
Edição: Hotflush Recordings CD, LP, Digital
The Hope
Há alguns anos atrás, Scuba era sinónimo de King Britt, expoente da nova soul de Filadélfia que utilizava esse alter-ego para as suas explanações deep house embebidas em jazz de fusão. Hoje é instantaneamente associado a Paul Rose, o produtor e disc-jockey britânico que adoptou a mesma denominação para submergir (literalmente) nas águas profundas da bass music londrina. Rose que trocou Londres por Berlim em 2007 e, cerca de um ano mais tarde, lançou o primeiro álbum de originais, “A Mutual Antipathy”, com o selo da editora Hotflush Recordings que ele próprio fundou em 2003.
Tanto Scuba (Rose) como a Hotflush Recordings (Mount Kimbie, Joy Orbison, Sepalcure, etc.) começaram por explorar a emergente linguagem dubstep mas não tardaram a experimentar novas coordenadas criativas, acompanhando a tendência de fragmentação do dubstep (vulgo pós-dubstep) que acabou por se plasmar noutras correntes da bass music até alcançar um ponto de não retorno. Ao segundo disco, “Triangulation” (Hotflush Recordings, 2010), a sonoridade de Scuba permanecia soturna, angulosa e hipnótica, mas já não era dubstep puro, através da adição de outros ingredientes.
Entre os quais o techno, ao que não será alheia a sua vivência em Berlim, onde promoveu as sessões “SUB:STANCE” no lendário clube Berghain. Desde então que se tem dedicado a um espectro mais alargado da música de dança, sobretudo através da prolífica actividade como disc-jockey. Começou, aliás, a editar produções house com outro alter-ego, SCB, nomeadamente o 12 polegadas “Loss / FutureUnknown” (Aus Music, 2011), no mesmo ano em que assinou mais um capítulo da consagrada série DJ Kicks da !K7. Tudo isto enquanto condimentava um terceiro longa-duração para Scuba.
Intitula-se “Personality” (Hotflush Recordings, 2012) e vai chegar aos escaparates na próxima semana. Fruto de um ano de trabalho de estúdio em Berlim, “um longo e tortuoso processo” (citação de Rose em entrevista ao Resident Advisor), o novo disco consiste em 11 faixas seleccionadas a partir de um total de “cerca de 50 ou 60”. Os temas de “Loss / FutureUnknown” estiveram no alinhamento mas acabaram por ser preteridos (e editados como SCB), tal como os de “Adrenalin” (Hotflush Recordings, 2011), o EP de Scuba, lançado em Setembro do ano passado, que se presumia ser uma primeira amostra do muito aguardado “Personality”. Rose é uma caixinha de surpresas.
E tal como o primeiro single, “The Hope”, indiciava, a música de Scuba tornou-se mais física, mais acelerada, mais direccionada para a pista de dança. Por instantes faz lembrar “Ghost People” (Brainfeeder, 2011), o último álbum de Martyn. Ora, house, techno e big beat, em detrimento do dubstep, pós-dubstep e downtempo que pautavam os discos anteriores (embora preserve alguns elementos, ou vestígios). Rose diz que está numa de se divertir e dançar e isso extravasa para faixas luminosas como “July”, “Action” ou “Gekko”. Nem sempre resulta bem, por vezes há demasiado ruído e distorção, mas no cômputo geral acaba por se revelar tão enérgico quanto eficaz.
“Tenho andado a tentar retomar o contacto com a vibração da cultura ‘clubbing’ dos anos 90 e também com aspectos melódicos da pop dos anos 80”, indica Rose. Deixou para trás a penumbra introspectiva dos dois primeiros discos e associou o projecto Scuba ao carácter mais lúdico das suas sessões de “gira-discagem” nos melhores clubes de Londres e Berlim. Mas admite que possa ser apenas uma fase passageira e diz que não faz ideia sobre o que é que lhe apetecerá fazer a seguir. Aliás, um dos melhores momentos do disco, “Cognitive Dissonance”, não está assim tão distante do universo de “Triangulation”. Tal como “Tulips”. Afinal é tudo uma questão de maior ou menor luminosidade.
Gustavo Sampaio