
Edição: Hyperdub CD, digital
Earth A Kill Ya (Gang Gang Dance Rework)
A noção de “remix” convém a muitas das aspirações da música deste início de década – muito embora venha se esfacelando de forma galopante, transformando-se e retransformando-se radicalmente, conforme uma série de fatores, técnicos e estéticos. Porém, há de se convir que este procedimento extrapolou a adequação a uma só necessidade, e hoje se manifesta com uma admirável variedade de propósitos e intenções.
Até escutar “Without You” pela primeira vez, não conhecia o “revoice” e o “rework”, termos que se somam a tantos outros, e designam ora a recomposição, ora a releitura e reutilização de faixas pré-existentes. “Without You” é um álbum que testemunha de forma particular esta maleabilidade, mostrando que o remix comporta infinitas possibilidades, podendo ou não refletir o caráter criativo do artista.
Assim, trabalhos em que se confrontam diversas modalidades de remix (“reworks”, “revoices”, etc.) resultam em um painel comparativo, cujas variações indicam o procedimento e as escolhas dos autores. Trata-se, não de se distanciar ou se aproximar, mas de transfigurar as faixas originais.
Por exemplo, todo o meu respeito ao veterano britânico Green Gartside, mas seu revoice para “I Man”, rebatizado como “Come And Behold”, se resume a uma tentativa de conferir tinturas drag ao som do King Midas Sound – ou o que me parece um equívoco: exacerbar uma característica que, no trabalho original, é sutilmente sugerida. O mesmo caminho seguido por Joel Ford em “Say Somethin’”, revoice para “Waiting for you”, e Cooly G para “Spin Me Around”.
No conjunto, metade das faixas se destacam em Without You, no geral produções de alto teor criativo, na medida em que seus autores apostaram na incorporação de elementos do próprio trabalho. Como o suingue moleque do rework de Flying Lotus (“Lost), as saudáveis esquisitices do Gang Gang Dance em “Earth A Kill Ya” e as percussõesdiáfanas do Hype Williams em “Sumtime”.
Kode 9 & Spaceape, que lançaram um dos discos mais poderosos de 2011, destilam a habitual elegância em “Meltdown” e T++ confirma sua curva ascendente de seu trabalho, rumo a um rebuscamento cada vez mais acentuado do ritmo e dos timbres. Dignos de nota os bongôs digitais de Mala, em “Earth A Kill Ya”, a tensão característica do trabalho do Deepchord em “Goodbye Girl”, e a irreverência angelena de Ras G & The Afrikan Space, em seu rework para “Cool Out”.
Se por um lado, parece claro que a releitura por si só não garante o resultado, de outro é preciso algum cuidado para separar os diversos níveis de releitura, não a partir de suas denominações, mas de seu resultado. Não necessariamente em termos “qualitativos”, mas em termos conceituais. E aí reside um ponto fraco da grande maioria dessas compilações de remix: o desequilíbrio necessário entre os diversos sotaques, estilos e aspirações dos artistas envolvidos.
Bernardo Oliveira