
Edição: Planet Mu CD, 2xLP
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Foi nos ghettos de Chicago, a cidade que viu nascer o house, que se incubou na última década um género de música electrónica que a editora Planet Mu tratou de revelar ao mundo. Falamos do juke, construções cruas assentes na repetição de samples vocais a alta velocidade, qual ‘ghetto house’ em metanfetaminas, inspirando passos de dança igualmente frenéticos. Com o apoio de Mike Paradinas, fundador da Planet Mu, este género saiu dos becos escuros de Chicago e foi assimilado pelo universo amorfo do ‘bass’, tornando-se mais uma influência a ser explorada por uma nova geração de produtores, como são Crissy Murderbot, Addison Groove, e agora também o é Machinedrum.
De seu nome Travis Stewart, o americano que assina produções há mais de 10 anos como Machinedrum já se deixou influenciar por numerosos géneros electrónicos, desde a IDM ao hip-hop abstracto, fixando-se nos últimos anos nesta ligeiramente inclassificável bass music, que interpreta com a sua habitual irreverência. Para o seu último LP, “Room(s)”, absorveu o juke como referência para criar algo distinto, ao contrário de produtores como Crissy Murderbot que se apropriaram das suas convenções para apresentar uma versão mais polida e consistente do género, criando uma espécie de “juke bem feito”. No caso de Stewart, o juke é posto lado-a-lado com as convenções da bass music actual, como são o revivalismo do garage em tons futuristas, a manipulação obsessiva de vozes, os breaks complexos, a percussão africanizada, os pianos da rave.
Não podemos assim dizer que estejamos perante um álbum de juke, mas este parece ser a cola que une tudo o resto. Machinedrum confere aos ritmos frenéticos de 150bpm de Chicago a sensibilidade e a execução imaculada que precisavam para se afirmar como género válido, numa espécie de manifesto que diz “prestem atenção porque é assim que se faz”. As produções são densas, complexas e possuidoras de uma carga emotiva que cabe às vozes alteradas e aos sintetizadores transmitir. Mas não é só isto: elementos ‘deep’ típicos do house e recuperados para o revivalismo do garage, drum&bass e dubstep encontram lugar no complexo cocktail de sonoridades urbanos que Travis Stewart cria, por vezes tudo ao mesmo tempo. Basta ouvirem “U don’t survive”, “GBYE” ou “Lay me down” para perceberem o contraste entre o aparente sentimentalismo da faixa, que só não é lamechas pela energia que a percussão transmite.
O mesmo podia ser dito de qualquer uma das faixas, desde as mais introspectivas como “She died there” até às mais focadas na pista como “Now U know tha real 4 deal”, todas apresentam uma deliciosa ambiguidade que faz de “Room(s)” uma experiência auditiva recompensadora, ainda que desconcertante. É daqueles discos que consegue ser simultaneamente revitalizante e deprimente, enérgico e contemplativo, alegre e sentimental. Machinedrum, no seu décimo longa-duração, criou mais um testamento à vitalidade e versatilidade da electrónica de dança, que se reinventa e aperfeiçoa a cada dia que passa, descrição esta que poderia também ser facilmente aplicável ao próprio Travis Stewart.
João Pedro Silva