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Sun Araw: um avião super sônico em expansão


Que o leitor não estranhe o título desta entrevista. Mas basta uma olhadela nos vídeos do Youtube, nas páginas da rede, nas revistas e fotos que destacam Cameron Stallones ou algum de seus projetos. Estaremos diante da personificação do equilíbrio trágico, pela via da não agressão, em busca de uma “outra consciência, estados alterados, experiências elevadas”.

A impressão é a de que se trata de um dos herdeiros do ideiário hippie de São Francisco e Los Angeles, mas não é bem assim. Conhecido como Sun Araw, Stallones, morador de Long Beach, é talvez o principal representante do rock psicodélico norte-americano. Desde 2007 vem nos presenteando com algumas das mais delirantes jams do nosso tempo.


Trireme

Stallones compõe sua música a partir da mistura de uma infinidade de gêneros, valorizando a improvisação e esculpindo obsessivamente o resultado, até chegar à forma que julga perfeita: “O objetivo é remover toda a intenção do início do processo, e então preenchê-lo com intenções durante a fase ornamental”. Ancient Romans, seu último álbum, testemunha esta concentração com vigor e descontração extraordinários.

O artista vem ao Brasil em dezembro para o Festival Novas Frequências, com apoio da FACT Magazine PT. Entre as brumas, reflexões, The Congos (sim, The Congos!), cores e música com alto teor de vertigem e delírio, surge um indivíduo articulado, hiper-informado e, ao que tudo indica, extremamente consciente das peculiaridades de sua geração e da posição do seu trabalho na atualidade. O que para um rapaz de vinte e poucos anos não é pouca coisa.

“Improvisação tem que ser o ponto de partida”

Cameron, selecionei algumas dentre as muitas características que atribuem ao seu trabalho: “épico”, “psicodélico”, “circular”, “drone pesado”. Em uma de suas entrevistas, você diz que a expressão “sun araw” pode ser entendida como um “retiro sagrado”. De onde vem essa característica de “mântrica” em sua música?

Tenho um interesse muito sério numa “outra” consciência, estados alterados, experiências elevadas. A música é uma ferramenta muito poderosa para a criação de tais espaços na mente, e alguma coisa na repetição, no mantra são particularmente eficazes. É uma idéia muito interessante, em primeiro lugar, que através da repetição de uma simples idéia algo novo e muito maior pode brotar, aparentemente do nada. Ela implica uma outra direção no espaço, e nos ajuda a aprender sobre como interagir com ele.

Seus álbuns parecem grandes sessões de improvisação, mas, ao mesmo tempo, soam como se fossem minuciosamente concebidos e editados. Como você avalia a tensão entre a espontaneidade da improvisação e o rigor do conceito no seu trabalho?

Improvisação tem que ser o ponto de partida, há uma energia e uma conexão que você alcança apenas em momentos de descoberta e que não podem ser simuladas. Mas, sim, tudo fica muito meticuloso após essa fase inicial. Eu gasto muito tempo misturando e esculpindo as improvisações, acrescentando e subtraindo coisas. O objetivo é remover toda a intenção do início do processo, e então preenchê-lo com intenções durante a fase ornamental.

Conte-me a respeito de sua formação musical: o que você escutava antes de ingressar para o Magic Lantern? Quais suas principais influências musicais? E extra-musicais?

Fui um nerd da música por muito tempo, e passei por uma série de fases. Pouco antes de Magic Lantern eu tinha ficado um longo período obcecado pela Soul Music, que ainda amo. Magic Lantern surgiu a partir um monte de razões extra-musicais, mas coincidiu com alguns de nós indo mais fundo no krautrock e numa segunda onda de psicodelia do que jamais tivemos antes. Também Sun Araw and Magic Lantern tem muito a ver com um amor coletivo pelo cinema, acho que há muita inspiração vinda do mundo do cinema em ambos projetos.

“Não sou capaz de ‘legitimamente’ participar de qualquer género em particular”

Ouvindo seus discos, percebe-se que você despreza a integridade dos gêneros musicais. Podemos ouvir de tudo, desde o rock até o afrobeat, passando pelo funk, jazz, música eletrônica, etc. É possível continuar lidando com a ideia de gênero na era da informação digital?

“Desprezar” talvez seja uma palavra forte. Eu as respeito pelo que são, mas o fato é que para alguém da minha idade, crescendo na geração que cresci, eu não sou capaz de “legitimamente” participar de qualquer gênero em particular. Eu acho que é o preço que se paga por um acesso total à cultura mundial. Na verdade acho que todo o sistema de pensamento sobre o ser humano é destrutivo: “válido”, “inválido”, que tem um “direito” de fazer um certo tipo de música. “Autenticidade” é um conceito incapacitante para o espírito humano, é a retrospectiva em perspectiva, uma qualidade que só existe para a “transcendência” acadêmica (geralmente de ocidentais brancos), e mantê-lo para sempre ligado à sua própria insegurança. Claro que a autenticidade real é muito importante, mas você consegue obtê-la de uma forma totalmente diferente: sendo um ser humano e interagindo com outros seres humanos com o coração aberto.

Em seu último trabalho, Ancient Romans, uma série de novos instrumentos foram incluídos, tais como trumpetes e saxofones. Existem limites para a paleta sonora do Sun Araw? Cada novo álbum do Sun Araw trará concepções de instrumentação e arranjo diferentes?

Sendo o meu projeto solo, Sun Araw está sempre girando em torno de tudo o que me for interessante naquele momento. Estou sempre interessado em instrumentos diferentes, texturas diferentes, e como se apresentam. Quero que este avião super-sônico se mantenha em expansão.

A propósito, como foi concebido Ancient Romans, seu último álbum? Alguns elegeram como seu trabalho mais palatável, mas a repetição, o improviso e o caráter “mântrico” permanecem. Ancient Romans é um álbum de transição?

Eu acho que pode ser mais palatável, simplesmente porque foi melhor gravado do que os anteriores. Por outro lado, sei que minha perspectiva é distorcida, mas acho que é mais estranho do que quaisquer dos meus discos anteriores. As estruturas das canções são mais estranhas, as texturas são muito difíceis. Para mim é um disco incrívelmente espiritual, e é uma expressão de algumas idéias poderosas que estavam me movendo na época.

Ancient Romans parece seu trabalho mais equilibrado, pois podemos observar certas polaridades: tonal/atonal, improviso/composição, melodia/noise, instrumental/canção. Como interpreta esta característica em relação a seus trabalhos anteriores?

Isto é interessante. Acho que você está certo. Não foi consciente, mas em quase todas as músicas há ideias contrabalançadas muito particulares. Texturas para detonar outras texturas, uma guitarra melódica combinada com algo muito mais atonal. Acontece intuitivamente quando estou gravando. Mas a idéia é muito poderosa, ela ilustra que os opostos não são resolvidos pelo extermínio de um deles, mas por uma nova perspectiva na qual ambos podem ter seu lugar paradoxalmente sem se agredirem.


At Delphi

“Sendo o meu projeto solo, Sun Araw está sempre girando em torno de tudo o que me for interessante naquele momento”

Como este será o seu primeiro show no Brasil, no Festival Novas Freqüências, gostaria de saber o que você espera da plateia do Rio de Janeiro. E também se você costuma ouvir música brasileira.

Eu não tenho certeza do que esperar, mas estou incrivelmente animado de ir pro Brasil. Eu não sei muita coisa sobre música brasileira, mas eu amo os discos psicodélicos feitos aí na década de 70, especialmente Marconi Notaro, No Sub Reino Dos Metazoários, que é um disco muito especial para mim. Também o Paêbiru álbum de Lula Côrtes e Zé Ramalho e, claro, Os Mutantes.

Qual será a base das apresentações no Rio? O que podemos esperar de um show de Sun Araw?

Atualmente o show da banda Sun Araw consiste em 3 peças. Nós tocamos músicas de um monte de álbuns e também fazemos um monte de improvisações. A coisa ao vivo é construída inteiramente por conta própria, por isso é muito diferente dos discos.

E sobre seus próximos projetos? Ouvi falar sobre um novo projeto do Magic Lantern e uma colaboração com o The Congos, é verdade?

Não sei ainda sobre o Magic Lantern, é algo para o qual ainda estamos esperando que o universo manifeste. Mas eu acho que vai acontecer. O disco com o The Congos chegará em breve, no início de 2012. Passamos 10 dias na Jamaica gravando, e foi a viagem mais incrível, em todos os níveis. Estamos prestes a voltar! Também enquanto estávamos na Jamaica, fizemos um monte de outras músicas com artistas do dancehall local, e estamos abrindo um selo chamado DUPPY GUN PROD, para lançá-los em singles de 12”. O primeiro será lançado em uma semana ou duas.

Bernardo Oliveira

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  • http://www.facebook.com/igibrann Gibran Gustavo Araújo

    Um cara doido como esse vai vir pra cá ???  Vai abrir um buraco para outra dimensão aqui no Rio!

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