201103211225 || 201204121715 || 201205161150|||||||201205161150
NOPE




Loading the next page...
Creative Commons License
ADVERTISE WITH US | CONTACT US
KWAMECORP

↑ Go to top

FACEBOOK | TWITTER | SUBSCRIBE TO OUR NEWSLETTER
NotíciasDestaques Fact Mixes Críticas Audio Eventos
Ekundayo: Ekundayo

Edição: Rodeadope CD


Em Nove

O que acontece quando um disco consegue equacionar as ideias do lendário percussionista brasileiro Naná Vasconcelos, do músico e produtor Scotty Hard (responsável por um dos mais impressionantes álbuns colaborativos da década passada, Scotty Hard’s Radical Reconstructive Surgery), dos músicos Guilherme Granado e Maurício Takara (Hurtmold, São Paulo Underground), do trumpetista Rob Mazurek (São Paulo Underground, Chicago Undeground), e dos rappers Mike Ladd, Lurdes da Luz e Rodrigo Brandão (Mamelo Sound System)? O octeto batizado como Ekundayo – “a alegria que advém da tristezaâ€, em Iorubá – é uma dessas colaborações que se justificam através do equilíbrio entre diversas contribuições e particularidades, sintetizando a profusão de ideias em um todo coerente.

Porém, álbuns colaborativos – particularmente aqueles que ostentam o nome de todos os seus participantes na capa – são como uma faca de dois gumes. O que se espera deles? Diferentemente do trio de Moritz Von Oswald ou do quinteto de Peter Evans, que sugerem de saída a ação preponderante do band leader, trabalhos dessa natureza carregam a tarefa ingrata de apresentar algum nível de coesão entre as contribuições dos artistas escalados. Entre os bem sucedidos nessa seara, podemos citar One Bird Two Bird, colaboração entre Masami Akita (Merzbow), Mats Gustafsson e Jim O’Rourke, cuja principal característica se concentra justamente na arte de nivelar a contribuição criativa dos músicos. Já Knives From Heaven, lançado em 2011, conta com um quarteto estelar, que inclui Matthew Shipp, Beans, William Parker e Hprizm, mas exibe uma forma irregular, como se reportasse a um sarau improvisado, exposto às intempéries do improviso, ora vacilando, ora atingindo seu objetivo.

Em seus quarenta minutos, Ekundayo soa de forma orgânica e equilibrada, sem que um ou outro artista se imponha. Soa, em suma, mais como produto de um trabalho de conjunto, e não como um “projeto†abrupto e passageiro – fórmula que funciona melhor em experimentos localizados na seara da improvisação. O motivo não guarda mistérios, pois Takara já havia participado dos discos de Hardy e Mazurek, enquanto Brandão e Lurdes já operam há tempos no Mamelo Sound System. Consta que, a partir de 2008, Mazurek e Mike Ladd fizeram algumas jams com Mauricio Takara, Rodrigo Brandão e Lurdez da Luz, e convidaram gradualmente os outros membros para integrar o time. Resta saber se o resultado sonoro justifica tamanho equilíbrio e coesão.

Sintetizando gêneros e estilos, o Ekundayo produziu talvez o álbum colaborativo mais improvável do ano passado. Isto porque são evidentes os ecos do fusion jazz dos anos 70 – cujo referencial mais pungente é fornecido pelas experiência de Miles Davis –, algo do funk-rock dos anos 90, uma produção que viabiliza a convivência pacífica entre timbres acústicos, elétricos e eletrônicos e, sobretudo, um traço conceitual que leva do hip-hop ao jazz à moda da Thirsty Ear (a empresa que começou como agência de marketing nos anos 70, e desde a década de 90 é um dos selos mais interessantes na praça). Ou seja, elementos anacrônicos que, combinados com a precisão destilada pelo octeto, resultam em música vigorosa e criativa.

Entre temas jazzísticos como “Night of the hunter†e a delicadeza desconjuntada de “Freak Rockerâ€, destacam-se o rap peculiar de Rodrigo Brandão e Lurdes da Luz em “Macumbeiro então†(“Macumbeiro então vai ser queimado em Praça Pública?â€), a ousada “Em nove†– que, de fato, se vale do compasso composto e homenageia Maria Bethânia –, e o líbelo em prol da amizade, “Family Thangâ€, que lembra algo entre o Red Hot Chili Peppers dos bons tempos e o hip hop dos anos 90. E, por fim, encontramos em “Algo necessárioâ€, o verso que melhor resume a empreitada, pois traz à tona o conteúdo fluente e espontâneo de seu percurso e, ao mesmo, a ideia de que se trata de um trabalho burilado, pensado: “Respiração é algo necessário, como transpiração é algo necessário, como respiração…â€

Bernardo Oliveira

 

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...
blog comments powered by Disqus