
Edição: Coqueiro Verde CD
Sob o signo do nonsense, muitos artistas erigiram obras fundamentais. Não quer dizer com isso que se equivalem: entre Raymond Roussell e Salvador Dalí há diferenças substanciais, capazes de sugerir uma escala de tonalidades desse tipo de humor. No caso do compositor, instrumentista e produtor brasileiro Alexandre Kassin esta é uma observação necessária. Seja em grupos como o +2, ou produzindo artistas como Caetano Veloso e Los Hermanos, uma forte inclinação às mais variadas gradações do nonsense atravessa seu trabalho autoral. E isso desde o início dos anos 90, quando tocava uma guitarra muito peculiar no grupo carioca Acabou La Tequila.
Chega a surpreender a percepção de que, mesmo tendo circulado por diversas rodas da música brasileira, Kassin manteve-se estritamente em seu território. Algumas vezes sob a forma de um humor perturbado, outras de canções coloridas e incoerentes, aproximando-se da ironia grotesca do Monty Python, ou das formas desconexas dos Residents e de uma porção de artistas que assinam embaixo do rótulo non-music. Em 2005, sob a alcunha Artificial, uma de suas manifestações menos conhecidas, criou um disco inteiro a partir de sons de game boy.
Ao mesmo tempo, Kassin compõe canções de amor e disco music com a mesma naturalidade com que desenvolve arranjos híbridos e elaborados, lançando mão de um amplo espectro de referências, que vai da bossa e do sambalanço ao pop ordinário dos anos 80. Burilando esta pletora de referências e aspectos, que podem ser colhidos em abundância nas dez faixas de seu “primeiro” álbum solo, Sonhando Devagar, produzindo contrastes entre uma inflexão bem-humorada e detalhes escatológicos e violentos, o autor criou um disco saborosamente doidivanas.
A começar pela capa em 3D, cuja tipografia lembra o traço espasmódico de Alan Voss, ilustrador recém-falecido, responsável por algumas capas d’Os Mutantes. “Sonhando Devagar” reitera o gosto do autor por sonoridades ao mesmo tempo acessíveis e estranhas, avizinhando-o do estilo musicalmente rico, suave e bem-humorado de João Donato – grande compositor brasileiro que flerta abertamente com o nonsense.
A excelente “Mundo Natural”, faixa que abre o disco, se apresenta em conformidade com todos os elementos supracitados: é nonsense, engraçada, estranha, violenta e musicalmente ambiciosa. Através de uma letra que alterna o discurso descritivo com o poético, Kassin apresenta o cenário selvagem no qual age como um predador, admirando o “padrão” que as zebras levam na pele. Ou como “um tubarão pela imensidão azul” à procura do prazer de ter focas “entre os dentes”…
A construção musical acompanha o delírio zoofílico. O timbre suave da voz de Kassin contrasta com as imagens violentas, curiosamente ambientada por uma combinação de cuíca (ou trombone emulando a cuíca) e sopros nas mais diversas direções. Ecos das melodias nostálgicas de Arthur Verocai, um aspecto funk setentista em virtude dos acordes de Fender Rhodes, e uma sofisticação soul que muito artista que se diz ligado ao “soul” não consegue obter. Nesse sentido, reparem também o lirismo do samba realmente rock de “O que você quiser”.
Mas é na segunda metade de Sonhando Devagar que os momentos mais instigantes aparecem. “Lin Quer”, por exemplo, é uma faixa difícil de definir. Batida sincopada acompanhada pelo baixo e a guitarra, melodias de teclado e um violão de 7 cordas improvisando solto, tocado por Luís Filipe de Lima. O tema, como em todo disco, é a sacanagem em seu estado onírico, reiterada nos versos inacreditáveis do sambalanço “Quando você está sambando”: “Minha glande fica enorme, quando o fundo é desfocado”.
“Em volta de você”, um space rock cheio de bossa, conta com uma trama de guitarras e cítara com efeito, enquanto “Sorver-te” encerra o álbum em grande estilo. Letra e melodia engenhosas e ligeiramente evocativas, casam perfeitamente com a síntese de tecnobrega e synthpop dos anos 80, resultando em um aspecto propositadamente sintético.
Boa parte do sucesso do trabalho se deve à instrumentação, executada e gravada com alto teor de consistência técnica e musical. Sonhando Devagar conta com Alberto Continentino no contrabaixo, Stephane San Juan na bateria, Donatinho (filho do supracitado João Donato) nos teclados, Gabriel Muzak na guitarra, Marlon Sette no trombone, e a participação do trompetista Rob Mazurek, um dos nomes mais importante da cena de improvisação de Chicago, com livre trânsito no Brasil – já tocou com Hurtmold, Maurício Takara, Rabotnik, etc.
Digo isso por que, no fim das contas, apesar de toda a carga de conceito e referências, o barato total de Sonhando Devagar é o som. Funciona mesmo nos momentos menos inspirados, nos quais Kassin dá vazão à sua obsessão por canções dorky – “Fora de área” e “Potássio”, principalmente –, ou na emulação discopop infame em “Calça de Ginástica” (“quero transar com você no banheiro dos paraplégicos”). Ou seja, não comprometem o êxito do disco, pelo contrário. Parece que, para o autor, quanto mais contraditórias forem suas referências, quanto mais conturbado seu âmbito criativo, quanto mais choques entre climas e sentidos opostos, melhor.
Bernardo Oliveira