deveras complicado, talvez indigesto para os fãs de Jewellery, mas que aponta a emergência de uma artista que ainda não demonstrou todo o seu poderio.
Bernardo Oliveira