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Murcof: sons interessantes estão em todo o lado

Neste fim de semana, de 10 a 13 de novembro, Braga terá a oportunidade de assistir ao projeto do mexicano Fernando Corona, o Murcof, que se apresenta no Festival Semibreve. No início de Dezembro, Corona parte para o Brasil para se apresentar no Festival Novas Frequências, no Rio de Janeiro, entre os dias 07 e 11 de dezembro (com apoio da FACT Magazine PT). Julgamos oportuna a ocasião para ir à conversa com este importante artista da cena eletrônica experimental da atualidade. E não julgamos errado.

Corona se revela um pensador tão rico e direto quanto sua música. Constrói um castelo de ideias com palavras parcimoniosas, citando nomes datas, locais, percepções com precisão, enquanto explana, dedicadamente, os diversos aspectos de sua obra e concepção musical. Talvez por isso, aqueles que buscam a integridade dos sons e dos gêneros nos discos do Murcof enfrentam sérios problemas: eles não fornecem um ponto de apoio que assegure a obra de Corona em um só gênero musical. Trata-se de uma música híbrida, de caráter austero, porém expressiva e maleável.

Essas características justificam tamanho interesse pelo trabalho deste mexicano, nascido há 41 anos em Tijuana, no México, e residente há cinco anos em Barcelona. Uma passada de olhos sobre sua discografia, confirma o interesse acentuado na música clássica, trançada ao sabor dos ventos mais inconstantes: minimalismo, glitch, música contemporânea, música mexicana Huichol, etc. De fato, a sonoridade das composições de Murcof indicam uma convivência musical aberta, eclética e curiosa, mas que pode também ser arrolada no âmbito da música pós-colonial – ainda que devamos advertir para a relevância provisória deste termo.

La Sangre Iluminada, trilha sonora de 2009, para o filme homônimo assinado por Iván Ávila, foi relançada recentemente pelo selo francês Rafiné. Este foi seu último trabalho em disco, mas a marca deixada por Murcof permanece através de uma pluralidade de projetos, como o que apresentará em Braga, ao lado do AntiVJ. Para além dos rótulos que buscam separar a linguagem do chamado primeiro mundo, do mundo colonial, a música de Murcof é articulada, viva e, sobretudo, contemporânea. A seguir, a conversa que tivemos com o artista.

“Continuo com o ouvido aberto onde quer que vá, sons interessantes estão em toda parte.”

Fernando em sua vasta discografia, podemos ouvir elementos de música clássica moderna, eletrônica, eletroacústica, além da influência de artistas como Arvo Part, etc. Finalmente, de onde vem a sua música?

Na verdade, eu era muito influenciado pela música acadêmica moderna. Lembro-me claramente quando eu escutei Xenakis e Ligeti, respectivamente a “Oresteia” e “Lux Aeternam”, estas obras me mudaram para sempre. Foi então que eu descobri compositores como Scelsi, Gubaidulina, Schnittke, Berio, Penderecki, etc e, posteriormente, Arvo Pärt, Kancheli, Górecki, Silvestrov, etc. Foi um momento muito emocionante para mim, o tempo todo eu estava experimentando com diferentes estilos de música, a partir de estilos de rock e jazz, até ambient e noise. Hoje em dia eu continuo com o ouvido aberto onde quer que vá, sons interessantes estão em toda parte.

Quais são suas principais influências? Ouvi dizer que você cresceu entre os discos clássicos e dos Beatles. Você acha que sua música reflete a indistinção dos dois universos, popular e clássico?

A música é um ótimo meio para exercitar visões utópicas da existência harmônica entre mundos ou situações aparentemente distantes ou opostas, clássico e popular, oriental e ocidental, tonal e atonal, etc. O ar que carrega o som “não se importa” se é uma sonata de Chopin ou o som de uma manada de búfalos correndo. Tento seguir esse exemplo, não me importando muito com a fonte do som, mas com o som propriamente e o que ele me diz. É claro, sons diferentes têm significados diferentes, sempre tentamos traçar um som até sua fonte, é muito emocionante jogar com isso. Por exemplo, o som de um violino muito processado, que ainda mantém um pouco de sua características originais, vagamente sugere que vem de um violino, mas alguma coisa aconteceu a ele ao longo do caminho, e é diferente agora, evoluiu para um som independente, novo e original.

E sobre a música mexicana? Quais as suas  influências?

Existem algumas influências muito importantes, Jorge Reyes e Antonio Zepeda são os primeiros que me vêm à mente, e também a música do povo Huichol, especialmente seus cânticos, que são muito bonitos. A cena de rock e eletrônica local de Tijuana e outras partes do México foi uma influência muito importante também, selos como Mandorla, Static Discos, Sound Sister, etc, bem como do coletivo Nortec, especialmente os primeiros trabalhos.

“Ter artistas que eu admiro remixando a minha música foi muito emocionante e motivador.”

Poderia nos falar um pouco sobre sua discografia? Penso que seus discos são bem diferentes uns dos outros. Então gostaria de lhe pedir para compará-los, pelo menos Martes (2002), Utopia (2004), Remembranza (2005) e Cosmos (2007).

Claro que são diferentes, pois cada um está ligado a uma situação muito especial na minha vida. Vindo do trabalho com o Coletivo Nortec, que era mais orientado para club e dance, Martes surgiu da necessidade de explorar o lado mais contemplativo da música. Na época eu era muito influenciado pelo techno minimal e tech house no lado eletrônico, e compositores como Morton Feldman e Kancheli. Durante o processo de composição minha esposa estava grávida de nosso filho Oliver, que nasceu logo depois do lançamento de Martes.

Utopia veio como resultado do sucesso de Martes, foi um disco auto-indulgente. Ter artistas que eu admiro remixando a minha música foi muito emocionante e motivador. Também aproveitei a oportunidade para explorar ainda mais as mesmas idéias estéticas que comecei em Martes, através da inclusão de quatro novas faixas com o mesmo viés, mas um uma estrutura um pouco menos convencional.

Remembranza foi feito durante a doença de minha mãe até sua morte, portanto é um diário daqueles dias difíceis. Foi lançado logo depois de nos mudarmos para Barcelona… Muitas mudanças ocorreram em torno desse álbum, que foi gravado entre 2004 e 2005.

E Cosmos foi feito questionando os fundamentos da vida, representa um esforço em olhar o quadro maior. Eu o comecei logo depois de nos mudarmos para Barcelona e, embora haja faixas como “Cielo” e “Cometa”, que são reminiscências de Martes, este álbum se concentra mais no espaço entre sons, enfatizando o silêncio, e explorando as texturas sonoras, mas sem ir muito longe da harmonia convencional e da melodia.

Como é seu processo de composição?

Eu trabalho diretamente com o som, eu quase não uso midi, então eu uso um monte de plugins e dsps. Minha principal ferramenta é o Steinberg Cubase, eu faço tudo lá, exceto a masterização. Começo importando um ou dois sons ou loops que soam interessantes, que podem ser “de campo” ou gravações de estúdio, que vão desde vento até sons de piano e tudo mais. Anexo um loop em torno deste som e começo a inserir efeitos sobre ele até encontrar algo interessante. Em seguida, passo para o próximo canal, insiro um novo som que complementa o anterior, e assim sucessivamente até a faixa ser concluída.

Por favor, conte-nos um pouco sobre as influências do Nortec em seu trabalho.

Foi uma escola muito importante sobre tudo relacionado à música, desde o processo criativo até o lado do negócio.

E sobre o seu último trabalho, La Sangre Iluminada? Qual é a diferença de compor para um filme?

Uma enorme diferença. Com o filme é a imagem que comanda o show, então não há esse elemento externo que orienta o processo de composição, ao contrário de quando eu faço música por si só que é o som que guia. Mas com este filme em particular, foi um prazer trabalhar nele. Iván Ávila é um diretor muito generoso e aberto, e o filme em si foi muito inspirador.

“A minha colaboração com AntiVJ é uma espécie de micro/macro viagem cósmica, projetada em uma tela widescreen.”

Como este será o seu primeiro show no Brasil (em dezembro, durante o Festival Novas Frequências), gostaria de saber o que você espera do público do Rio de Janeiro. E também se você costuma ouvir música brasileira.

Eu não tenho idéia de como o público brasileiro vai me receber. Estou sem expectativas, porém muito animado para descobrir, e muito feliz porque vou ficar alguns dias extras também. Quanto à música brasileira, eu sei muito pouco, lembro que minha infância foi cheia de todos os clássicos da Bossa Nova. Mais tarde eu descobri compositores como Villa-Lobos e, em seguida, o movimento tropicalista. Mas isso é tudo.

Que será a base das apresentações em Braga (durante o Festival Semibreve, neste fim de semana)? E no Rio?

Em Braga será a versão mais recente da minha colaboração com AntiVJ, que tem progredido de forma constante nos últimos dois anos. É uma espécie de micro/macro viagem cósmica, projetada em uma tela widescreen semi-transpartente, colocada entre o público e nós. Já no Rio, saberei no momento em que estiver no local e tiver uma idéia do lugar. Levarei todo o meu material, velho e novo, para fazer um tracklist de acordo com a vibe do local e do público.

E sobre seus próximos projetos?

Atualmente estou trabalhando com vários projetos, além do trabalho com AntiVJ. Outra colaboração audiovisual que está em curso é com o artista italiano Saul Saguatti, com quem eu tenho trabalhado por alguns anos. Estamos apresentando o Versailles Sessions, juntamente com sua técnica de pintura ao vivo.

O Projeto Wixarika é uma comissão do festival Grenoble, na França, projeto que estou desenvolvendo junto com meu bom amigo e músico de Tijuana, Edgar Amor. É inspirado na música Huichol tradicional dos povos Wixarika do centro do México, por isso, estamos trabalhando com dois músicos Huichol, o que é realmente um privilégio. São eles Jose Luis (que é um Mara’akame, ou curandeiro/cantor) e Enrique Ramirez, seu filho. Tivemos uma sessão de gravação com eles em Tijuana no ano passado, que forneceram as bases para as composições destas gravações. No ano que vem eles vão nos acompanhar no palco no Detours de Babel e outros festivais na França. Erik Truffaz e Dominique Mahut também estão trabalhando com a gente, então é uma mistura grande de mundos musicais.

Outro projeto, que ainda está em sua fase de desenvolvimento, é com a pianista francesa Vannessa Wagner, com quem estou trabalhando em reinterpretações de músicas para piano clássico, de Satie a Arvo Pärt. Já com Francesco Tristano, tenho uma colaboração que vem e vai, e que já se existe há cerca de quatro anos. São principalmente compostas de piano ao vivo e improvisações eletrônicas.

Bernardo Oliveira

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