
Edição: Warp Records, distri. Symbiose.pt
“The only direction In concrete” (feat. Zola Jesus)
Para compreender a peculiaridade de deste álbum na discografia de Prefuse 73, convém retornar a Dezembro do ano passado, quando Scott Herren, seu verdadeiro nome, lançou com Jaytram, baterista dos Yeasayer, uma remistura reinterpretando a obra do produtor nova-iorquino Epstein. Lá estão presentes o tom evocativo, preponderantemente experimental, bem como as colagens e sobreposições mais atentas às nuances harmônicas e “concretas” do que propriamente às batidas.
Também vale retornar aos seus outros projectos como Delarosa & Asora, Savath Y Savalas, Piano Overload ou Diamond Watch Wrists: tanto a história recente, como o conjunto da obra fornecem a chave para os matizes sonoros e conceituais que fazem a diferença neste disco.
Não se pode afirmar exatamente a existência de algo que nunca tenha sido trabalhado em outros projetos. E, no entanto, podemos perceber que este é um trabalho que se destaca por concentrar características trabalhadas em faixas dos álbuns anteriores. O que chama a atenção é a radicalização do aspecto abstrato, desta vez à beira de um diálogo provocador com a chamada “composição moderna” – com a qual vem flertando desde “Interregnums“, CD extra que acompanhou “Preparations“.
Me refiro à criação de nexos sonoros entre elementos que não são propriamente melódicos (canções), rítmicos (batidas) ou harmônicos, mas que trabalham mais o timbre, a duração e as texturas. O disco traz momentos de embevecido devaneio sonoro, sem regularidade ou suingue, como nas brilhantes “The only serenidad” e “The only boogie down”.
A presença exclusiva de vozes femininas como Zola Jesus, Shara Worden (My Brightest Diamond) ou a recentemente falecida Trisha Keenan dos Broadcast, constitui outra particularidade que fortalece o aspecto fantasmagórico do álbum, ora reportando ao canto humano (como em “The only hand to hold”), ora utilizadas como um mellotron (como em “The Only Repeat”).
Percebe-se também que as estruturas de composição estão embebidas em “toneladas de field recordings”, captados pelo telefone celular. São momentos cotidianos, ambiências, conversas, vozes e mais vozes. Com as justaposições de camadas sonoras heterogêneas e a ausência de batidas mais regulares, os field recordings perpassam todo o álbum, cobrindo as composições de uma vitalidade intensa – como em “The only direction in concrete” e na impressionante “The only lillies and lilacs”.
Se essa indeterminação constitui uma obsessão, se essa música se apresenta mais como uma miríade desafiante do que como um prazer propriamente dito, isto não parece importar a Scott Herren. Pode até resultar numa sonoridade sombria e demasiado solipsista. Mas a prova dos nove é a alegria com que ele afirma cada som presente nesta obra estranha: “me sinto atraído por sentimentos mais melancólicos e evocativos na música, mas não faço isso com intenção de ser triste. Tento capturar sons que podem de alguma forma se transformar em reflexos de seu tempo, permitindo assim que o revisitemos sempre que quisermos”.
Segurança de um produtor ciente do seu percurso. Mesmo nos momentos mais instrospectivos, mesmo desafiando o ouvinte com momentos que beiram o ruído, mantém, com sua riqueza de sons, o interesse e a consistência até o fim. E impressiona de forma suficiente para manter as atenções sobre os todos os seus passos.
Bernardo Oliveira