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Grimes: Visions

Edição: 4AD LP


Oblivion

Grimes é a máscara envergada por Claire Boucher, canadiana com 24 anos de idade, baseada em Montreal. No Verão passado, em entrevista ao blog do suplemento de moda do “The New York Times”, magicou um rótulo para descrever a sua música: “pós-Internet”. Assim, sem mais nem menos. Mas o que é que isso quer dizer? “A música da minha infância era realmente diversificada porque eu tinha acesso a tudo, por isso a música que eu faço é algo esquizofrénica”, confessa Boucher, que acrescenta: “Basicamente sou muito impressionável e não tenho sentido de consistência naquilo que faço”.

Por um lado queda-se na banalidade de um rótulo absurdo: “pós-Internet” é tão lato que pode aplicar-se a tudo e a nada ao mesmo tempo, acrescido do adjectivo “esquizofrénico” que, à falta de mais e melhor imaginação, é insistentemente utilizado para descrever música complexa, abstracta ou multifacetada. Por outro lado acerta na auto-crítica relativa à inconsistência, patente nos três primeiros discos: “Halfaxa” (Lo Recordings, 2010), “Geidi Primes” (No Pain In Pop, 2011) e “Darkbloom” (Hippos In Tanks, 2011), este último em parceria criativa com d’Eon, outro produtor de texturas synth-pop.

No entanto, o quarto álbum de Grimes, acabado de editar pela 4AD, revela-se mais consistente do que os anteriores, fruto de uma produção sofisticada e de um apurado sentido de entretenimento. Aliás, Boucher já tinha avisado, na entrevista do Verão passado, que “Visions” seria “glitchy, dançável e mais estruturado”. Ou seja, “como quem pega na Mariah Carey e na Enya, juntando-as em palco, para depois introduzir percussão à Black Dice e alguns graves de dubstep”. É a melhor descrição possível dos efeitos aplicados à voz de Boucher no novo disco – já vinham de trás mas foram exponenciados.

Uma espécie de “falsetto vaporoso”, escreve Lindsay Zoladz na Pitchfork. Sucessivas camadas em loop, por vezes distantes, outras vezes estridentes. Resulta muito bem em “Circumambient”, pérola R&B que vale pelo resto do disco. Não tão bem nos momentos de lirismo digitalizado (ao estilo das manas CocoRosie) em que Enya se sobrepõe a Mariah Carey, no limiar do “kitsch” televisivo, como em “Symphonia IX (My Wait Is U)” ou “Nightmusic”. É que a estrutura varia muito de faixa para faixa, da synth-pop à new wave (ou “darkwave”, mais um neologismo instantâneo), e do R&B ao electro e ao leftfield.

Aponta Dungeon Family, Aphex Twin e OutKast como as suas referências ao nível da produção e diz que aborda a música como se fosse Phil Spector, “chamando estrelas pop e forçando-as a fazer todas estas cenas malucas, só que as estrelas são na realidade eu própria” (entrevista recente à Pitchfork). Neste caso, talvez o adjectivo “esquizofrénico” não seja assim tão despropositado. “Visions” é um caleidoscópio de sensações, um caos ordenado (e depurado em estúdio) de influências e linguagens, resultando num todo desigual que tão depressa cativa como repele. Numa sentença: excesso de informação.

Gustavo Sampaio

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