
Edição: Mbari
Norberto Lobo – Chuva Ácida (Darque)
Já não é dos poetas do saudosismo que se trata, mas é difícil resistir-se à ideia de que a cultura e a música portuguesas nunca deixaram de abrigar na sua raiz um certo sentido de melancolia, um sentimento que não escapa ao peso do destino e a uma propensão para o ensimesmamento. E à primeira, é isso que enforma a música de Norberto Lobo. Mas vai mais longe.
Ao terceiro álbum a solo, continua a explorar uma guitarra com uma expressividade cada vez mais personalizada, cada vez mais de autor. Em “Fala Mansa”, mantém-se esse lirismo contemplativo dos anteriores trabalhos mas há uma nova complexidade harmónica com frases melódicas ainda mais bem urdidas, com mudanças de velocidade e acordes improváveis a concluir devaneios em espiral. É uma guitarra com uma técnica ainda mais apurada que nos apresenta, além da sua voz, utilizada pela primeira vez, com que abre e fecha o álbum.
É um disco em que não se ignora a memória do mestre Carlos Paredes mas também não se fica preso a ela. E a tal portugalidade melancólica inspira o tom expressivo mas não o aprisiona. Parte-se, tal como nos Descobrimentos, à conquista de novos territórios para os colonizar com os dedos de Norberto. “Charleston para Jack” tem toque americano, a belíssima “Aconchego solar” expande-se num gingar de traços africanos e “Chao Min de luz” espreita o Oriente. “Balada para Lhasa” e “Shibuya girls parte II” reinventam o lado introspectivo da música de Norberto, assim como a última faixa, “Fala mansa”, com o músico ao piano.
E depois há “Chuva ácida (Darque)” com a sua introdução com vozes e guitarra em eco até à entrada solene de uns acordes western capazes de uma epifania em que descobrimos algo sobre nós que pensávamos que sempre tínhamos sabido.
“Fala Mansa” transforma-se assim numa viagem de Portugal para o mundo tocada por um poeta da guitarra, uma viagem que atravessa vários estados de espírito até chegar ao fundo de nós próprios.
Manuel Bogalheiro