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Domenico: Cine Privê

Edição: Coqueiro Verde Records


“Cine privê”

Cine Privê” é o primeiro disco solo de Domenico Lancelotti, mas não a sua estreia musical. Lá se vão quase vinte anos desde que ouvi falar pela primeira vez deste percussionista, compositor e cantor, primeiramente associado ao grupo carioca Mulheres Q Dizem Sim, que surgiu na primeira metade da década de 90. Uma das bandas mais criativas de sua época, promoveram, a seu modo, a tentativa de unir Kurt Cobain e João Donato, com pegada funk-rock e um intrincado trabalho de guitarras.

Depois, Domenico se tornou músico requisitado, acompanhando artistas como Caetano Veloso, Fernanda Abreu, entre outros, tomando parte também da Orquestra Imperial, com Jorge Mautner, Alexandre Kassin e Moreno Veloso, e do trio +2, com os dois últimos citados. Com o +2, desenvolveu quatro álbuns especiais na discografia da década passada, reconhecidos no Brasil e no exterior, sendo um deles de sua autoria, “Sincerely Hot”, lançado em 2003, o mais experimental dos discos do trio.

Trata-se, portanto, não de um ecletismo rasteiro, mas autêntico e aprofundado, através do qual Domenico foi delineando uma consistente persona musical, marcada pela diversidade, mas de alguma forma ligada à trajetória de seu pai, Ivor Lancelotti, compositor de belos sambas gravados por nomes como Beth Carvalho e João Nogueira. Quero dizer, revela-se, pouco a pouco, um compositor popular relevante, um cancioneiro plenamente capaz de se expressar em searas tão diversas quanto o funk-rock praiano do Mulheres Q Dizem Sim, a neogafieira da Orquestra Imperial, e a faceta menos MPB de “Sincerely Hot”.

O disco parte de uma concepção bem definidida, exposta pelo compositor Romulo Fróes, que assina o press-release: “[Domenico] busca nessa antiga relação entre som e imagem, material para compor uma trilha-sonora para um filme que ainda não existe. (…) Domenico inverte o processo. Inventa um filme para a sua música.” Da bela faixa-título, assinada pelo autor, à homenagem instrumental “Hugo Carvana”, é um álbum que exibe uma paleta sonora equilibrada entre a suavidade de seu canto, arranjos econômicos e eficazes, e a apropriação de elementos extramusicais como apitos, cordas que rangem e “gravações de campo”.

Esta combinação resulta em diferentes trilhas-sonoras para diferentes filmes, embora deva confessar que, à moda dos lançamentos da Raster-Noton, negligencio a propedêutica do artista, para favorecer o resultado sonoro. Ou seja, embora não visualize particularmente a qualidade imagética de cada uma das faixas, o resultado propriamente musical é bem sucedido.

Curioso que encontremos este “cine privê” completamente povoado por presenças especiais, a começar pela co-produção de Moreno Veloso, pela gravação do guitarrista Gabriel Muzak e a mixagem de Mario Caldato, que por sua vez trouxe Money Mark, “o quarto Beastie Boy”, para tocar escaleta na lírica e impressionante “Fortaleza” – que conta com a sonoridade agoniante de corda rangendo, simulada por uma combinação de bateria, sax barítono e escaleta. “Receita”, parceria com Jorge Mautner, chama a atenção pela prazerosa levada “transamba” – para usar um termo caro ao último álbum de Caetano Veloso –, assim como a frenética “Zona Portuária”, versão da faixa homônima composta para a trilha-sonora do espetáculo de dança Ímã, produzido pelo Grupo Corpo – cuja letra revela um jogo divertido de palavras, divididas de acordo com o andamento da percussão.

Duas outras são dignas de nota especial. A breve parceria com o trombonista Marlon Sette, “Sua beleza”, composta em 3/4, cujo tom onírico se conjuga com a melodia semelhante à trilha-sonora de seriado de ação, do tipo “Missão Impossível”. E a faixa mais experimental, “Pedra e areia”, parceria a dez mãos com Pedro Sá, o guitarrista Alberto Continentino, Moreno Veloso e a cantora Adriana Calcanhotto, que traz uma saborosa levada afro, novamente marcada pelo jogo com as palavras e o ritmo.

Não me parece exagero afirmar que é um disco que espelha, simultaneamente, toda a experiência musical do autor, filtrada pela lente da canção, mas de uma canção que não se deixa levar pela tentação bem brasileira de amolecer a roupagem, torná-la palatável, simplória. Antes testemunha uma maturidade concentrada, uma espontaneidade segura de si e, sobretudo, absolutamente particular no cenário nacional. Neste sentido, Cine Privê se apresenta como o documento mais convincente e poderoso da trajetória de Domenico, bem como do talento de compositor e criador de sons.

Bernardo Oliveira

 

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