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Sobre a máquina: Areia

Edição: Sinewave


Barca

“Rio que mora no mar…”, apregoa a canção, impregnada por uma visão idílica do balneário mais célebre do Brasil. Grosso modo, pode-se afirmar que as inflexões mais cerebrais da música do século XX não se acomodaram à anatomia cultural do Rio de Janeiro. Não há por aqui, como há em São Paulo ou no sul, o hábito da música experimental, e particularmente daqueles gêneros que se sustentam sobre um paradigma essencialmente experimental, como é o caso, por exemplo, do noise, do drone, da IDM, da eletroacústica, etc. Não seria exagero afirmar que, por muitos anos, nomes como Black Future, Zumbi do Mato, Chelpa Ferro e Rabotnik, sustentaram o segmento experimental na “cidade maravilhosa”.

Nos últimos dois anos, a consolidação do Plano B, uma loja de discos com ampla programação, revelou que, mesmo em um contexto desfavorável, floresceu pelo Rio um interesse voltado à experimentação musical estrito sensu. Localizada na Lapa carioca, destacou nomes como J-P Caron, Marcos Thanus, Filipe Giraknob, Lê Almeida e muitos outros, distribuídos por diversos grupos e projetos, confirmando a consistência da cena. Pouco depois, o estúdio de ensaio Audio Rebel passou a alugar seu espaço para festivais de bandas alternativas, reunindo o post-rock prematuramente finado do Avec Silenzi, o metasoft-rock do Dorgas, e o shoegaze-darkwave do Sobre a Máquina, que acaba de lançar o EP “Areia”.

Quero dizer que, por si só, “Areia” já é um fato curioso, dado o contexto e a predisposição dos artistas.  Tanto que meu primeiro contato com o Sobre a Máquina se deu através de um blog estrangeiro. Tratava-se de um trio carioca por trás do sombrio “Decompor”, que se destacava pela eficácia com que construíam blocos sonoros tingidos por um alto grau de abstração, o que levava a crer tratar-se de improviso. Neste momento, lembravam Keiji Haino, não só pela abstração, mas também por buscarem a qualquer custo reforçar o ambiente sombrio.

Mas agora, o Sobre a Máquina mudou a tonalidade de sua música. Nas quatro faixas de “Areia”, Cadu T, (ex-integrante da banda Ceticências), Emygdio Costa e Ricardo Gameiro, com a colaboração do saxofonista Alexander Zhemchuzhnikov, se avizinham do lirismo de Fennesz e Tim Hecker. Conjugando as sonoridades mais suaves (uma linha melódica de piano em “Barca”, uma linha de baixo em “Garça”), constróem uma sonoridade confusa no melhor dos sentidos. De um shoegaze improvisado e sombrio, o grupo passou a operar com ares melodiosos, mas dentro de um âmbito sonoro saturado de pequenos sons sobrepostos: sons de vozes, percussões, sintetizadores, costurados com agulha fina, senso de direção e, principalmente, ímpeto.

“Areia” reforça a importância do Sobre a Máquina em uma cena que ainda não pode ser medida adequadamente com a régua da história. É preciso aguardar os próximos passos, mas pode-se dizer, de saída, que finalmente o leque musical carioca adquiriu outras tonalidades. Evidente que “Areia” tem algumas limitações, particularmente ligadas à mixagem (um pouco desequilibrada em alguns momentos) e à própria condução das faixas, que dado o caráter viajandão, demandava um desenvolvimento mais paciente. Mas no cômputo geral, trata-se do despontar de uma banda que pode vir a criar um belo trabalho.

Bernardo Oliveira

 

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