
Edição: Editions Mego CD
Don’t Look Back
Apesar de ter participado apenas do primeiro álbum, Quique, de 1993, o nome de Mark Van Hoen (Locust, Scala) permanece atrelado ao agora reformado Seefeel. Esta alusão parece extrapolar a mera coincidência, à medida em que seu trabalho solo, ainda que editado de forma esparsa, confirmou uma sonoridade tensionada pela combinação improvável de elementos da eletrônica dos anos 90. Assim, Van Hoen se dedicou a desenvolver interseções entre a então nascente IDM, aludindo a uma linguagem mais acessível, precipuamente ligada ao hip-hop, ao trip-hop e à música produzida para as pistas – como se a trilha aberta por “Ageispolis”, obra-prima do Aphex Twin, fosse expandida e radicalizada.
Em 2010, após quatro anos de silêncio, Van Hoen editou Where is The Truth, um disco que levou muita gente a cogitar a hipótese de que o artista teria se rendido ao outro lado da balança, buscando sonoridades menos conflituosas, ao invés de perservar nas intenções experimentais. A impressão se aprofundou em 2011, quando surgiu um álbum do Seefeel, igualmente bissexto, timbristicamente ousado, mais arrastado e soturno. E, então, Van Hoen edita The Revenant Diary, pelo selo de Peter Rehberg, o Editions Mego…
Não deu outra. Revirando seus primeiros trabalhos, com o objetivo de remasterizar produções dos anos 90 e antigas gravações para as Peel Sessions, Van Hoen descobriu uma faixa de 1982, registrada em quatro canais, e se admirou do que ouviu. Concebido e executado em equipamentos rudimentares, no mesmo estilo 4-track, The Revenant Diary apresenta treze composições construídas a partir de presets, beats, sintetizadores e sons deteriorados. A atmosfera de saturação, ocasionada pela utilização deliberda da tecnologia incipiente, imprimiu um intenso desequilíbrio no ambiente sonoro, sugerindo um relação peculiar com o registro e, portanto, com a memória.
No entanto, The Revenant Diary justifica a articulação conceitual através de uma música ao mesmo tempo melancólica e organicamente vigorosa. Há que se notar os espasmos indiscretos de “Garabndl x” e o suingue fantasmagórico da sugestiva “I Remember”, amparadas pelas potencialidades da “baixa fidelidade “ – que em nada se assemelham à vertente batizada como lo-fi, atrelada mais ao aspecto da “apresentação” do que ao coeficiente sonoro. The Revenant Diary conta também com a voz adocicada de Georgia Belmont no reggae anômalo “Don’t Look Back”, mas, principalmente na faixa mais intrigante do álbum, “Holy Me”. Em pouco menos de dez minutos, Van Hoen perfaz um tour de force entrelaçando diversos registros da voz de Belmont, deslocando sempre o eixo tonal, à moda de uma composição minimalista. De certo modo, o resultado difere do restante das faixas, mas se aproxima das texturas drone de “37/3d”, outro destaque do álbum.
Tal como os trabalhos de Leyland Kirby (principalmente como The Caretaker) e William Basinski, Mark Van Hoen aborda uma relação muito particular não com o tempo, mas com a noção de “duração”: um som, uma lembrança, uma coisa, uma máquina, não obedecem necessariamente uma dinâmica de transcorrência, mas de intensidade. É a força ao mesmo tempo presente e evocativa de seus objetos sonoros o fator determinante para a música que emerge de The Revenant Diary. Trata-se de um disco assombrado por uma avalanche nostálgica, que, no entanto, ensaia a contraditória recherche a um futuro que não chegou.
Bernardo Oliveira