
Luis Garbán é Cardopusher, um produtor e DJ venezuelano residente em Barcelona, cuja abordagem ecléctica e criativa perante a bass music já o tornou num dos nossos artistas electrónicos favoritos desta nova geração. Para Cardopusher bass music é apenas um nome, dentro do qual situa as suas faixas híbridas onde a lista de influências impressiona pela sua dimensão. Assim, não se admirem se ao ouvir o seu último álbum, “Yr Fifteen Minutes Are Up”, reconheçam elementos 2step, electro, reggaeton, hip-hop, dubstep, cumbia, funk, house e sabe-se lá mais o quê, muitas vezes em simultâneo.
Desta forma, torna-se bastante óbvio que Cardopusher é um artista difícil de definir, sendo precisamente esta atitude camaleónica perante a música e uma vontade contínua de inovar, as únicas constantes ao longo da sua carreira. Começando pela agressividade do breakcore, passando pelo dubstep e terminando neste estranho e diverso mundo do bass globalizado, quisemos saber um pouco mais sobre quem é o homem por trás das máscaras.
A propósito do lançamento de “Hard Ass Sessions Vol VI”, o último disco da editora lusa Enchufada que inclui um cativante tema de Cardopusher, estivemos à conversa com o venezuelano onde se falou das suas influências, da ligação a Portugal, como é crescer em Caracas e o estado da electrónica actual. Sempre com muito humor, claro, pois falamos de Cardopusher.
Cardopusher – Naked In Front Of A Broken Computer
Começaste por fazer breakcore, mashups e coisas bastante agressivas. Com o passar do tempo fizeste a mudança para o dubstep, começaste a assumir mais uma sonoridade tropical ao incorporar elementos de reggaeton e cumbia, e agora misturas tudo com a chamada bass music e a cultura de soundsystem britânica. É difícil definir a tua abordagem em relação à música, já que muda de disco para disco. Como a defines tu?
Prefiro dizer simplesmente que é bass music, porque não consigo arranjar nomes para tudo o que faço. Às vezes apetece-me fazer três temas mais electro, ou temas mais anos 80, ou mais juke. É a maneira que encontrei de me manter animado e inspirado, porque senão aborreço-me. Passo muito tempo em casa, e se tiver sempre a fazer o mesmo tipo de música aborreço-me.
Estas mudanças de estilo são algo consciente ou é o que sai?
É completamente improvisado. Por exemplo, amanhã ouço um disco que gosto, sinto-me inspirado e faço uma coisa nesse registo completamente diferente. Se ficar satisfeito tento fazer mais coisas nessa onda, até que de repente tenho três ou quatro faixas, e converte-se numa demo.
Há uma entrevista com o Martyn (produtor holandês, fundador da editora 3024) em que ele dizia que quando tens sucesso num determinado estilo de música, o público vai exigir que faças só aquele estilo. Se cedes a essas exigências, acabas por entrar num ciclo vicioso. Alguma vez sentiste essa pressão do público para te manteres fiel a um só registo?
Antes de começar a fazer dubstep eu já fazia breakcore há uns anos e tinha até dois álbuns editados. Quando se deu a mudança entre os estilos foi um pouco intenso, porque ia tocar a festas e as pessoas esperavam breakcore e eu passava dubstep. Havia muita gente a insultar-me durante as actuações. Ainda hoje em dia recebo hate mail de gente que me chama de vendido, a dizer que deixei o breakcore para fazer música para os clubes. É uma loucura. O mais ridículo é que agora também estou a sentir algo parecido em relação ao dubstep, agora que estou a tocar temas mais house, coisas novas.
Bom, a mudança de breakcore para dubstep foi bastante radical. Já a do dubstep para a bass music mais actual não me parece tanto um corte, é a evolução natural das coisas.
Eu também não acho que seja um corte. Simplesmente acho engraçado que muita gente que me insultou quando comecei a fazer dubstep e dizia que não prestava, agora está a fazer ‘brostep’ (subgénero do dubstep onde o ênfase está na agressividade). Não entendo, insultam-me e acabam por fazer merda? As pessoas nunca vão estar contentes. Quando finalmente começarem a apreciar o uk funky, já o tocamos há cinco anos e temos vontade de tocar coisas novas, por isso esta situação vai ser sempre igual.
Acabas de lançar o teu terceiro álbum “Yr Fifteen Minutes Are Up”, que na nossa crítica dissemos que parecia uma espécie de tratado sobre o ‘bass globalizado’. Tem elementos da cultura soundsystem britânica como o garage, tem reggaeton, kuduro e até um pouco de hip-hop. Qual é o objectivo que pretendes atingir ao criar um álbum tão variado?
A primeira coisa em que pensei ao criar o álbum foi que se tratasse de uma história, do princípio ao fim, e não uma selecção de dez ou quinze temas feitos exclusivamente para a pista de dança. Por exemplo no último álbum de Instra:mental os temas são todos incríveis, mas como álbum aborrece-me bastante: todos os temas estão no mesmo registo. Acho que quando queres sentar-te a ouvir algo e a disfrutar, procuras que se crie um ambiente, um certo estado de espírito, que tenha dinâmica.
Há muito tempo que se fala bastante do papel do formato de álbum dentro da música electrónica, em que se discute precisamente isso. Tratando-se geralmente de temas feitos a pensar na pista, há quem defenda o formato do EP e do single como o mais adequado para este tipo de música. O que opinas disto?
Parece-me que a música electrónica – principalmente a que estamos a viver agora – é um pouco consumista, como a comida rápida. Saem temas hoje, saem mais a semana que vem e passado duas ou três semanas já não é nova, já estás farto de as ouvir e de as tocar. Não acontece com todos, claro, mas é o que se passa com a generalidade das pessoas. É uma pena porque passas muito tempo a fazer um álbum para que as pessoas o ouçam durante dois ou três meses, no máximo. Quando lancei o segundo álbum fui fazer uma digressão durante um ano inteiro, em que não tive que me preocupar em lançar material novo. Hoje se queres tocar tens de estar sempre a lançar discos e mais discos, o que me parece uma merda.
Sentes que tens que estar constantemente a relembrar as pessoas que estás aqui a fazer música?
Exacto. Como há cada vez menos controlo de qualidade, todos os dias aparece um estilo novo ou uma editora que lança música grátis e as pessoas cansam-se. Chega a uma altura em que nos perdemos porque estamos sempre a ouvir coisas novas. Depois lanças um disco passado cinco meses e as pessoas lembram-se que estás ali.
Cardopusher – We Want Ca$h (feat. Sensational)
Como têm sido as reacções ao álbum? Sem contar com o hate mail, claro.
Têm sido bastante boas. As pessoas ficaram surpreendidas com o que fiz, houve muita gente aberta a ouvir esta nova direcção e tive muito bom feedback. Agora estamos a promover o disco. Já saiu o primeiro single, “Coppertone Punch”, e agora estamos a preparar o próximo, que vai ser o tema “We Want Ca$h”, com Senstional. Vai haver remisturas de Nehuen, Sesped, Pocz & Pacheko e Kid606. Estamos a tentar tirar o máximo partido do álbum.
Quanto tempo demoraste a criar o álbum? Como é o teu método para criar música?
Demorei uns cinco ou seis meses a fazer o álbum. Eu trabalho com Ableton Live, não tenho nenhum tipo de hardware, é tudo feito com o programa e uns controladores MIDI. Começo pela percussão, depois junto umas melodias, o baixo e surge a ideia principal. O mais fácil possível.
Dentro de toda a variedade de coisas que fazes, sentes que há uma identidade Cardopusher?
Sim, acho que se nota a minha identidade. Sempre que mostro temas aos meus amigos dizem-me que parece o estilo tal, mas feito à maneira do Cardopusher. Inconscientemente acaba por ter sempre o meu cunho pessoal.
E como é o teu cunho pessoal?
Acho que é a maneira de escrever, as melodias, o humor que têm os temas. Por exemplo o humor do tema “Tu Bizcochito”, que acabou de sair pela Enchufada, é bastante parecido ao humor que tinham os meus temas de breakcore. Gosto bastante disso. Inspirei-me muito no humor do Kid606, principalmente quando começou há uns dez anos atrás. Ou Shitmat, um inglês que começou a lançar na Planet Mu, que também fazia coisas na base do breakcore e dos mashups. Este tipo de humor sempre foi uma grande influência.
Cardopusher – Tu Bizcochito by cardopusher
Já não é a primeira vez que referes Kid606 nesta entrevista. Que outros artistas te influenciaram a fazer música?
Uma das minhas bandas favoritas de sempre são os Mr. Bungle, cujos álbuns eram todos diferentes uns dos outros. Tanto faziam temas de death metal como de reggae e funk, e isto foi uma coisa que me chamou muito a atenção. Venetian Snares também. Influências mais recentes posso dizer Kode9 e Digital Mystikz, foram muito importantes, mas também Actress, Cosmin TRG, Dâm-Funk. Há muita coisa, é complicado lembrar-me de todos!
2011 está a ser um ano muito preenchido para ti. Lançaste o álbum e o single “Coppertone Punch”, estás a preparar o segundo single “We Want Ca$h”, a Iberian Records lançou o tema “Dembow Together”, a Enchufada acaba de lançar o “Tu Bizcochito” e sei que está para breve um EP também na Iberian Records. Que mais tens preparado?
Sim, em finais de Agosto vou lançar um tema num disco da Frisfjo Beats, juntamente com Geiom, Submerse e Desto. Depois em Setembro vou ter um EP de quatro temas meus também na Frisfjo Beats, o próximo single de remisturas que falaste na Tigerbeat6, o EP na Iberian Records e um single na DVA Music. Ah, e há três semanas saiu uma remistura minha do projecto do James Franco com o Kalup Linzy.
Muito trabalho, então.
Sim, como uma máquina!
Isso lembra-me de quando falámos com o Lil Silva há uns meses, quando veio tocar à FACT Night. Quando lhe perguntámos sobre que conselhos dava aos produtores que estavam a começar, disse para não terem pressa em lançar material, que era melhor ter poucos temas de qualidade do que muito material desinteressante. Achas que a quantidade pode ser conciliável com a qualidade?
Eu sou da opinião de que deves esperar, demorar o teu tempo a trabalhar nas coisas. Como faz o Machinedrum para lançar um disco novo todos os meses, com dois projectos paralelos? O FaltyDL também tem um vinil novo cada mês. Claro que eles sabem fazer as coisas bem, mas gostava mais da época em que te podias sentar a disfrutar a música, em vez de estares constantemente a ser bombardeado de música nova.
No entanto este ano vais lançar à volta de 10 discos. Também é quase um disco por mês.
Sim, mas também se atrasaram muitas coisas e chegou tudo ao mesmo tempo. O álbum deveria ter saído o ano passado, um dos temas que vai sair na DVA já está feito há um ano, o da Iberian Records também demorou uns cinco ou seis meses. Eu faço à volta de um tema por semana, é o meu trabalho, e assim vou lançando quando posso.
Tens estado a tocar em muitos sítios? Acabaste de vir do Norberg Festival na Suécia, por exemplo.
Bom, nem por isso. Uma vez por mês, mais ou menos. Quando lancei o segundo álbum cá tocava no mínimo duas ou três vezes por mês em países diferentes, ou até várias vezes por semana. Na Suécia correu muito bem, toquei com Claro Intelecto da Modern Love. Foi brutal, são muito porreiros. Vi Dopplereffekt mas não consegui apanhar o concerto do Stephen O’Malley, dos Sunn O))). Também havia uns tipos porreiros a tocar bassline e breakcore. Um festival pequeno mas muito variado.
Qual foi o sítio em que mais gostaste de tocar?
Tóquio!
Vives exclusivamente da música?
Sim, desde que vim viver para Barcelona há uns três anos que tive essa possibilidade.
E antes fazias o quê?
Antes trabalhava num estúdio em Caracas com o Pacheko. Ele é sócio de um estúdio que faz música para a televisão, para canais por cabo. Eu fazia parte da equipa, mas como freelancer.
Então agora vives da música que tu queres fazer, mas já vives da música há mais tempo. Quando é que soubeste que era isto que querias fazer?
Sim, é isso. Soube desde que comecei o projecto do Cardopusher. Aliás, comecei-o porque pensava que se há outros que conseguem viver disto, então eu também consigo. Via vários músicos que mesmo não sendo famosos iam lançando discos aqui e ali, e depois eram chamados para tocar e tal, e eu sempre soube que adorava fazer isso. Fui fazendo música e treinava a tocar nas festas. Fui crescendo, consegui uma digressão na Europa em 2006 e depois disso decidi que queria mudar-me para aqui. Dois anos depois vim para Barcelona.
Essa mudança de Caracas para Barcelona deveu-se a procurares novas oportunidades profissionais, ou houve outros motivos?
Essa foi uma das razões principais, mas a situação sócio-política que se vive na Venezuela é muito desgastante, e ajudou muito à minha decisão.
Como é crescer e viver em Caracas? Como vês a tua cidade natal agora que não vives lá?
É bom, é uma cidade muito grande. Sou de lá, tenho lá a minha família e amigos, e não o trocaria por nada. Sinto que o facto de ter crescido na Venezuela tem uma grande influência na minha música, mesmo que inconscientemente. Pelo facto de nascer na América do Sul ouvi todos esses estilos de música desde pequeno, como o reggaeton, que acabaram por definir os primeiros passos do Cardopusher. Se tivesse nascido na Suécia não estaria a fazer nada do que estou a fazer agora, por isso dou graças por ter nascido onde nasci. No entanto, fico um pouco triste ao ver a situação actual de Caracas: a cidade é perigosa, as pessoas estão tensas e isso vê-se na cara delas, na atitude. Sentes uma tensão constante, por isso muita gente saiu de lá. Tenho poucos amigos que ainda lá estão. O panorama não está muito bom. Tenho muito respeito pela minha cidade e gosto muito dela, mas lamentavelmente a situação actual é terrível.
Foi fácil ires viver para Barcelona? Espanha cada vez dificulta mais a entrada de emigrantes da América Latina.
Tive que pedir um visto de estudante. Inventei que vinha para um curso qualquer para poder entrar e sair do país, para tocar por aí. No entanto, a minha namorada veio com um visto de turista sabendo que ia ficar em situação ilegal, e assim esteve estes três últimos anos. Casámo-nos este ano, e como o meu avô era espanhol ela já pode ter nacionalidade espanhola, e finalmente estamos sem problemas.
PACHEKO & POCZ: TUKI LOVE VIDEO from Pacheko on Vimeo.
A Enchufada lançou o tema “Tuki Love” de Pocz & Pacheko no EP “Hard Ass Sessions Vol. V”, que criaram ao inspirar-se num estilo electrónico que nasceu na Venezuela. Fala-me do que é o ‘tuki’, o ‘raptor house’ e estes géneros nascidos em Caracas que a Europa começa agora a descobrir.
Bom, é como o house só que feito ali. As diferenças não são assim tantas. O estilo surgiu em 2005/06 mas não teve muita projecção porque era música de ghetto, feita por gente de poucos recursos. Lamentavelmente a Venezuela é um país muito classista: ou és muito pobre, ou tens demasiado dinheiro. Quando surgiu este tipo de música não foi apoiado em nenhum lado, as pessoas não gostavam que houvesse este tipo de eventos, então acabou por morrer. Agora parece estar a regressar, da mesma forma que está na moda a cumbia ou o juke. Pessoalmente não é algo que me agrade muito, mas cada um com o seu estilo.
Lançaste pela Iberian Records e agora pela Enchufada. Parece haver uma ligação de Cardopusher às editoras portuguesas. Como nasceram estes contactos?
Sim, há! Bom, a Iberian está dividida entre Lisboa e Barcelona, portanto acabei por conhecer essa malta quando vim viver para aqui. Há uns dois anos fiz uma remistura para a Corsario Riddim, que é a editora digital fundada pelo 23hz e Numaestro (co-fundadores da Iberian Records), e desde aí estivemos sempre em contacto. Depois de algum tempo comentaram-me a ideia de fazer uma espécie de compilação, que acabou por ser a série de EPs “Tax Haven”. Passei-lhes o tema “Dembow Together” e disseram-me que gostaram muito, o que me surpreendeu bastante porque pensava que procuravam algo mais “standard” dentro da bass music. Apesar de tanto a Iberian como a Enchufada terem aquele ar tropical pensava que procuravam coisas mais do género de Octa Push, mas afinal gostaram bastante. E o facto de também incluirem nos “Tax Haven” material do Nehuen e do Mr Gasparov, que somos todos amigos aqui de Barcelona, deu um ambiente muito familiar à coisa.
Cardopusher – Dembow Together
Já ouvi um pouco do teu EP que vai sair na Iberian e aí mostras mais uma faceta nova do som de Cardopusher. Pareceu-me um pouco na linha do Dâm-Funk, mas dos trópicos. O que podemos esperar deste disco?
A ideia do EP nasceu depois de uma noite da editora Rephlex aqui em Barcelona. Tocou Aphex Twin, DMX Krew, Luke Vibert e os DJs Rephlex Records. Eu fui lá e fiquei muito emocionado, porque a Rephlex sempre foi das minhas editoras favoritas e estes artistas – especialmente DMX Krew e Aphex Twin – são dos que mais me inspiraram até hoje. Estive lá toda a festa completamente impressionado, a ouvir aqueles temas na onda mais 80s e funk, e esta noite inspirou-me tanto que nos dias a seguir pus-me a tentar fazer algo neste registo. Algo tipo Astrobotnia, uma coisa meio espacial, meio acid, meio electro. E pronto, saiu o EP.
E a oportunidade de lançar o tema na Enchufada, como surgiu?
Eu estava a fazer o tema “Tu Bizcochito” e já tinha vontade de o enviar à Enchufada. Curiosamente, durante esses dias o J-Wow fez um post em que dizia que estava a fazer uma compilação e pedia que lhe enviassem faixas. Decidi acabar a faixa, enviei-lha e ele disse que gostou muito e que queria lançar. Eu fiquei muito contente porque os Buraka Som Sistema são também uma grande influência, é uma banda que respeito muito, e a própria Enchufada é uma editora que trabalha muito. É uma honra para mim fazer parte desta equipa, e aprofundou ainda mais a minha relação com Portugal.
Para aumentar ainda mais esta relação, só vindo cá tocar. Quando vamos poder ver Cardopusher ao vivo em Lisboa?
Tenho imensa vontade, estou à espera de um convite há bastante tempo! Hay ganas!
João Pedro Silva