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Thomas Von Party: lançar boa música e fazer amigos

Thomas Von Party é o homem dos sete ofícios. Ou melhor, talvez não sejam exactamente sete mas a lista impressiona na mesma. DJ desde tenra idade, foi como responsável pela contratação de novos artistas na editora Turbo – fundada pelo seu irmão Tiga – que Thomas entrou firmemente no mundo da música electrónica, não voltando a olhar para trás desde então. Para além deste trabalho como A&R, o canadiano realizou vídeos para temas como “Hot In Herre” e “Louder Than A Bomb”, dois êxitos de pista compostos por Tiga, e ainda se estreou em 2008 como produtor ao remisturar o original de Moby “I Love To Move In Here”, em parceria com Brad Lamborghini.

É a visão deste indivíduo que vive e respira batidas e sintetizadores que irá comandar a pista do Lux, em Lisboa, na próxima quinta-feira dia 24 de Novembro, juntamente com Franz & Sharpe, Gunrose e Zé Pedro Moura. Para antecipar a festa, fomos conhecer um pouco mais de um dos grandes responsáveis pelo sucesso continuado da Turbo.

“Acho que o papel das editoras é mais importante hoje do que alguma vez foi.”

Trabalhas há algum tempo como A&R na Turbo Records, mas também te começas a afirmar como DJ e produtor. Em que papel te sentes mais confortável e porquê?

Estou muito mais confortável como DJ. O trabalho de administração e de escritório não é bem o meu forte, e eu já toco discos há muito tempo, bem antes de ter começado na Turbo. O trabalho de A&R é basicamente um extensão disso, acrescentando uma dimensão social. A produção é algo que só recentemente comecei a fazer, mas que tive a sorte de o fazer com óptimas pessoas e em estúdios fantásticos, portanto é algo que eu me consigo imaginar a fazer mais e mais no futuro.

Como toda a gente pode fazer e publicar música nos tempos que correm, é comum ouvir pessoas a queixarem-se de que a exigência é menor e que a figura do A&R perdeu a relevância que tinha. Qual é a tua opinião sobre o boom de produtores de música electrónica e os papéis “tradicionais” das editoras neste novo ambiente?

As pessoas adoram queixar-se! Por um lado acho que o papel das editoras é mais importante hoje do que alguma vez foi, porque as pessoas estão constantemente a ser bombardeadas com “música” “grátis”, portanto ter uma marca que filtra o excesso pode ajudar a criar ordem no meio do caos. No tecno há muitos artistas que permanecem anónimos até que atingem um certo nível de sucesso, o que é normalmente construído com base na marca da editora. A verdade é que os artistas podem prescindir o modelo das editoras completamente, mas isso implica terem que saber como se promover a si próprios num mercado ultra-competitivo. De facto, as coisas estão a mudar e o que se vê muito hoje em dia é os artistas e seus managers a assumirem parte do que eram tradicionalmente funções da editora. No entanto, se nos conseguimos distinguir da manada enquanto editora, então temos um valor tremendo para os artistas porque podemos acelerar muito as suas carreiras. A verdade é que a música boa vai sempre destacar-se e o resto é só show-business… bem-vindos a Los Angeles!

O que é que procuras num artista quando queres assinar alguém pela Turbo?

No passado só queríamos saber das próprias faixas. Essa era uma forma muito “techno” de fazer as coisas e é um hábito difícil de largar. Eu orgulho-me muito de conseguir uma faixa que acho que é o melhor trabalho de um artista.  O outro estilo de A&R é o trabalho mais paciente e minucioso de escolher uns poucos talentos fantásticos e dar-lhes o que eles precisam até que atinjam o seu potencial. É disto que as pessoas se vão lembrar e acho que é nesta direcção que temos de continuar a seguir, à medida que passamos o nosso 13º ano e 175º lançamento. Hoje em dia talvez seja mais consciente da personalidade global do artista. Tento não julgar muito pela aparência ou pelo nome que escolheu, mas para ser honesto, hoje em dia tudo conta. Em termos gerais, queremos gente de quem gostamos, em quem acreditamos, que pareçam fiáveis e que sejam jovens.

“A boa música vai sempre destacar-se e o resto é só ‘show-business’.”

Acabaram de estrear uma sub-editora chamada Twin Turbo. O que nos podes contar sobre isso e que artistas podemos esperar nos lançamentos deste novo selo?

A ideia por trás da Twin Turbo nasceu de uma necessidade básica: ter demasiada música para lançar. Pensámos em fazer uma editora mais deep, talvez algo que pudesse chamar a atenção da malta da “bolha tecno de Berlim” que tem tendência a ignorar os nossos lançamentos mais maduros, por assim dizer, mas decidimos simplificar e focar a nova editora em temas de pista orientados para clubes e festivais, que queremos lançar rapidamente. Há também o aspecto estético de que estas faixas não dão a sensação de precisarem de sair em vinil ou terem uma arte gráfica exclusiva para cada disco, o que também não quer dizer que não seja importante. Vamos ter outro bom EP de Clouds, um mega-hit de Zoo Brazil e muito mais no horizonte.

E em relação à editora principal? Podes contar-nos os planos de futuro da Turbo?

Remisturas de ZZT que não acabam. O Sei A tem um par de EPs fantásticos. Um disco de remisturas muito porreiro do Renaissance Man, com versões do Joakim, Dexter, WhoMadeWho e mais uns. O muito aguardado álbum de estreia de Proxy vai mesmo sair em 2012, estivemos à espera do fim do mundo para o lançar. Vamos ter também alguns novos talentos canadianos em ascensão, como Nautiluss, Milano e Gingy & Bordello. Podes ainda não conhecer nenhum destes nomes mas estes tipos vão explodir no ano que aí vem.

A tua biografia faz referência à natureza ecléctica das tuas sessões DJ. O que pode o público lisboeta esperar de Thomas Von Party quando ocupa a cabine? Lembra-te que somos uma cidade de festa.

Gosto de ser versátil o suficiente para passar de coisas mais pesadas, temas de mãos-no-ar e coisas mais groovy, mais deep, meio house. Depende se o público quer dançar com as mãos ou com os pés.

“A relação que têm a maioria dos artistas de tecno e as respectivas editoras normalmente não é uma boa relação de negócios.”

Também fazes vídeos, como os de “Hot In Herre” e “Louder Than a Bomb” para o teu irmão Tiga. Vais continuar a realizar com uma agenda de DJ tão preenchida?

De momento estou a trabalhar num espectáculo visual para o Tiga e para a próxima digressão da Turbo que vai começar na Primavera. Acabei de vir de uma reunião com um amigo que acabou de comprar uma daquelas novas câmaras RED que são um espectáculo, portanto sim, vou continuar a fazer mais vídeos no futuro de certeza!

Quais são alguns dos artistas a que tens prestado mais atenção ultimamente?

Para mim os produtores mais interessantes dos últimos tempos têm sido Duke Dumont, Blawan ou Plein Soleil. Também tenho estado a gostar muito de um tipo novo que é o Nautiluss ultimamente. A lista podia extender-se imenso, mas acho que vou dar o destaque a estes.

Para onde achas que se dirige a indústria discográfica nos próximos anos? Com os lucros a decrescer devido aos downloads ilegais e com a venda de vinil cada vez mais baixa, achas que estamos prestes a assistir a mudanças profundas no funcionamento da indústria? Como é que as editoras como a Turbo se estão a adaptar às novas características do mercado?

No nosso caso estamos a mudar para um novo modelo onde nos focamos em espectáculos e investimos mais em lançar os artistas, mas exigimos um retorno e um compromisso que vá mais além da venda de música. Na realidade, a relação que têm a maioria dos artistas de tecno e as respectivas editoras normalmente não é uma boa relação de negócios, ainda que seja amigável e positiva a outros níveis. Acho que é algo que ambos os lados se estão a aperceber, havendo assim a escolha entre abandonar o modelo de editora, fingir que não se passa nada de errado e continuar a gerir a editora como uma organização de caridade, ou actualizar o modelo para que a editora receba uma percentagem justa e possa assim demonstrar interesse em desenvolver os artistas. Os managers podem não concordar com esta ideia, mas acho ridículo que as editoras que fazem à volta de 30 a 60% do trabalho que os managers fazem para desenvolver os artistas recebam 0% proveniente das actuações, quando as actuações constituem 90% ou mais dos rendimentos do artista.

“Nos dias que correm a atenção das pessoas é curta, se não impressionas imediatamente pode tornar-se uma batalha muito difícil.”

Como podem as pequenas editoras sobreviver neste ambiente altamente competitivo e alcançar alguma notoriedade?

Lança boa música e faz muitos amigos. Pode ser difícil penetrar no mercado mas acho que as novas editoras e artistas têm uma vantage. Uma nova editora pode lançar dois grandes discos e ser a “next big thing”. Qualquer editora estabelecida tem muito mais dificuldade em ter esse tipo de impacto. O mesmo pode ser dito dos artistas. Acho que o meu conselho se resume ao velho cliché: nunca tens uma segunda hipótese de fazer uma primeira impressão. Nos dias que correm a atenção das pessoas é curta, se não impressionas imediatamente pode tornar-se uma batalha muito difícil.

Vamos poder ouvir temas originais de Thomas Von Party em breve ou vais continuar a produzir remisturas por agora?

Esperemos que esteja para breve! Vou agora mesmo para o estúdio, portanto nunca se sabe.

Obrigado pelo teu tempo e que tenhas uma boa actuação no Lux.

Mal posso esperar!

João Pedro Silva

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