201103211225 || 201112121530 || 201112121140|||||||201112121530
NOPE




Loading the next page...
Creative Commons License
ADVERTISE WITH US | CONTACT US
KWAMECORP

↑ Go to top

FACEBOOK | TWITTER | SUBSCRIBE TO OUR NEWSLETTER
NotíciasDestaques Fact Mixes Críticas Audio Eventos
Lindstrøm: Six Cups of Rebel

Edição: Smalltown Supersound CD, 2xLP


Call Me Anytime

O retorno de Lindstrøm às manchetes dos blogs e publicações especializadas não se dá exclusivamente  por ocasião do lançamento de seu último álbum, Six Cups of Rebel – pseudônimo retirado de Tarantula, livro escrito por Bob Dylan, utilizado pelo produtor no EP de 2005, Arp the Air. Tamanho interesse se deve, em primeiro lugar, à forma idiossincrática com que o norueguês mistura diversas vertentes ligadas à chamada “música eletrônica”. Ora, estamos diante de um artista preocupado em burilar o aspecto conceitual de suas produções, tematizando alguns dos estilos e gêneros mais obscuros e interessantes dos anos 70 e 80. Cabe, enfim, ressaltar o talento narrativo de Lindstrøm, que ao explorar criativamente suas próprias referências, acaba por nos contar uma versão muito particular da história.

Assim, parece igualmente evidente que Lindstrøm cultiva algumas obsessões, com as quais constrói sua abordagem. No primeiro álbum de carreira, Where You Go I Go Too, o autor se esmerou na confecção de uma releitura do principal trabalho de Manuel Göttsching, E2-E4, apostando na atualização dos timbres e na longa duração. Do mesmo modo, dificilmente se poderá negar as fortes influências germânicas e italianas que assombram Six Cups of Rebel. Da cosmic disco italiana, o ecletismo irreverente e criador de contrastes de Beppe Loda e Daniele Baldelli. Da Alemanha, as camadas sobrepostas de sintetizadores caracaterística do Ash Ra Temple e Tangerine Dream, acompanhadas pela noção modular do arranjo. Para finalizar, acrescete ao caldeirão “de Bach a Deep Purple, do rock progressivo e do arpeggiator disco ao acid house”, como descreve o release do álbum, e teremos uma ideia da cornucópia sonora de Six Cups Of Rebel.

De certa forma, o disco expande a senda aberta pelo álbum anterior, gravado em parceria com Christabelle, cantora meio mauritanesa, meio norueguesa. Calcado em releituras “atualizadas” de alguns dos gêneros e estilos citados acima, Real Life is No Cool equilibrava-se entre o gosto pela “retrô” e a necessidade de tingi-la com outras cores. Por outro lado, apontava para um futuro incerto, demonstrando um indisfarçável pendor para as pistas de dança, mas aludindo, aqui e ali, à experimentação.

Por seu turno, Six Cups Of Rebel é formalmente mais ousado e beira a extravagância em diversos momentos. As faixas são contínuas, cada uma contendo ao menos a introdução da faixa seguinte. No transcorrer deste continuum, uma torrente descontrolada de elementos e influências: na introdução new age, “No Release”, a presença hegemônica do arpeggiator – sintetizador que, como confirma o nome, reproduz o arpejo de um dado acorde –, seguido do primeiro single, “De Javu”. A introdução revela a influência de Giorgio Moroder e outro “magos” dos sintetizadores, mas a faixa se destaca pelo balanço funky, reforçado pela qualidade impecável dos timbres e da produção como um todo.

Que não se encare como meramente alusiva a referência ao progressivo e ao rock, pois o que ocorre em muitos dos momentos mais doidivanas do álbum, exprime exatamente o interesse do autor em criar releituras de timbres e convenções próprias a esses universos. Resta saber como ele equaciona os rococós formais do progressivo com italo disco, house, e outros gêneros. O approach conceitual de Lindstrøm recria suas influências através da observação crítica e bem humorada – aliás, justamente bem-humorada porque crítica . O exagero e o bom humor como métodos podem ser observador na profusão de riffs e melodias, nas inúmeras viradas de bateria, sobreposições de teclados e dinâmicas de conjunto que permeiam o percurso acidentado de “Call Me Anytime”, do pós-punk com tinturas orientais de “Magik” e, sobretudo, no funk rock triunfal na faixa-título e na obsessiva “Quiet Place to Live”. Esta última conta com os vocais do próprio Lindstrøm, como em outras faixas. Se por um lado não soa grandes coisas, ao menos o produtor soube se utilizar da voz de forma satisfatória, geralmente como mais um instrumento musical.

Six Cups Of Rebel termina com uma faixa de mais de dez minutos, chamada “Hina”. De uma forma geral, ela não destoa das restantes, mas confirma boa parte de seus principais atributos: extravagância, variação contínua, múltiplas referências, progressões harmônicas, viradas de bateria, repetição… Sua expressão possui um fundamento “estético”, pois se ampara na busca do autor por formas sonoras que contemplem seus interesses e justifiquem seu entusiasmo por um determinado tipo de música. E isso de tal modo que Six Cups Of Rebel traz na pele a marca de um arrebatamento: se o resultado não é “perfeito”, se excede em diversos momentos o “bom senso” e as “regras”, tanto melhor. É nesse território meio descontrolado, meio consciente de si mesmo, que se dá a música de Lindstrøm.

Bernardo Oliveira

 

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...
blog comments powered by Disqus