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Africa Hitech – 93 Million Miles

Edição: Warp


“Light the way”

Com a força de um objeto não-identificado, chega o primeiro álbum do Africa Hitech. Fruto da parceria entre dois nomes incontornáveis da eletrônica inglesa, Mark Pritchard (Global Communication, Harmonic 33) e Steve Spacek (Spacek, Blackpocket), o disco sai após um EP (“Hitecherous”) e um single (“Blen”), ambos lançados em 2010. No entanto, esses lançamentos preliminares não permitiam entrever o que viria a seguir. Este é um trabalho irredutível a nenhum outro na atualidade, mas tavez não da forma como o leitor pode pressupor.

Não se trata de um juízo de valor, mas de uma questão formal: com sua gramática heterogênea e peculiar, é uma obra que demanda alguma adaptação e maleabilidade. Leva a crer que chegamos a um momento na produção eletrônica no qual a peculiaridade formal não corresponde necessariamente a uma sonoridade inteiriça e coerente. Talvez em virtude do esfacelamento do álbum enquanto formato, ou do contexto que emergiu com o dubstep, este é um trabalho irregular, mas traz algum dos momentos mais impressionantes da música eletrônica deste ano.

Obras com essa característica “plural” podem recair no discurso multiculturalista e vazio da world-music e perderem a sua pregnância. No entanto, vale notar que, para além do recenseamento criativo, no qual o autor recria, faixa a faixa, as principais correntes musicais de seu tempo – particularmente nas obras de Breakage ou FaltyDL –, o Africa Hitech destila sua miríade sonora ressaltando tendências inusitadas, mesmo se tomarmos como parâmetro a eletrônica atual. Além do soul e do juke americanos, ouvimos a influência do reggae e do dub jamaicanos, do candombe uruguaio e da música africana de forma geral.

Estamos diante de uma série de grandes singles, tais como os psíco-jukes “Do u wanna fight” e “Out In the streets”, a batucada afro de “Spirit” e o soul futurista de “Light the way”. Ou se preferirem, trata-se de dois álbuns: um feito de dubstep stricto sensu (“Future Moves”, “Gangslap”, a faixa-título), outro composto por aproximações e sínteses listadas acima. Unidos em um mesmo contexto, se afiguram como um dos panoramas mais curiosos deste ano incrível para o dubstep.

O disco pode ser questionado, pela incoerência e eventuais deslizes em uma sonoridade mais fácil – como em “Our luv” e no reggae easy-listening “Don’t fight It”. Da mesma forma, pode chamar atenção pela produção hábil, que consegue lançar mão de sons sintetizados de tuba e trombone em um juke, sem maiores sobressaltos (em “Do u wanna fight”). O mesmo com o violãozinho convencional sobre o candombe ralentado em “Cyclic sun”.

Porém, é muito claro que a dupla opera segundo as condições que propiciaram a volatilidade do dubstep, transformando-o em algo que não sabemos bem como chamar. Apesar de alguns lapsos, cumpre a tarefa que se propõe a realizar: contribuir para o alargamento do espectro de possibilidades deste gênero que vem tomando proporções universais.

Bernardo Oliveira

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