201103211225 || 201204121715 || 201205161150|||||||201205161150
NOPE




Loading the next page...
Creative Commons License
ADVERTISE WITH US | CONTACT US
KWAMECORP

↑ Go to top

FACEBOOK | TWITTER | SUBSCRIBE TO OUR NEWSLETTER
NotíciasDestaques Fact Mixes Críticas Audio Eventos
Oval – OvalDNA

Edição: Shitkatapult CD


Mare Fax

Na contramão de uma certa tendência em confeitar o aspecto icônico das décadas passadas – à exemplo da recuperação dos sintetizadores germânicos, ou no synthpop dos oitentas – a música de Markus Popp parece olhar exclusivamente para o futuro. Investigando as potencialidades sonoras do CD – seja arranhando-o ou explorando os comandos rewind e fast-forward – Popp gravou 94Diskont (1995). Pouco depois, projetaria um aplicativo que permitiria não só manipular o resultado de sua pesquisa timbrística, como também, ao usuário, reproduzir as técnicas empregadas no álbum. Fazia questão de afirmar que a música que lhe interessava advinha dos procedimentos com softwares, e não dos sintetizadores, concepção que resultou em álbuns como Ovalprocess (2000) e Ovalcommers (2001). Após quase dez anos de silêncio, edita o enigmático O (2010), setenta faixas trabalhadas sobre uma plataforma abastecida de sons pré-selecionados, cujo modo de execução permitia a Popp conferir mais organicidade às composições. Resumidamente, a música do Oval condensa no mesmo patamar o som e a música, a técnica e a estética, o procedimento e a criação, em uma mesma perspectiva, positiva, fulgurante e inspiradora.

Há quase vinte anos, em companhia de Sebastian Oschatz e Frank Metzger, Popp desenvolveu experiências que resultariam no subgênero que ficou conhecido como glitch. Através de procedimentos até então incomuns, assinou uma série de álbuns que, devido à amplitude dos processos e complexidade do resultado, puseram em xeque a própria noção de “música eletrônica”. Porém, o que definia o glitch não era simplesmente a sonoridade abrasiva e o aspecto material que ressoava de sua experiência sonora, mas a própria noção de que todos os processos estão implicados na experiência acabada. Mais do que isso, a percepção de que a experiência se expande, constituindo um continuum ilimitado e fragmentário, que se renova a cada nova execução, a cada nova reinterpretação. Experimentação, procedimento, consequência e controle incidem sobre um só e mesmo dispositivo estético, o que implica na condensação de todos os momentos – inclusive o seu porvir. Assim, o DNA do título não se refere simplesmente à gênese e desenvolvimento de um trabalho pregresso, mas, sobretudo, aponta uma seta para o futuro.

Como era de se esperar, OvalDNA não é um lançamento convencional, tanto no aspecto técnico, como no que diz respeito à concepção artística – fatores que Popp considera paralelos em sua obra. Trata-se de um pacote triplo, composto por um CD de material inacabado, inédito ou obscuro, que cobre o período de treze anos que vai de 1997 até pouco depois do lancamento de O; um DVD que traz generoso material open source composto por cerca de dois mil arquivos sonoros, classificados pelos termos “Oval”, “OvalDNA Software”, “Oval Musicclips”, “Oval documentation” e “bonustracks”; e, por fim, um livreto com texto de David Toop. E, no entanto, em meio a esta pletora de arquivos, documentos e até mesmo memorabilia, sobressai a música propriamente dita. Desprovida da habitual coerência conceitual, a presente seleção busca dar conta da forma mais ampla possível de todo um percurso, incorporando eventuais sobressaltos e correções de rumo. O indivíduo familiarizado com o trabalho do Oval será entretido por um jogo de cabra-cega, na tentativa de adivinhar em que contexto se localiza a beleza disforme de “Mare Fax”, as percussões robustas de “In + Love” ou “Australasia”, uma faixa que condensa um bocado da fase atual e a chiadeira da década de 90.

Já o conceito da edição como um todo é mais complexo: trata-se menos de uma retrospectiva convencional do que uma nova empreitada, OvalDNA contribui decisivamente para a compreensão do pensamento musical de Markus Popp, mas também semeia seu legado sob a forma objetiva de um exemplo. O trabalho manifesta um pensamento que não se deixa mediocrizar por falsos consensos, permitindo-nos afirmar que tamanha generosidade expõe uma perspectiva corajosa a respeito do estatuto da criação artística, não somente nesses dias em que vigora uma espécie de capitalismo obscurantista, mas desde que haja criação humana.

Bernardo Oliveira

 

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...
blog comments powered by Disqus