
Edição: Sire/Warner Brothers Records CD
“Annie Hall” (feat. Tiombe Lockhart)
A análise de “NoYork!” requer um acréscimo de paciência do observador, na medida em que uma espessa cortina de fumaça recobre seu lançamento. Nada mais natural: álbuns abarrotados de convidados ilustres constituem uma faca de dois gumes. Por um lado, estimulam o alvoroço da imprensa musical, ocasionando julgamentos precipitados. Depois que os discos são lançados, os mal entendidos se multiplicam, na medida em que muitas das avaliações se atém tão somente ao fato de que as participações estão ali, e isto, por si só, justificaria a notícia.
Raro mesmo é um trabalho no qual a celebridade importa tanto quanto sua representatividade numérica: nada. É preciso, neste caso, percorrer a curva criativa da carreira do rapper de Los Angeles, Johnson Barnes, conhecido simplesmente como Blu, para entender em que pé anda seu hip-hop. Oriundo de dois projetos incensados pela imprensa musical (Johnson&Jonson com Mainframe e C.R.A.C. Knuckles), Blu tirou o ano de 2011 para construir uma carreira solo, que já se configura com mais consistência e solidez do que muito veterano que anda por aí.
Através de duas mixtapes conceituais, “Jesus” e “Her Favorite Colo(U)R”, lançadas este ano, Blu explorou diversas dosagens da síntese entre o hip-hop jazzístico de grupos como A Tribe Called Quest e o experimentalismo reminiscente da Stones Throw de Madlib e J Dilla. “Jesus” se aproxima da música gospel e do R&B e conta com a colaboração de Madlib, 9th Wonder, entre outros. Já “Her Favorite Colo(U)R” é um disco que fala sobre o amor, construído a partir do recorte de várias faixas musicais que aludem ao tema, de Billie Holiday a Jimi Hendrix. De alguma forma, a colaboração e as múltiplas referências já estavam presentes nestas mixtapes, mas “NoYork!” traz algo além, destacando-se das demais.
Não chama a atenção somente porque conta com Flying Lotus, Samiyam, Madlib, Daedelus e Sa-Ra entre seus inúmeros colaboradores, mas porque este grande número de estrelas se adaptou perfeitamente ao escopo conceitual do projeto. Em seu primeiro trabalho por uma grande gravadora, Blu conduziu as produções de forma a privilegiar as sonoridades menos óbvias e se esforçando para harmonizar o rap colorido de L.A. com a pegada mais cool e soturna de Nova Iorque. Assim, elaborou um disco que alterna momentos de ousadia formal com negociações curiosas com um rap mais melódico e comercial, distinguindo-se, porém, do trabalho de grandes talentos desta seara “conciliatória”, como Kanye West e Jay-Z.
Por outro lado, desde seu título, “NoYork!” diz não ao rap de Nova Iorque, abraçando de forma mais radical o electro-hip-hop da Brainfeeder, e estreitando relações com o cubismo da Stones Throw, particularmente com o Madlib inspirado de “Madvillany” e “Shades of Blues”. Me refiro a momentos como a abertura altiva, ligeiramente paranóica, em “Doin’ Nothin” (“a nigga’s got live!”), a camada de ruídos sobre a harmonia de “SLNGBNGrs” e faixas bem experimentais como “Annie hall” e “Jazmine”, que, no entanto, não perdem o balanço e a graça. Por todo o disco, a influência inegável da eletrônica inglesa, através da alusão direta ao trabalho de FlyLo e da Brainfeeder.
Mas “NoYork!” não consegue desfazer a sensação de que A Tribe Called Quest e Beastie Boys, são uma influência incontornável não só para Blu, mas para todo o hip-hop de Los Angeles. “NoYork!” retorna a Nova Iorque por uma via pouco provável, como uma espécie de cartão postal afetivo, distante, mas benquisto. Um disco que pertence a Los Angeles, mas que promove uma espécie de genealogia às avessas, iluminando com as ferramentas do hip-hop “angeleño” aquilo que Nova Iorque criou e doou para o hip-hop como um todo: a sofisticação na montagem do jogo de “samples”, a reapropriação ousada e necessária da música do passado, e, sobretudo, a fluência nas rimas.
Bernardo Oliveira