
Nice Up (feat. Juakali)
Cardopusher é relativamente desconhecido, mas não é um novato. Natural de Caracas mas residente em Barcelona tem um percurso que passa por géneros como o breakcore e o dubstep menos convencional, sempre submetido às influências tropicais e sul-americanas. Apesar de estar inserido num meio musical onde a diversidade é a regra, conseguiu superar as expectativas e assumir uma postura camaleónica através da constante experimentação com estilos, velocidades e influências. Esta postura assume a sua máxima expressão neste seu terceiro LP.
Nunca se sentiu à vontade com os limites do dubstep “clássico”, popularizado com as produções de Digital Mystikz, Kode9 ou Loefah, por isso deve estar deliciado com a liberdade oferecida aos criadores da cena bass actual. O público cresceu, os ouvidos tornaram-se mais receptivos, o leque de influências expandiu-se e vivemos uma época de “vale-tudo”, onde as mais distintas sonoridade são agrupadas no mesmo saco sob o rótulo bass globalizado. Boas notícias para Luís Garbán, o nome verdadeiro do venezuelano, que nos últimos tempos tanto visita as bases rítmicas do reggaeton, como se vira para o tipicamente britânico 2step garage. Dificilmente se é mais “globalizado” que isto.
Neste álbum leva-nos numa viagem entre estilos e geografias. Ora estamos perante um tema de 2step sonhador mas dançável como “Paintbrush”, ora nos faz abanar a cabeça ao ritmo do funk/boogie electrónico de “We want ca$h”, mas também nos leva para a bass mais mecânica e tecnóide com “Yr fifteen minutes are up”. Mas há mais: uk funky, kuduro, house e todos esses fragmentos estilísticos que definem a sua identidade como produtor.
Para um álbum tão disperso em termos estilísticos, é surpreendentemente coeso. O venezuelano tem aquela rara habilidade de deixar o seu cunho pessoal em todas as suas produções, que se nota nas melodias sintéticas e vibrantes, vozes cortadas e batidas feitas para a pista. Isto poderia ser dito para muitos outros, mas no caso da música de Cardopusher faz duplamente sentido.
Estamos perante um álbum que representa o estado do bass globalizado, dando um exemplo do quão plural e inclassificável se tornou uma cena musical que, apesar de se poder dizer que começou nos subúrbios de Londres, está tudo menos circunscrita a uma realidade local. Tendo a bass britânica saltado as fronteiras e assimilado os sons do mundo, é de estranhar que tenha demorado tanto até aparecer alguém que entendesse este fenómeno tão bem como Cardopusher.
João Pedro Silva