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Kyoka: iSH

Edição: Raster-Noton 12”, Digital


iSH

Não deixa de ser curiosa a menção, no site da Raster-Noton, de que Kyoka é a primeira mulher a figurar no selo. Pergunto-me se isso importa, e de que forma? A música pode desconhecer credo, raça e gênero, mas até que ponto é possível determinar o elemento “gênero” em uma música? Diante da improbabilidade de tal empreitada, me pergunto se há algum fundamento na expressão “música de meninos”, cuja história remonta às minhas primeiras audições de rock progressivo (King Crimson, para ser mais exato): diante da profusão de sons rascantes e “difíceis”, alguém teria exclamado que aquilo era música para homens, ao passo de que os sons mais palatáveis seriam supostamente reservados ao sexo oposto.

É claro que minha opinião a esse respeito mudou consideravelmente, sobretudo após conhecer Ikue Mori, Yoshimi, Eliane Radigue, entre outras mulheres que se embrenham com afinco nas sendas da experimentação sonora. Justamente o campo onde a artista e produtora japonesa Kyoka parece se inscrever. Antes, Kyoka desenvolveu vertiginosas colagens pop, a lembrar algo do drill’n’bass da década de 90, que resultou na série batizada como ufunfunfufu, em 3 volumes lançados entre 2008 e 2010. Sua chegada à Raster-Noton trouxe mudanças substanciais para o trabalho.

Produzida pelo parceiro Frank Bretschneider, Kyoka se esmera em uma concepção mais econômica, sem abrir mão dos glitches e demais timbres de ferro velho que caracterizam seu trabalho. Na sequência, o leitor desfaz qualquer preconceito que venha a ter, diante de intrincadas tramas percussivas, composta por fragmentos de timbres (por isso o aspecto de “ferro velho”) e da aplicação elegante das vozes. A ironia fica por conta do andamento techno do remix de Atom TM para “HADue”, o único vacilo de iSH. Que seja assinado por um homem é motivo suficiente para enterrar definitivamente qualquer relação possível entre música e gênero.

Bernardo Oliveira

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