
Edição: Shitkatapult CD
Mare Fax
Na contramão de uma certa tendência em confeitar o aspecto icônico das décadas passadas – à exemplo da recuperação dos sintetizadores germânicos, ou no synthpop dos oitentas – a música de Markus Popp parece olhar exclusivamente para o futuro. Investigando as potencialidades sonoras do CD – seja arranhando-o ou explorando os comandos rewind e fast-forward – Popp gravou 94Diskont (1995). Pouco depois, projetaria um aplicativo que permitiria não só manipular o resultado de sua pesquisa timbrística, como também, ao usuário, reproduzir as técnicas empregadas no álbum. Fazia questão de afirmar que a música que lhe interessava advinha dos procedimentos com softwares, e não dos sintetizadores, concepção que resultou em álbuns como Ovalprocess (2000) e Ovalcommers (2001). Após quase dez anos de silêncio, edita o enigmático O (2010), setenta faixas trabalhadas sobre uma plataforma abastecida de sons pré-selecionados, cujo modo de execução permitia a Popp conferir mais organicidade às composições. Resumidamente, a música do Oval condensa no mesmo patamar o som e a música, a técnica e a estética, o procedimento e a criação, em uma mesma perspectiva, positiva, fulgurante e inspiradora.
Há quase vinte anos, em companhia de Sebastian Oschatz e Frank Metzger, Popp desenvolveu experiências que resultariam no subgênero que ficou conhecido como glitch. Através de procedimentos até então incomuns, assinou uma série de álbuns que, devido à amplitude dos processos e complexidade do resultado, puseram em xeque a própria noção de “música eletrônica”. Porém, o que definia o glitch não era simplesmente a sonoridade abrasiva e o aspecto material que ressoava de sua experiência sonora, mas a própria noção de que todos os processos estão implicados na experiência acabada. Mais do que isso, a percepção de que a experiência se expande, constituindo um continuum ilimitado e fragmentário, que se renova a cada nova execução, a cada nova reinterpretação. Experimentação, procedimento, consequência e controle incidem sobre um só e mesmo dispositivo estético, o que implica na condensação de todos os momentos – inclusive o seu porvir. Assim, o DNA do título não se refere simplesmente à gênese e desenvolvimento de um trabalho pregresso, mas, sobretudo, aponta uma seta para o futuro.
Como era de se esperar, OvalDNA não é um lançamento convencional, tanto no aspecto técnico, como no que diz respeito à concepção artística – fatores que Popp considera paralelos em sua obra. Trata-se de um pacote triplo, composto por um CD de material inacabado, inédito ou obscuro, que cobre o período de treze anos que vai de 1997 até pouco depois do lancamento de O; um DVD que traz generoso material open source composto por cerca de dois mil arquivos sonoros, classificados pelos termos “Oval”, “OvalDNA Software”, “Oval Musicclips”, “Oval documentation” e “bonustracks”; e, por fim, um livreto com texto de David Toop. E, no entanto, em meio a esta pletora de arquivos, documentos e até mesmo memorabilia, sobressai a música propriamente dita. Desprovida da habitual coerência conceitual, a presente seleção busca dar conta da forma mais ampla possível de todo um percurso, incorporando eventuais sobressaltos e correções de rumo. O indivíduo familiarizado com o trabalho do Oval será entretido por um jogo de cabra-cega, na tentativa de adivinhar em que contexto se localiza a beleza disforme de “Mare Fax”, as percussões robustas de “In + Love” ou “Australasia”, uma faixa que condensa um bocado da fase atual e a chiadeira da década de 90.
Já o conceito da edição como um todo é mais complexo: trata-se menos de uma retrospectiva convencional do que uma nova empreitada, OvalDNA contribui decisivamente para a compreensão do pensamento musical de Markus Popp, mas também semeia seu legado sob a forma objetiva de um exemplo. O trabalho manifesta um pensamento que não se deixa mediocrizar por falsos consensos, permitindo-nos afirmar que tamanha generosidade expõe uma perspectiva corajosa a respeito do estatuto da criação artística, não somente nesses dias em que vigora uma espécie de capitalismo obscurantista, mas desde que haja criação humana.
Bernardo Oliveira