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Liz Torres… Essencial

Fotografia: Jasper James

Na longa lista de divas house, Liz Torres ocupa um lugar distinto. Como vários outros nomes importantes na música, subiu de Porto Rico para os Estados Unidos. Aos três anos a família fixou-se em Chicago. Sendo pastor de uma igreja, o pai impôs uma educação doméstica livre da contaminação de televisão e rádio. Liz cantava na igreja, de olhos fechados.

Nos anos do liceu conhece Jesse Jones numa das praias de Chicago. Ele ouvia house na sua boombox. O efeito foi brutal. Jesse ficou seu namorado e é conhecido como o J de Master C & J, uma das equipas de produção mais incríveis na história da house. Mas foi com um dos Cs (Carl Bias) que Liz se estreou, em “Mind games” (1985). A frase “You have to understand” foi samplada pelo menos por Altern8 e LFO, estes últimos chamaram mesmo “You have to understand” a um dos temas do seu primeiro álbum “Frequencies” (1991), mas isso é provavelmente uma homenagem.

Trabalhou com Hot Mix 5 (via Kenny “Jammin” Jason e Ralphi Rosario) e cantou várias faixas clássicas de Master C & J. O seu estilo de cantar, nesse período dourado (segunda metade dos 80s), tinha todo o apelo que sempre se procurou em house e, genericamente, nas saídas à noite. As letras eram geralmente dirigidas a alguém (“Me” e “You” eram quase sempre protagonistas), falavam de amor e paixão, facilitavam a identificação por parte de quem dançava, muitas vezes sem coragem para dizer essas mesmas palavras à pessoa ao seu lado.  E Liz não tinha problemas em auto-intitular-se Queen Bitch, acrescentando que toda a gente é um pouco bitch. O modo quente como cantava, as fotografias ousadas, as apresentações ao vivo provocatórias colocavam-na já bem longe das antigas restrições na casa familiar. Liz personificava, à noite, a mulher perigosa para os homens que queriam dormir com ela e um modelo de firmeza, ao resistir e, por sua vez, cantar sobre as suas próprias desilusões.

Assumiu a origem latina ao incluir versões em castelhano, em alguns discos, e sobretudo ao expôr-se como a mulher fatal de curvas acentuadas à vontade com o seu corpo. As actuações ao vivo no Paradise Garage (Master C & J + Liz Torres estiveram na noite de encerramento), Warehouse e Sound Factory garantiram sólida inscrição na mente dos fãs de house que frequentavam estas discotecas emblemáticas. Em 93 cantou esporadicamente numa banda industrial com elementos dos KMFDM, mas era o cenário errado, apesar de a sua voz, em “Violent peace”, ser tão sedutora como em “What you make me feel”. Durante a década de 90 foi desaparecendo progressivamente de vista – terminaria a década (1999) a cantar para Danny Tenaglia sem envergonhar os seus bons momentos mas a música simplesmente não tinha o mesmo brilho.

Major

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01: LIZ TORRES featuring KENNY “JAMMIN” JASON

‘WHAT YOU MAKE ME FEEL (FIERCE MIX)’

(do 12″ WHAT YOU MAKE ME FEEL, UNDERGROUND, 1986)

O nome de Kenny “Jammin” Jason pode ser traçado até ao clássico “(I like to do it) in fast cars” (Z-Factor) mas ficará para sempre celebrizado na história da house como parte do colectivo Hot Mix 5 (com Farley ‘Jackmaster’ Funk, Mickey Oliver, Scott Silz e Ralphi Rosario). Em 85 grava o fantástico “Jam Tracks” para a DJ International e, entre remisturas e produção, encontra Liz Torres para “What you make me feel”, uma faixa jack tensa, com teclados New Beat e a voz apaixonada de Liz num registo de diva gótica synth pop próximo de Regine Fetet dos Hard Corps. HOT. A linha de baixo é quase igual a “When you hold me” (Master C & J), do mesmo ano, demonstrando a semelhança de alguns standards house com a partilha ou apropriação de ritmos comum no reggae jamaicano. Quem chegou primeiro – Kenny ou Master C & J?

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02: HEX COMPLEXX

‘I WANT YOU (TRANSCONTINENTAL MIX)’

(do 12″ I WANT YOU, SUNSET RECORDS INC, 1987)

Liz, aqui, diz umas linhas em castelhano para uma produção ultra-sexy de Ralphi Rosario, outro elemento de Hot Mix 5. Jack latino com voz masculina sussurrada ao ouvido, linha de baixo quase ausente, coisa impensável, mas aqui é o fogo latino que interessa. Liz Torres diz que a tristeza se fez feliz quando ele chegou. “É muito fácil esquecer o tempo. Quando o tempo se vai, nunca regressa”. Isaac Rosario introduz o sax (felizmente curto) que anula o jack por momentos. A voz de Ralphi fica mais intensa, a faixa termina a cappella, em êxtase e com estalido de dedos a prolongar o beat. Incrível.

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03: MASTER C & J featuring LIZ TORRES

‘IN THE CITY (DEVIL MIX)’

(do 12″ IN THE CITY, STATE STREET, 1987)

A frase “Dangerous life, living in the city” marca o aparecimento de Liz Torres nesta faixa. A voz masculina (provavelmente de Jesse Jones) passa por um efeito que justifica o nome Devil Mix para esta versão. Com “Face it”, esta é uma das supremas faixas melancólicas de deep house, uma obra-prima de suavidade e crueza. A voz de Liz aparece muito perto do microfone, acolhedora, contrapeso perfeito para o tom robótico do homem que canta “Nobody gives a damn”.

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04: LIZ TORRES featuring EDWARD CROSBY

‘CAN’T GET ENOUGH (CLUB)’

(do 12″ CAN’T GET ENOUGH, STATE STREET, 1987)

Beat e linha de baixo, drums and bass, a coluna dorsal de toda a música que nos faz mexer como deve ser. Liz assume de novo o protagonismo em tom elevado de súplica amorosa. Os synths ficam psicadélicos por baixo do seu discurso, páram pouco antes de ela cantar “Send me up higher”. Produção de Jesse Jones e, assim, Master C & J em acção (Crosby é um dos Cs de Master C & J – o outro era Carl Bias).

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05: MASTER C & J featuring LIZ TORRES

‘WE WERE MEANT TO BE’

(do 2×12″ THE LEGENDARY MASTER C & J featuring LIZ TORRES, TRAX, 2002)

Apesar de, em princípio, só aparecer nesta compilação de 2002, “We were meant to be” tem tudo de 1987/88, a par de outras canções de Master C & J como “Face it” e “In the city”. Impossivelmente arrepiante e melancólica, o máximo que se consegue fazer com música para dançar. Jesse Jones fala, esperançoso, enquanto Liz intervém para selar o elo, ao cantar o refrão “We were meant to be”. Quando ouvirem isto vão perceber instantaneamente como a canção é genial e merece menção eterna. Termina com a realidade de uma cara lavada com água para sair do torpor apaixonado aparentemente irreal.

 

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  • Ab

    Can’t wait to hear this!

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