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Massive Attack vs Burial: Four Walls / Paradise Circus

Edição: Inhale Gold / The Vinyl Factory 12”


Four Walls

Haverá poucas colaborações mais aguardadas do que esta, surgida do nada no início do mês após anos de rumores e pedidos encarecidos dos fãs a circular na Internet. Um vinil de doze polegadas de dois temas, em edição limitada, esgotado em minutos. Este é o apelo de Burial e Massive Attack, duas das mais imponentes figuras da electrónica britânica da última década, finalmente juntos.

Começamos por ouvir “Four Walls”, a única faixa que se trata de uma verdadeira colaboração, visto que “Paradise Walls” se trata de uma remistura de Burial do original de Massive Attack. Ao carregar no play situamo-nos imediatamente no universo de Burial: camadas de estática, chuva e acordes densos e fantasmagóricos recriam o ambiente algo ameaçador de uma hipotética e mal-iluminada rua londrina, cenário predilecto para a maioria dos temas do britânico. Seguem-se ruídos impossíveis de identificar e os arrepiantes samples de tesouras que já se tornaram num fetiche de Will Bevan, até que finalmente entra uma batida que se mantém constante ao longo dos 12 minutos do tema. Lenta, autoritária e despida, mais próxima da linguagem rítmica de Massive Attack, mas com todos os tiques de Burial, como se tivesse emprestado a sua paleta de cores para que outro pintasse com elas. E a voz. Não seria uma faixa de Burial sem uma sedutora e longínqua voz feminina (ou não, visto que o produtor já confessou que se diverte a transformar vozes masculinas em femininas e vice-versa), que aqui funciona como a trágica cereja no cimo de um bolo de melancolia.

Dá-se a volta ao disco e põe-se a tocar o lado B. A remistura de Burial do tema “Paradise Circus” poderia ser descrita da mesma forma que “Four Walls” – a atmosfera densa, a estática, a chuva, a voz gélida e espectral, a viagem de 12 minutos – mas, se pensarmos bem, o mesmo se aplica a praticamente qualquer tema de Will Bevan. A batida pode aproximar-se mais dos cânones do garage, como em “Untrue”, ou eleger uma batida regular mais próxima do tempo do house como no disco lançado pela Hyperdub este ano, mas o ambiente criado e a história contada acaba por ser a mesma.

No entanto, isto está longe de ser algo negativo, visto que a razão porque nos apaixonámos pelas produções do inglês foi precisamente por saber capturar em canções aquele estado de espírito, aquele regresso a casa pelas ruas molhadas e frias de Londres após uma noite que correu mal, mas que a caminhada até ajuda a tornar melhor. Apesar de ser difícil evitar a sensação de que cada novo tema de Burial é algo que já ouvimos antes, o único motivo pelo qual isto não incomoda é por ser tão agradável passar nesta rua chuvosa e escura, mesmo que pouco mude ao longo dos anos. Afinal de contas, esperamos nunca ter de passar nesta rua num dia de sol.

Jorge Duarte

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