
Já na sua primeira edição, o Festival Novas Frequências revelou vocação para ser um dos eventos mais importantes do calendário cultural carioca. A começar pela relevância da proposta, que circunscreve um raio de interesses musicais muito específico, e que apesar de cultivado por um público cada vez maior, conta com pouca representação na cidade. O festival promoveu uma semana de imersão no universo sonoro das “outras” frequências, diferente daquelas que compõem o repertório habitual das noites cariocas. Como se costuma dizer no mundo do samba, “nem melhor, nem pior, apenas diferente…”
Em cinco dias, o Novas Frequências (que aconteceu no Oi Futuro Ipanema e teve o apoio da FACT Magazine PT) reuniu um time de artistas de alto nível, rigorosamente inscritos na proposta do projeto – o que em se tratando de “festivais” pelo Brasil não é pouca coisa. A intenção é convocar produtores que operam com música eletrônica, laptop music, sintetizadores e demais apetrechos, ou ainda misturando essa parafernália com instrumentos acústicos. Eis uma característica ambígua e saudável do evento: por mais que se possa destacar alguns elementos comuns a todos esses artistas, tratam-se de sonoridades e intenções completamente diferentes umas das outras.
Pela primeira vez no Brasil tivemos a oportunidade de assistir à apresentação de nomes tão variados como Com Truise, Sun Araw (que entrevistámos aqui), Murcof (que também entrevistámos, na altura do festival Semibreve) e Andy Stott, além de contar com Pazes e Psilosamples, dois exemplares promissores da música eletrônica/experimental brasileira. Parece inevitável admitir que por mais que conhecesse o trabalho de cada um deles, nada substitui a experiência de vê-los em ação, seja para confirmar o que imaginava a partir de audições privadas, seja para me surpreender, positiva ou negativamente, com suas respectivas performances.
Porém, mais do que mostruário de um rico panorama musical, o Novas Frequências pode ser interpretado como uma espécie de “encenação” – para quem quiser arriscar, é claro. E o que encena exatamente este teatro sonoro? Ora, as questões musicais contemporâneas, flagradas em pleno exercício e no calor do momento. Além do prazer estético causado pela som propriamente dito, nos defrontamos também com situações bastante diferentes das costumeiras, no que diz respeito à execução, performance, relação do autor com o público, entre outros aspectos da “música”. Se não, vejamos: a tensão entre composição e improviso no Sun Araw, entre música programada e “tocada” no Murcof, entre música eletrônica e música “acústica” no Com Truise, e também entre intenção laboratorial e jogo teatral, entre performance e não-performance, entre nacional e internacional…
Pela consistência da curadoria e as belas apresentações dos convidados, o balanço do festival é bastante positivo – a despeito de eventuais problemas técnicos, que por um milagre não se concentraram exatamente sobre o som (que estava ótimo!), mas sobretudo em relação ao ar condicionado do teatro que não segurou o calor carioca… Que venha o Festival Novas Frequências de 2012, e que esquente ainda mais nossa curiosidade.
A seguir, um resumo e comentário crítico de cada uma das apresentações.
Sun Araw (EUA), 07/12
Munido por sua guitarra, o simpático Cameron Stallones adentrou ao palco do Oi Futuro, que à esta altura já estava lotado, acompanhado por Alex Gray, que tocou guitarra e MPC, e por Barret Avner, que se encarregou de fazer soar um instrumento indiano chamado shahi baaja (“royal instrument”). Juntos, fizeram uma apresentação vibrante, investindo na habitual tapeçaria cacofônica e colorida, composta por instrumentos de corda e sons sintetizados. Difícil explicar a fluência com que o trio conduz as improvisações, mas convém notar que Gray acompanha Stallones no Deep Magic, enquanto Avner faz parte do Sadistic Candle, projeto lançado pelo selo de cassetes comandado pelo mesmo Stallones. Destaque para as “canções” (com aspas, por favor) lançadas este ano em Ancient Romans, o ragga alienígena “Crown Shell” e techno “Impluvium”.
Murcof (México), 08/12
Autor daquela que talvez tenha sido a performance mais polêmica do festival, o mexicano Fernando Corona apresentou de forma competente seus experimentos eletrônicos com toques de música clássica. Criando justaposições, despertando batidas, soltando sons de cordas incrivelmente bem gravados, Corona se comportou como um funcionário conferindo seus emails. Sentou-se, agradeceu discretamente com a cabeça. A partir daí, impassível, costurou excertos de seus trabalhos recentes, elaborando continuuns nem sempre coerentes com as composições presentes nos álbuns – o que constituiu o mais interessante da apresentação. No pacote das “novas frequências”, eventualmente podemos topar com artistas interessados em divulgar não um trabalho de performance, mas o resultado de suas pesquisas – outros na mesma seara são Florian Hecker, Kevin Drumm e Keith Fullerton Whitman. Trata-se de uma performance “laboratorial”, digamos.
Andy Stott (UK), 09/12
Como Murcof, Andy Stott também dispõe de uma bancada com seus apetrechos eletrônicos e um lap top. Não cansei de me perguntar a respeito do que viria deste que foi um dos produtores que mais assombrou o mundo em 2011. Após a segunda noite, temi por mais uma apresentação de laboratório, que, em todo caso, seria de extremo interesse. A impressão deixada por seus dois lançamentos de 2011, “Passed Me By” e “We Stay Together”, reforçava a expectativa por uma noite sombria, composta por graves profundos e batidas letárgicas. E foi o que de fato aconteceu, com a diferença de que Andy Stott toca em pé. E dança, ainda que timidamente. Não seria exagero dizer que, ao contrário das demais apresentações, a sua poderia dispensar as poltronas, sobretudo na sequência derradeira, com a suingada e acachapante “Dark Details”. Poucos acontecimentos musicais deste ano tiveram a importância da apresentação de Andy Stott, e boa parte desse fenômeno se deve à qualidade do som da casa, que suportou os graves com dignidade.
Com Truise (EUA), 10/12
No quarto dia, tive o prazer de assistir à maior surpresa do festival. Pelo menos para mim, um dos poucos que se decepcionaram com Galactic Melt, mas admirava o bom humor de Cyanide Sisters, entre outras mixtapes que apareceram em 2010 trazendo o nome hilário: Com Truise. Mas eis que o jogo vira: pois além da parafernália eletrônica, que espera-se em uma apresentação sua, Seth Halley é acompanhado pelo batera Rory O’Connor, que executa com precisão ritmos complementares às suas composições. A bateria de O’Connor é “trigada”, expressão derivada da palavra trigger, e que vem a ser uma espécie de sensor que capta a bateria e envia para o computador, onde o som é convertido em sons sintéticos. Desta combinação, resulta uma sonoridade em nada semelhante à frieza standard dos timbres de Galactic Melt. Ao vivo, o tal chillwave de Com Truise se transforma em algo como um muzak pra lá de turbinado…
Pazes/Psilosamples (Brasil), 11/12
Como Pazes, Lucas Febraro demonstrou, do ponto de vista da composição, um domínio completo do vocabulário internacional. Passeou por entre referências diversas, como as nuvens de sintetizadores e batidas quebradas de Flying Lotus, o hip hop alucinógeno de Clams Casino, o dubstep romântico de James Blake (como o inglês, Febraro também canta), uma ou outra faixa lembrando Actress, Blue Daisy, entre outros. Tudo muito bem composto, gravado e manipulado por um rapaz alto e magro, que sacode o corpo o tempo inteiro, como se quisesse acompanhar os beats desconjuntados que compõe.
Ao contrário do Psilosamples de Zé Rolê, mineiro do interior de Pouso Alegre, cuja música é carregada de citações do universo cotidiano do autor, tais como sons de sanfona e viola caipira. O som do Psilosamples é desvairado e em termos estruturais lembra o do Aphex Twin. Fragmentário, nunca permanece muitos compassos em uma só textura, sempre alterna os climas e batidas vertiginosamente, enquanto seu autor parece absorto sobre a tela do laptop. No fim das duas apresentações, vimos duas de muitas outras caras que a música eletrônica feita no Brasil pode ter: uma que aposta no confronto direto com a produção estrangeira, investindo em técnicas e roupagens em plena conexão com o que se faz nas grandes capitais da eletrônica. E outra, que busca criar meios de manipular essa linguagem em favor de uma interpretação crítica e experimental. Em ambos os casos, trata-se de um indício de que estamos produzindo em solo nacional com qualidade e interesse, o que já é digno de nota.
Bernardo Oliveira
Fotografia: Eduardo Magalhães e Bira David