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Oneohtrix Point Never: Replica

Edição: Mexican Summer/Software CD, LP, Cassette


Sleep Dealer

A banda sonora de um filme que, se não existiu, podia ter existido. Um eco longínquo. A réplica imperfeita de um sonho, de uma narrativa imaginária que se perdeu (para sempre) no tempo e no espaço. Mas como fotografar ou filmar um pedaço de imaginação? Torrente caótica de impressões escritas num bloco de apontamentos, por entre recortes e colagens de revistas de ficção científica amarelecidas. Fragmentos de um meteoro, incandescentes, toda uma química desconhecida pela comunidade científica. Baixas frequências. Cortes abruptos. Destroços de fita magnética.

Oneohtrix Point Never é uma cápsula projectada no cosmos em busca de um reflexo. O viajante solitário Daniel Lopatin muniu-se com gravações de anúncios comerciais dos anos 1980 e descolou rumo ao interior da electricidade estática de um canal não sintonizado, no televisor obsoleto de um veterano da Guerra da Coreia, entretanto falecido. O que procurar na dimensão paralela de uma réplica? O que almejar no vazio celestial? O reflexo de um reflexo de um reflexo, até ao ponto infinito da luz proveniente do exterior da caverna existencial. Máquina de sombras em movimento.

Lopatin é um projeccionista sonoro. Trabalha na sombra, esculpindo filamentos, respigando texturas, aprisionando instantes de vida numa caixa de fósforos. Imagens em articulação sonora. O poder da sugestão, aquela linha de piano na faixa homónima do álbum, “Replica”, resgatando memórias do oblívio, do poço sem fundo, do canal que nunca mais sintonizámos. Num Universo em processo de expansão, relativizando tudo em seu redor. Setenta por cento de energia escura, ao que se acrescem a matéria escura e uma pequena fracção de matéria normal: aquilo que conseguimos visionar.

Após o revisionismo de “Rifts” (No Fun Productions, 2009), duplo álbum subliminal, Lopatin voltou à carga com “Returnal” (Editions Mego, 2010), onde questionava: “Where does time go?” Siderados pela capacidade de superação sensorial dessas obras, não esperávamos, porém, que Lopatin tivesse ainda mais para dar. “Replica” expande-se muito para além da nossa imaginação. É um disco que não obedece a uma qualquer significação linguística ou estilística. Nem tão pouco segue uma lógica. Remete o ouvinte para o plano da abstracção, tornando cada audição uma experiência única e irrepetível.

Gustavo Sampaio

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