
Edição: ANTI CD, LP
Bad As Me
O disco mal começa e somos capturados pela costura de banjo, clarineta baixo, trombone, saxofone e guitarra, que em andamento frenético evoca os ares esfumaçados dos anos 50. A voz cavernosa, devotadamente cultivada por madrugadas regadas a bourbon, pragueja na direção do ouvinte:
“The seeds are planted here, but they won’t grow…”
Sim, estamos adentrando um novo trabalho de Tom Waits, e ainda estamos chegando. O disco roda mais de duas, três, quatro vezes… Uma dose? Sim, obrigado. Já na quinta vez, me chama a atenção a bela melodia de “Talking at the Same Time”, que passa pelo salão distribuindo olhares. A sensualidade do andamento contrasta com as imagens delicadas e maltrapilhas que Waits descreve com a expressão mais andrógina de que sua voz é capaz.
Neste momento, percebo que nem tudo é memorial neste botequim, e mais uma vez me certifico de que estou em um disco de Tom Waits. Que prossegue, ora como um mostruário de antigas aquisições (o rockão niilista “Get Lost”, a doce balada “Back in the Crowd”), ora como um repositório de escorregadelas (sobretudo “Pay Me”, com sua melodia simplória).
Neste instante, little Keith Richard adentra o recinto, portando sua guitarra. Silêncio, clima de duelo: quem sairá vivo deste confronto decisivo? “Now Mr. Jagger and Mr. Richards, I will scratch where I’ve been itching”, grita Tom Waits, e todos no bar riram desta piada. O nome da faixa é “Satisfied”, e ninguém duvida do que ele diz.
A esta altura, este que vos escreve já não consegue mais acompanhar os convivas. Agora Keith e Tom se entocam em um dos cantos mais escuros do bar, como fazem velhos amigos. Eles cantam com grande emoção e propriedade a balada country “Last Leaf”, como se cantassem para um batalhão de mortos:
“I’m the last leaf on the tree
The autumn took the rest
But they won’t take me
I’m the last leaf on the tree”
Todos no bar se comoveram, mas foram despertados pela inominável “Hell Broke Luce”, a única faixa do disco que não lembra nenhuma outra gravada por Tom Waits. Todos compreenderam que se tratava de um exorcismo anti-bélico, e que convinha dançar e pular com máxima liberdade de movimentos, gritando seus versos com raiva: “I had a good home but I left…”
Trata-se de um disco bem menos ambicioso que o genial e barulhento Real Gone. Porém, o que ele perdeu em detalhes, ganhou em calor e descontração. Por aqui passaram grandes músicos, do calibre de Marc Ribot, Flea, Les Claypool, e, claro, um “cantautor” de primeira linhagem. Pé ante pé, saimos cuidadosamente, evitando presumir “mais do mesmo”, ou, ao contrário, uma nova obra-prima. Como nos bares “profissionais”, o cliente escolhe seu lugar, onde passará boa parte do tempo calado, sorvendo seu drink e analisando o movimento.
Hora de voltar para casa. Após a catarse e a bebedeira, a noite se vai… A balada natalina, “New Year’s Eve” encerra a noite, com direito a coral de amigos trôpegos e clima de confraternização – devidamente desmentido pelos versos que novamente tocam de forma ambígua o tema da guerra. Tom leva o ouvinte para fumar um cigarro na rua e sentir a brisa gélida, com o mesmo apreço camarada com que o conduziu pelas treze canções de Bad as Me… Garçom, passa a régua.
Bernardo Oliveira