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Dave Markey: o videoclip está morto

Depois de anos de espera, em 2011 foi oficialmente relançado o filme “The Year Punk Broke” de Dave Markey (originamente um VHS), um retrato fiel e ágil da tour europeia do Sonic Youth que tinha como banda de abertura um Nirvana momentos antes da explosão mundial (para além de aparições dos Ramones, Babes in Toyland, Dinosaur Jr. e outros). Enquanto muitos conhecem Dave Markey por este lendário filme, as raízes de seu trabalho remetem ao documentário definitivo sobre a cena independente americana dos anos 80, mais precisamente da banda Black Flag em sua última tour, retratados de maneira fiel e sem censura no absolutamente essencial “Reality 86’d”.

“Foi através da cena musical de LA que acabei me tornando um cineasta.”

Por que The Year Punk Broke demorou tanto para ser relançado? Foram problemas jurídicos/corporativos ou técnicos?

O relançamento do DVD estava fora do meu controle na Universal. Você pensa que com uma empresa tão grandeisso deveria ter acontecido antes, mas aparentemente problemas legais e relacionados ao espólio de Kurt Cobain consumiram todos estes anos de atraso. Inicialmente era para ter acontecido em 2004, então começei a trabalhar no filme que é o bonus do relançamento em DVD chamado “(This Is Know As) The Blues Scale”, feito com imagens não utilizadas no filme principal. Eu já estava feliz com a maneira com que filme foi feito, ainda mais pelo fato de que eu não tinha tanto material assim – cerca de 9 horas de filme – e com isto, já tinha editado um filme de 99 minutos(a versão original de “The Year Punk Broke”). Em Dezembro de 2004 fiz a estreia de “(This Is Known As) The Blues Scale” no Egyptian Theater em Hollywood (como integrante do festival American Cinematheque). No ano seguinte, a estréia aconteceu no BAFICI em Buenos Aires e consequentemente o filme foi exibido em outros festivais, até finalmente ser lançado em DVD.

A sua relação prévia com a SST Records e o Black Flag foi o que pavimentou esta parceria com o Sonic Youth e consequentemente este documentário?

Eu conheci o Sonic Youth quando eles começaram a frequentar a SST, possivelmente um ano antes deles assinarem com o selo, em finais de 1985. Minha banda – Painted Willie – assinou na mesma época, então foi natural o relacionamento. A minha experiência com música veio com minha banda anterior ao Painted Willie, chamada Sin 34, que por 5 anos fez o circuito hardcore californiano e por consequência disso, eu já estava acostumado com a SST e o Black Flag anos antes de assinar com eles pois estava ligado nas outras bandas do selo como The Minutemen, Meat Puppets, Saccharine Trust e The Stains. O selo tinha algo muito incrível acontecendo com eles, foi uma pena que não durou. Nos anos 80, principalmente na primeira metade da década, a SST era imbatível. Eu já fazia filmes desde pequeno, antes de descobrir o punk e a SST, mas foi através da cena musical de LA – e entenda, a cena como um todo, não apenas hardcore, porque existiam todos os tipos de música acontecendo – que acabei me tornando um cineasta. Eu ainda era adolescente, sem conhecimento formal, mas agia pelo instinto e tinha um bom olho, no fim a cena de LA tornou-se minha audiência e pela primeira vez eu consegui ter público fora da minha vizinhança.

“Não fazia a menor idéia de que seria um momento único na história do rock.”

Voltando ao documentário, como foi o approach do Sonic Youth? Eu imagino que naquela época e usando o seu equipamento (uma câmera Super 8), foi bem complicado organizar tudo.

Eu tive muito pouco tempo antes de sair de LA para fazer este filme. De alguma maneira, em tempo recorde, eu consegui meu passaporte, meu equipamento e uma mala cheia de filmes Super 8… tudo isso em uma semana ou duas. Em uma manhã de sol tinha que estar em um voo transcontinental para o Reino Unido, onde eu encontrei com um Nirvana completamente exausto graças as filmagens do clip de Smells Like Teen Spirit que varou a noite. Mesmo cansados, eles estavam completamente excitados com a tour e ninguém conseguiu dormir no avião… o disco “Nevermind” ainda estava para ser lançado.

Algo indicava que este documentário estava captando algo importante? Uma mudança radical no panorama musical?

Era meu trabalho, um trabalho incrível por ser convidado pelo Sonic Youth para ser o diretor deste documentário. Obviamente que entrei de cabeça nisso, mas não fazia a menor idéia de que seria um momento único na história do rock. Mas, novamente, eu também estava lá em 1981 quando o hardcore de Los Angeles explodiu, o engraçado é que basicamente ambos momentos estavam conectados e ambos momentos foram o trabalho de um homem só: eu gravei, editei e dirigi, sem ajuda de um assistente. Olhando para trás, fico espantado com isso.

As raízes do Nirvana e outras bandas alternativas tem como origem o trabalho duro e a ética de bandas dos anos 80 como o Black Flag. Neste caso você fazia parte desta cena que foi documentada no Reality 86’d. O sentimento era mais de construção e menos realização, como no caso de Year Punk Broke?

Bom, o Sonic Youth assinou com a Geffen depois de anos e anos de luta em selos independentes. Eles passaram grande parte de 1991 na estrada promovendo “Goo” e neste meio tempo fizeram a cabeça da Geffen para assinar o Nirvana, assim como o contrário. Conhecer o Nirvana foi como conhecer diversas bandas antes deles: nós tinhamos basicamente os mesmos discos e crescemos dentro do underground dos anos 80. Em 1986 eu cruzei os EUA diversas vezes com o Black Flag e Kurt, Krist e Dave amavam o Black Flag. Existia uma ligação.

“Uma coisa é certa: o videoclip está morto nos EUA.”

Você ainda tem muito material desta época? Algo que no futuro será lançado?

Eu ainda tenho alguns filmes que nunca lancei publicamente. Quem sabe, talvez um dia faça uma caixa com tudo que eu fiz. Eu já relancei muito do meu trabalho em DVD como “Cut Shorts”, “The Slog Movie”, “Desperate Teenage Lovedolls” e a sequência “Lovedolls Superstar”, todos feitos e produzidos por mim, mas sinceramente acho que o meu melhor trabalho é o meu filme mais recente, chamado “The Reinactors”. É um documentário sobre pessoas que fazem arte na rua, mais especificamente no Hollywood Boulevard, que foi lançado em 2008, mas ainda acho que o meu melhor trabalho ainda está para ser lançado.

Para encerrar, uma pergunta sobre o atual estágio da indústria musical, principalmente no que diz respeito aos filmes, algo no qual você foi um dos pioneiros. Qual a sua opinião sobre o que anda acontecendo? Você conhece trabalhos de novos diretores como Vincent Moon da Blogothèque, que criaram um nova linguagem mais adaptada aos vídeos na internet? Você tem algum diretor atual favorito?

Não conheço o trabalho de Vincent Moon, assim como não sou familiarizado com novos diretores ligados a musica, mas tenho certeza que existem muito diretores bons por ai, apenas não estou atualizado sobre isso. A onda de diretores associados ao Sonic Youth (Spike Jonze, Sofia Copolla, Todd Haynes, Harmony Korrine, Richard Kern e eu mesmo) era algo que estava realmente acontecendo, mas isso já foi há muito tempo. Uma coisa é certa: o videoclip está morto nos EUA. Faz muito tempo que a MTV deixou os videoclips, eles são uma rede de TV normal hoje em dia. E eles sempre foram uma merda.

Eduardo Pereira

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  • http://twitter.com/andersonrozatto Anderson Rozatto

    sei lá…

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