
Apesar da ligação mais do que explícita com o selo norte americano DFA, a verdade é que Tim Sweeney merece muito mais atenção por seu inovador programa de rádio Beats In Space, transmitido às 3ª feiras à noite pela WYNU do que por sua conexão com o selo de James Murphy.
Em São Paulo para uma apresentação no clube D-Edge, como parte de uma edição da já clássica DFA Night, Tim explica que a ligação com o selo veio de um trabalho como estagiário no estúdio de James Murphy, de quem continua grande amigo – vão estar aliás os dois no dia 14 de Julho, no Festival Super Bock Super Rock, no Meco, em Portugal.
“Na época”, explica ele, “o selo ainda não existia, James estava trabalhando no disco dos The Rapture e eu era um assistente na gravação do disco.”
O álbum em que ambos trabalhavam era o conhecido “Echoes”, e principalmente o single “House Of Jealous Lovers”, pontapé inicial na segunda manifestação do encontro da cultura indie-rock com música de dança, depois do que aconteceu na viragem dos anos 80 para os 90 na Manchester da Haçienta e dos Stone Roses ou Happy Mondays.
“Estava estudando na mesma Nova Iorque que hoje transmite meu programa. O meu curso era música e por alguns caminhos acabei caindo neste círculo de pessoas. Ao longo do meu trabalho, acabei virando uma espécie de DJ de certas digressões da DFA, às vezes sozinho, outras vezes com Tim Goldsworthy e isso ao mesmo tempo era o começo do selo. Em alguns shows do Rapture nós servíamos como abertura, para criar clima para a noite”.
Influenciado mais pela vontade de fazer algo diferente do que propriamente por algum radialista favorito, ele explica que “sem dúvida, meu irmão sempre tinha algo novo para me mostrar na minha adolescência em Baltimore. Quando alguém conseguia uma fita com uma edição Solid Steel do Coldcut, aquela fita se tornava preciosa e era copiada por todos os entusiastas por novas tendências”.
Não é difícil sentir a influência do ecletismo da dupla Coldcut e da sua editora Ninja Tune na música que Sweeney celebra, em que poucas barreiras são erguidas entre os estilos. Na D-edge, sua sessão de quase cinco horas, poderia ser descrita como um panorama de tudo o que de mais importante aconteceu na história da música tocada em clubes nos últimos 40 anos.
Explicando este ecletismo, comenta que “a DFA ajudou muito a quebrar barreiras de estilos que eram um tanto marginalizados como a música ‘disco’. A DFA ajudou a tirar o preconceito de pessoas pouco acostumadas com certos estilos”.
No Brasil tem havido uma grande discussão na imprensa sobre o fim dos clubes e da cultura da noite. Ciente deste problema, ele comenda que “os clubes acabaram.” Hoje em dia a maioria das coisas em Nova Iorque “acontecem em bares, mas as melhores festas, com as melhores ideias, acontecem em lugares ilegais”.
Em São Paulo, sem a menor dúvida algumas das melhores ideias têm origem no coletivo Voodoo Hop, que tomou de assalto o centro da cidade, com festas em lugares nada usuais e com propostas de som que fogem do lugar comum.
Para meu espanto, ele demonstra familiaridade com o nome e obviamente com o tema. “Ano passado, as melhores festas foram ilegais, uma pessoa simplesmente abria o seu Loft com um som bom e a festa acontecia neste tipo de ambiente, mas este ano eu duvido que seja assim, a polícia vai ficar muito alerta neste verão em Nova Iorque”.
A grande resposta de público de Tim, parece confirmar a teoria de que os Europeus parecem entender melhor certas propostas dentro da ampla esfera da música eletrônica. Segundo ele “a maioria do meu público está concentrada na Europa, principalmente em Londres, mas quando alguém como Rebolledo faz uma sessão no meu programa, a resposta do Chile e do México, acaba sendo bem grande”.

Festas Voodoo Hop em São Paulo
Com naturalidade, o assunto passa a ser a incrível ascensão da dupla Wolf + Lamb, que este ano lançou o celebrado “DJ-Kicks” em parceria com outra dupla, o Soul Clap. E Tim comenta: “eles representam bem duas coisas que acabamos de conversar: as festas ilegais – quando Wolf + Lamb organizavam as festas no Marcy Hotel, aquilo era ilegal ao ponto de nem mesmo o proprietário do prédio saber o que acontecia – e o facto de eles serem conhecidos nos EUA, mas na Europa terem o estatuto de estrelas, tocando em todos os festivais de Verão.”
Se a conexão com a DFA hoje em dia tem razões mais históricas do que práticas, Tim quase me derruba da mesa ao explicar que seu próximo grande projeto é um selo que ele – obviamente – não revela nem o nome nem os primeiros artistas contratados.
“Será bem diversificado”, explica, “a arte dos discos será um assunto importante neste selo onde vinil, arte e música vão caminhar juntas”. Para um dos lançamentos Bjorn dos Black Dice cuidará da arte. Com os primeiros lançamentos marcados para Junho-Julho, só nos resta esperar que o próximo passo de Tim como proprietário de um selo, seja tão bem sucedido quanto seu programa de rádio e sua carreira como DJ.
Oito da manhã em São Paulo, fim da maratona de cinco horas de Tim discotecando naquele que é o templo da música eletrônica do Brasil. Na noite anterior, os mesmos gira-discos eram manipulados pela dupla Catz ‘n’ Dogs da Polônia e na semana seguinte pelos canadenses do Art Deparment.
Meras oito horas depois, Tim está assistindo o francês Joakim tocando ao ar livre no Museu da Imagem e Som da cidade de São Paulo, em um evento curado pela já citada Voodoo Hop . Naquele exato momento a impressão que fica é que se algo une todos estes personagens – em teoria – díspares, é o ecletismo.
Enquanto Joakim derruba a agulha em seu remix de “Superstition” de Stevie Wonder, fica claro que sim, apesar da cultura dos clubes dar sinais de cansaço, enquanto pessoas como Tim Sweeney, estiverem quebrando as barreiras, ainda existirá inteligência acontecendo nas pistas de dança.
Eduardo Pereira