
Edição: Kompakt CD, 2xLP
Stems From Hell
Em relação à música eletrônica brasileira, a história do DJ, produtor e arquiteto brasileiro Guilherme Boratto indica um esforço quase solitário. Por um lado, seus discos e singles compartilham interesses com diversos trabalhos que delinearam outra posição para o tech-house ao longo da última década: The Field, Villalobos, Pantha du Prince, Luomo, entre outros. Por outro, tenta adaptar a experimentação a uma linguagem mais palatável e apropriada para as pistas de dança. Seu penúltimo álbum, Take My Breath Away, traz um apanhado relativamente bem sucedido de faixas produzidas a partir dessas variações.
Porém, a julgar por seu último lançamento de carreira, batizado singelamente como III, o caráter experimental resulta na exploração de sonoridades imprevistas, ou ainda, que se valem dessa habilidade em comungar experiência e adequação. É o que se pode comprovar durante a audição das quatro primeiras faixas, a começar pelo andamento arrastado de “Galuchat”. Construída em conjunto com escalas de sintetizadores e harmonias timbradas com uma timbragem glitchy, indica provisoriamente que o interesse de Boratto permanece concentrado em construir a partir de uma certa noção de equilíbrio.
Mas a coisa muda quando se iniciam as variações de volume e intensidade que são responsáveis pela força climática de “Stems from Hell”: primeiro, o forte acento “orgânico”, constituído pela inserção de uma ambiência repleta de ruídos; mas também o poderoso riff sintetizado, elaborado sobre uma escala ascendente, que pontua seus diversos momentos. “Striker” dialoga estreitamente com um discurso sonoro mais acessível, sobretudo a partir da melodia entoada pelo próprio Boratto, ao passo que “The Drill” retoma os argumentos experimentais, combinando elegantemente tecno, synthpop e glitch music.
O que define a relevância de III é este convívio entre momentos mais palatáveis (na pegada funky de “Destination Education” ou nas modulações harmônicas de “The Third”) e outros, mais experimentais (sobretudo a inominável “Trap”). Basicamente, pode-se afirmar que Boratto, bem como os artistas listados acima, estão preocupados em explorar as possibilidades do andamento marcial que distingue o contexto tech-house e adjacências. Os críticos musicais abraçam um rótulo pretensioso para caracterizar determinadas produções, que não se inscrevem na leva geral de “música para a pista de dança”: a “música eletrônica inteligente”, ou IDM, para os íntimos.
De certa forma, o trabalho de Boratto se caracteriza por infusões musicais entre o tech-house e o IDM, variando o grau de experimentação conforme a necessidade de cada produção. Em III, essa tensão atinge um grau relevante de lapidação, o que nos leva a crer que se trata do melhor trabalho deste que é o produtor brasileiro mais conhecido da atualidade.
Bernardo Oliveira