
Edição: Sublime Frequencies 2xLP
Lansob Sherek (I Will Make A Trap)
Entre as peculiaridades em se acompanhar a dinâmica da produção musical contemporânea, podemos destacar a “familiaridade remota” como uma de suas características mais fascinantes. Reside no fato de contrairmos familiaridade com manifestações culturais absolutamente distantes da nossa. Evidente que não me refiro somente à música feita em 2011, mas a uma forma específica com a qual escutamos a música de todos os tempos e lugares, segundo as técnicas de gravação, reprodução e distribuição disponíveis na praça.
O caso de Omar Souleyman é particularmente emblemático neste sentido. As três compilações que editou através do selo americano Sublime Frequencies, Highway To Hassake (2007), Dabke 2020 (2009) e Jazeera Nights (2010), fizeram com que o cantor sírio “ganhasse mundo”: Europa, Ásia e América do Norte receberam as apresentações frenéticas do artista. Ainda não tivemos esta honra na “Terra Brasilis”, mas estou certo de que Souleyman encontrará um público acostumado à síntese eletrônica de influências libanesas, turcas e curdas, que fazem parte do seu trabalho.
Talhada a partir do Dabke, mas também do Choubi iraquiano e do canto árabe “mawal”, Omar Soleyman traça paralelos inequívocos com a música do Atlântico Negro. Não espero que o leitor aceite minha hipótese, só lhe peço que entenda o ponto: devidamente assimilada, sua música pode ser situada no âmbito das recriações eletrônicas e dançantes que definem o shangaan, a cumbia digital, o juke, o funk carioca, etc. Quando menos se espera, passa-se a marcar os ritmos árabes com os pés e a cabeça, e até mesmo a reproduzir em assovios, os intrincados arabescos melódicos, criados pelo multi-instrumentista Rizan Sa’id.
A língua permanece como a única barreira “cultural” para o dabke digital, ainda que o papel do poeta Mahmoud Harbi seja de fundamental importância para a perfomance de Souleyman – na medida em que Harbi dita os versos no ouvido do cantor. Mas essa barreira não compromete a energia de cada uma das apresentações contidas em Haflat Gharbia. Se por um lado, percebe-se que o autor facilitou o diálogo com platéias ocidentais – como na incursão techno de “Mendel”, gravada na Bélgica –, por outro, empolga com o balanço sinuoso e contagiante de “Lansob Sherek” e “Wakhali”.
Bernardo Oliveira