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John Talabot: ƒIN

Edição: Permanent Vacation CD, LP


Oro Y Sangre

Um primeiro longa-duração cujo título aponta, desde logo, para o término de um ciclo. Ou, num sentido mais lato e menos literal, sugerindo um ambiente imaginário, não de fim de festa, mas de pós-festa: sentimentos difusos, cansaço e exaltação, melancolia e resiliência, qual sessão “after-hours” na Sala Apolo ou no Moog Club de Barcelona. Continuar a dançar até ao meio-dia, com a luz do Sol a irromper pelas frestas das portas e das janelas, a cabeça acelerada e o corpo dormente. Toda uma cultura hedonista, profundamente enraizada, que dá azo a um sentido de humor característico – não por acaso, há uma página no Facebook dedicada a “Señoras que ven a jóvenes volviendo del after y piensan que han madrugado”!

John Talabot é o pseudónimo de um jovem DJ e produtor oriundo de Barcelona. Para além de arrebatar as pistas de dança com as suas linhas de deep house melódico, em horário nocturno ou matinal, também se dedica à alquimia de estúdio: em meados de 2009 lançou “My Old School” (com o selo da Permanent Vacation, editora baseada em Munique), 12 polegadas de balearic house incandescente; seguiu-se “Mathilda’s Dream” (Permanent Vacation, 2010), mais penumbroso, indiciando uma mudança de direcção consubstanciada no primeiro álbum, “fIN”, de acordo com as palavras do próprio Talabot em entrevista recente: “Quando produzi “Mathilda’s Dream” julguei que era uma faixa sombria, mas foi descrita por todos como luminosa e tropical. Não sei porque é que as pessoas tiveram essa percepção, ainda penso que é sombria. Por isso digo que este novo disco é sombrio, mas não faço ideia sobre o que é que as pessoas vão achar”.

Não se trata apenas de uma questão de maior ou menor luminosidade. O pós-festa de “fIN” revela-se tão nostálgico quanto feérico, diversificado, espiritual, complexo e disruptivo. As duas faixas iniciais, “Depak Ine” e “Destiny” (com a vocalização de Pional), desbravam os trilhos progressivos de balearic house, mas à terceira, “El Oeste”, Talabot baralha as referências e confecciona uma exótica faixa downtempo que surpreende e prepara o caminho para “Oro y Sangre”, uma delícia ainda mais bizarra, com gritos de filme de terror, batidas gordurosas à Dâm-Funk e sintetizadores em modo anos 80…

Em “Journeys” destaca-se outra colaboração, desta feita por Ekhi (dos conterrâneos Delorean), com uma vocalização coral muito similar ao misticismo acidificado dos Animal Collective, e remetendo também para “Black Noise” (Rough Trade, 2010) de Pantha Du Prince, esse magnífico disco que ergueu uma ponte entre os universos da indie-pop e do techno minimal, outrora desavindos. Mas também há ecos de Booka Shade. Ou momentos de superação como “Last Land”. Ao que se acresce a sofisticação e sensualidade de “Estiu”, carregada de groove. Para retornar à toada balearic house em “When the Past Was Present”, cabelos frisados e braços no ar, culminando no deep house de “So Will Be Now”, acompanhado por Pional.

Oscilando entre luz e sombra, aceleração e languidez, celebração e introspecção, “fIN” está a ser muito bem recebido pelos cultores do indie-pop, como que um sucedâneo de “Black Noise”. Mas não deixa por isso de cativar os entusiastas das pistas de dança ou os demais apreciadores de música electrónica. Talabot já tinha demonstrado a sua versatilidade ao remisturar temas para Delorean, Zwicker, Glasser (aliás, convidou Cameron Mesirow para colaborar no EP “Families”, editado pela Young Turks em 2011), Aufgang, Teengirl Fantasy, Joakim ou The xx. Nos antípodas das primeiras produções, que eram previsíveis e rudimentares. Ora, é plausível que todo este entusiasmo que se gerou em torno de Talabot acabe por se esgotar brevemente, mas, por enquanto, anda em digressão com SBTRKT em terras australianas, na crista da onda, quem diria?

Gustavo Sampaio

 

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