
Edição: Honest Jon’s CD, 2×12”
Burning Blood
Que dois dos maiores nomes da música eletrônica da atualidade se unam em torno de um álbum em conjunto, é motivo de júbilo para todos aqueles que desejam escutar algo que nunca escutaram antes. Porém, não se pode afirmar com plena convicção de que se trata de um disco de dubstep ou de “IDM”, nem de releitura computadorizada da música oriental, nem de reinterpretação da batucada africana, etc. Mal se pode dizer que estamos diante de um disco de música eletrônica… Aqui, a referência não importa, mas a própria experiência, cercada de contradições por todos os lados…
Como os grande álbuns de 2011, “Pinch & Shackleton” é um disco que desafia rótulos. Em virtude de sua abordagem iconoclasta, característica que se equilibra com a organicidade de seus timbres e texturas, “Pinch & Shackleton” é, sem dúvida, um trabalho livre classificações, indomável e fascinante, produto da colaboração de duas grandes consciências capazes de ampliar contextos e sonoridades supostamente consolidados. E que se movem para além das delimitações de um tabuleiro que se reconfigura a cada dia. Qualquer tentativa de associá-los à prisão dos gêneros vai de encontro à originalidade de sua música.
Originalidade… Que palavra! Diante da entonação dramática dos tambores retumbantes e de estruturas rítmicas que, apesar de incomparáveis no universo eletrônico, constituem os elementos característicos dos respectivos trabalhos, qual seria a função desta palavra problemática? Pode parecer redundante, mas é preciso notar que a “originalidade” aqui, antes de mais nada, representa uma noção que se reveste de imprevisibilidade. Ainda que se perceba claramente o batuque sombrio de Shackleton, e até mesmo entrever o balanço de Pinch – brilhantemente destilado em seu primeiro e único álbum solo, “Underwater Dancehall” –, é na forma imprevisível das composições e dos sons que reside o trunfo do disco.
Cada elemento soa como se tivesse passado por uma série de processos rigorosos, elaborados segundo uma gramática irredutível a qualquer trabalho de música eletrônica de que dispomos na praça. Como, por exemplo, os atabaques de “Levitation” (eleita para o videoclipe), os timbres vítreos na genial “Jellybeans”, o contratempo (hi-hat) em “Rooms Within a Room”, o loop histriônico em “Selfish Greedy Life” (“ya little greedy life”…) e as vozes fantasmagóricas de “Boracry Drift” – entre muitos outros. A imaginação vertiginosa de Shackleton e Pinch nos conduz por uma viagem sensorial, que foge ao escopo das referências consolidadas e dos gêneros supostamente bem acabados da música eletrônica.
Cozinhar um prato fora do cardápio, mesmo que isto implique em utilizar alguns ingredientes assentados no paladar do ouvinte. Parece o lema de artistas que conferiram graça e vigor ao ano de 2011: Moritz von Oswald, Andy Stott, Leyland Kirby, Travis Stewart (Machinedrum), Akifumi Nakajima (Aube), patten, Florian Hecker… E, mais uma vez, os nomes de Pinch e Shackleton figuram nessa lista, com todo os méritos.
Bernardo Oliveira