
Edição: YB Music, Brasil
“Ditado”
No chão sem o chão: um compositor que evoca sua “geração”, mas cujo trabalho é irredutível a análises de conjunto e comportamentos geracionais; um cantor de voz grave e macia que deseja provocar a discussão acerca dos destinos da canção brasileira; um experimentador em busca de soluções desafiantes, porém assentadas na sensibilidade popular. Se a compatibilidade entre o discurso e a produção de Romulo Fróes parece precária, o mesmo não se pode dizer dos aspectos internos da obra. Estes indicam um trabalho regular em alguns aspectos, descontínuo em outros, mas que sempre convidam o ouvinte para uma avaliação de conjunto da obra.
Aqueles que, como eu, acompanham sua carreira desde o hibridismo abundante de “No Chão Sem o Chão” (2009), estranham o sambista esmerado dos dois primeiros trabalhos. Para além da entonação e da instrumentação que induziram à imagem do “sambista de raiz”, “Calado” (2004) e “Cão” (2006) já revelavam uma acentuada sensibilidade crítica, impressa em sambas oblíquos e peças inusitadas – por exemplo, a versão demolidora de “Mulher sem alma”, de Nelson Cavaquinho, violentamente entrecortada por solos de bateria executados pelo instrumentista e songwriter Curumin.
Em “No Chão Sem o Chão“, a tendência crítica e irônica se confirmou plenamente, mas segundo uma roupagem musical mais diversificada: rock de tudo quanto é tipo, frevo, sambalanço, ska, pós-punk e até mesmo o velho samba, temperavam as experiências cancioneiras do autor e de seus parceiros, os artistas plásticos Nuno Ramos e Clima. Curiosamente, o trabalho de Fróes se tornou mais conhecido depois de “No Chão Sem o Chão“, justamente o álbum que concentra os momentos mais complexos de seu trabalho. Esgotando as possibilidades de uma sintaxe poética elaborada e inquietante, movida a paradoxos que solapam a referência da linguagem cotidiana, as canções encerram um conjunto coeso e marcante no cenário cancioneiro da língua portuguesa.
Duas tendências se misturam nestes primeiros trabalhos. A primeira, lírica, diz respeito às experiências com as composições, concomitante a recorrente preocupação em refletir sobre a atualidade do cancioneiro brasileiro. Esta vertente foi reforçada pelo próprio autor, em artigos e entrevistas dedicados a refletir sobre o contexto e sua produção. A segunda, musical, serviu para assinalar uma posição em relação ao mesmo cenário musical. O foco se fixou na peculiaridade das canções, enquanto pouco se falou a respeito do trabalho propriamente musical. De nada adiantaria experimentar os limites da canção sem conferir um aspecto sonoro condizente com a ambição da empreitada.
Apesar de confirmar já no título a linhagem poética curto-circuitada, este disco descortina um novo capítulo na obra de Fróes. Estamos diante de mais um trabalho que obtém sua força do paradoxo: “Um Labirinto em Cada Pé” confirma o interesse em burilar a forma da canção, mas sublinha a busca de uma roupagem musical tão mais elaborada quanto enxuta. Trata-se de um trabalho no qual o aspecto “sonoro” sobressai ao lírico, equilibrando as aquisições anteriores com uma concepção preciosa, na qual se destacam os arranjos encorpados e a riqueza de detalhes. Boa parte desta característica se deve ao trabalho do compositor, cavaquinista e percussionista Rodrigo Campos, que se utiliza de sonoridades características do samba, reconfiguradas para compor com a instrumentação de base. Como em “Varre e Sai”, um samba jazz com tinturas psicodélicas; “Muro”, a lembrar um carimbó, mas também trazendo um balanço comparável ao d’A Outra Banda da Terra; “Ditado”, um rock-rap, explorando as notas agudas do cavaquinho, e “Rap em Latim”, outro samba-rap entoado pela voz grave de Arnaldo Antunes.
Porém, tomemos a faixa “Boneco de Piche” (Fróes e Nuno Ramos) como exemplo fundamental. A começar pela composição, preenchida por desconfigurações semânticas (“Agora é minha voz / Ele morreu por nós” ou “Grudaram um soco em mim / Como um cara ao contrário”) e nexos estranhos entre a paisagem carioca e signos religiosos, “Boneco de Piche” é uma faixa desconcertante. Sua forma rítmica se destaca por uma combinação eficaz de frevo, choro e rock, executada por um trio digno de nota, formado por Marcelo Cabral, Pedro Ito e o mesmo Guilherme Held. A colaboração fundamental de Campos se destaca no diálogo agudíssimo entre a cuíca e o cavaquinho, acompanhado pela guitarra sutil de Held, em um dos grandes momentos do álbum.
Esta é obra de transição, promovida por um artista que retirava sua expressão do distanciamento de quem mirava a música com “cabeça” de artista plástico. Ainda que por um caminho sinuoso, “labiríntico”, Romulo Fróes chega ao quarto álbum com os dois pés fincados na música. “Um Labirinto em Cada Pé” traz um “cantautor” mais coeso, e talvez por isso, mais palatável. “Ninguém canta para ninguém”, anuncia a voz a capella de Dona Inah, na faixa de abertura, “Olhos da Cara” – mais uma prodigiosa transfiguração de um elemento oriundo do samba. Não se discute o mérito da poesia… Mas é evidente que um autor tão interessado no poder inebriante da canção há de cantar para alguém, ainda que não precise afrouxar sua criação para isso.
Bernardo Oliveira