
Edição: XL Recordings 2xCD
Separator (Anstam RMX)
Não é incomum ocorrer a alguns grandes artistas o artifício de enunciar aos quatro ventos suas influências, como também as obras e correntes atuais que mais lhes impressionam. Não chega a surpreender que alguns deles omitam as referências mais evidentes, sabe-se lá com que propósito, mas arrisco uma interpretação: com isso pretendem delinear uma identidade, difundir um travo a mais na concepção geral de seus próprios trabalhos. Björk, David Bowie, Caetano Veloso e Miles Davis, e hoje, o Radiohead, são alguns dos membros deste seleto grupo.
Um motivo possível é a associação para fins de atualização. Por exemplo, quando Davis se aproxima de Jimi Hendrix, buscando inspiração para discos como Bitches Brew e On The Corner, ou quando Bowie explora o krautrock para fundar sua trilogia berlinense. Por outro lado, pode soar como um exagero tosco afirmar que, em termos gerais, Bowie “traduziu” o krautrock para o mainstream, ou que Davis adaptou o jazz para a sensibilidade roqueira… Mas não parece absurda a hipótese de que este tipo de equívoco serviu como um acesso, ainda que confuso e irregular, a outras possibilidades de fruição musical. Com suas respectivas obras, Bowie e Davis introduziram o kraut e o jazz para grandes audiências, constituindo assim o argumento “pedagógico”.
No caso do Radiohead, essa questão adquire um aspecto um pouco mais problemático. A empatia entre a ousadia do trabalho e o público-alvo não se repete quando Thom Yorke lista os artistas e as sonoridades que mais admira. Até mesmo Björk fez com que o nome Stockhausen circulasse em alta conta pelos órgãos de comunicação devotados à música eletrônica. Mas é provável que nem a colaboração com o guitarrista Jonny Greenwood conduza o compositor polonês Krzysztof Penderecki para fora dos círculos eruditos. Há, portanto, um desnível considerável entre a atmosfera de referências do Radiohead e o gosto de seus fãs – o que não prejudica de forma alguma a popularidade da banda.
The King Of Limbs pode não ser o álbum mais impactante da obra do Radiohead, mas é sem dúvida o mais estranho, a começar pelo curioso tratamento dado à percussão e a elementos percussivos (mesmo as palavras são utilizadas com esse fim, como em “Feral”). Diante deste panorama, o que se pode esperar de uma série de remixes encomendados pela banda? Trabalhadas num plano marcadamente experimental, quais seriam as possibilidades de reconstrução pelas mãos de uma cena eletrônica que universalizou os processos horizontais da edição digital – isto é, processos que operam por corte, sobreposição, texturização, repetição e demais procedimentos?
E esses remixes, sete ao todo, foram editados ao longo de pouco mais de dois meses. Alguns se organizaram de forma contraditória, como o primeiro, com Caribou e Jacques Greene. Outros foram mais coesos, como o último, que contou com SBTRKT, Anstam e Jamie XX. Mas é nessa dinâmica de coesão e incoerência, revestida por uma percepção ampla da música de hoje, que a atualidade da música do Radiohead encontra seu eixo gravitacional.
Conforme a concepção sonora de The King Of Limbs, os remixes demonstram uma preocupação centrada na experimentação rítmica. Longa é a lista de faixas que se destacam por esse aspecto, seja através de batidas marcadas e vigorosas – como Pearson Sound retrabalhando “Morning Mr Magpie” ou Mark Pritchard (como ele mesmo e como Harmonic 313) reinventando “Bloom” –, seja através da tapeçaria digital criada por Mike Sadatmousavi (Altrice), contendo excertos de todas as faixas do disco. Ou ainda em “Separator” com o infalível Four Tet, na versão tenebrosa “Give Up The Ghost” com o Brokenchord, e na estranhíssima batucada em “Bloom”, sob a perspectiva do novato Blawan.
O dubstep e o dubtechno comparecem com força total, como era de se esperar. A versão de “Feral”, remixada por Lone, e “Give Up The Ghost”, com o desconhecido Thriller Houseghost, se destacam. Mas a faixas mais poderosas são aquelas que apostam em uma reinterpretação radical. Me refiro a “Little By Little”, com o Shed de René Pawlowitz; e a desconcertante releitura de Anstam para “Separator”. A primeira recria o baião etéreo da faixa original através de um jogo entre percussões editadas e vocais saturados de reverb. A segunda injeta tensão na mais bela balada do disco, valendo-se igualmente de batidas super recortadas por processos de edição.
As opções em TKOL RMX reiteram o interesse do quinteto em expandir sua música por caminhos e gostos diferentes dos que marcaram os discos anteriores. É evidente que, em sendo este raio de artistas amplo o suficiente para elencar sensibilidades muito diferentes entre si, o resultado não poderia deixar de ser extremamente acidentado. Mas “acidentado” é um adjetivo que dá conta dos muitos interesses do quinteto, o que faz de TKOL RMX, em seu conjunto, mais do que uma compilação de remixes, mas também uma parceria criativa ampla e bem sucedida.
Bernardo Oliveira