
Edição: Planet Mu CD, 2×12”, Digital
First Wave
Antes de conhecer o Mi Ami, antes mesmo de escutar “Streetwise” (colaboração com o LA Vampires de Amanda Brown), o nome de Daniel Martin-McCormick sempre esteve atrelado para mim à Dusted Magazine. Fato que me faz lembrar um velho preconceito à brasileira, segundo o qual ao artista não é permitido ser amigo de crítico. Ou ainda: crítico não pode ser artista ou se dedicar a analisar o trabalho de amigos e vice versa. Talvez fruto indesejado do “homem cordial”, talvez um receio de que o coleguinha passe adiante na corrida imaginária pelo “olimpo” nosso de cada dia, este tipo de preconceito só se sustenta por falta de bons artistas que se aventurem na tarefa crítica com qualidade. E vice versa.
O caso de Daniel Martin-McCormick é exemplar nesse sentido. Um crítico-artista, artista-crítico, que consegue equilibrar seu horizonte de criação estética com um aporte crítico consistente. Um de seus projetos mais celebrados é o Ital, que se aproximou inicialmente da estética diáfana da Not Not Fun. E, no entanto, Hive Mind foi editado pelo selo Planet Mu, de Mike Paradinas, o que indica uma pista: pois a cornucópia nostálgica do selo angeleno apenas se aproxima de seu trabalho, ao passo que cabe perfeitamente nas aspirações do Planet Mu, selo afeito a experimentações com batidas “dancefloor oriented” – como o Juke de Chicago, por exemplo.
Hive Mind traz uma sonoridade atravessada por inserções diversas, repleta de subterfúgios como a colméia a qual o título se refere. A estrutura das faixas, geralmente calcadas no 4/4 do house e do techno, se deixa atravessar por uma variedade prodigiosa de timbres, efeitos, alterações de frequência, notas falsas, variações rítmicas e citações, perceptíveis ou não. De saída, uma coincidência macabra: a primeira faixa, “Doesn’t Matter (If You Love Him)”, como o próprio título afirma, traz um resposta à recém-falecida Whitney Houston e conta com o sampler da famigerada “I Will Always Love You”. O jogo percussivo a partir do vocal, repetindo de diversas formas a frase “doesn’t matter if you love him”, chega ao absurdo no final, com a sobreposição insana das sílabas formando uma espécie de trinado.
Após a incursão ao ambiente fantasmagórico da silenciosa “Privacy Settings”, três faixas com pouco mais de dez minutos completam o disco. Mas “First Wave” parece ser a que melhor apresenta os conceitos com os quais McCormick opera. A cada momento percebe-se que o procedimento consiste em relacionar duas ou três camadas básicas, atravessando-as com uma porção de intervenções. A percussão eletrônica com timbre de “bambu”, cujo pitch modula ao longo da faixa, opera como um hi-hat. De repente uma pancada anuncia o bumbo de uma das camadas, enquanto surge o sintetizador em fade out. A partir de então, “First Wave” delineia um jogo de manipulações que vale acompanhar de perto. O mesmo jogo de variações infinitas, o mesmo procedimento inclusivo, pode ser observado na faixa seguinte, “Israel”, com o entrelace inteligente entre a voz de alguém que discursa e uma série de timbres de sintetizador sobre a batida techno. O disco só escorrega na última faixa, “Floridian Void”, justamente porque o jogo de manipulações é substituído pela regularidade.
Hive Mind é um disco para ser escutado no fone, devido ao caráter minucioso de sua composição, como se a técnica desenvolvida pelo produtores jamaicanos, conhecida como dub, fosse elevada à enésima potência. As possibilidades propiciadas pela mesa de som são potencializadas pela utilização dos cortes digitais, criando uma sonoridade extremamente rica e acidentada. Ora, se não estamos abordando uma imagem crítica da “preset music”, criada exclusivamente para as pistas de dança? Ora, se não é o crítico de música Martin-McCormick levando mais do que sons para sua música, elaborando um universo complexo sobre o qual recaem problemas extra-musicais, realizando, com sua criação, uma música “crítica”? Não parece mera coincidência que Hive Mind seja seu melhor trabalho até hoje.
Bernardo Oliveira