
Edição: Sub Pop CD, LP
Enchantruss
Uma contraluz feminista e espiritual num meio – o hip hop – que se tornou essencialmente machista, violento e materialista: o “gangsta rap” (correntes de ouro, carros “tuning”, calão gratuito, “Fuck Tha Police”) de Ice-T ou N.W.A. trucidou a “daisy age” celebrada por De La Soul ou A Tribe Called Quest. Demasiado maniqueísta, preto e branco, o Bem contra o Mal? As THEESatisfaction – Stasia Irons e Catherine Harris-White – são, desde logo, um casal de lésbicas afro-americanas oriundas de Seattle, entoando versos que abordam questões fracturantes de raça, género e classe social.
Não propriamente canções de protesto, à Ursula Rucker ou Public Enemy, mas tomando uma perspectiva hedonista (o prazer individualista como escape à tecnocracia da produtividade) e pós-política que vai beber inspiração, sobretudo, à desobediência civil de Henry David Thoreau. Ou seja, mais Martin Luther King Jr. do que Malcolm X.
Após uma série de produções caseiras, sem edição convencional, as THEESatisfaction lançam “awE naturalE” (Sub Pop, 2012), o álbum de estreia na mesma editora (correia de transmissão do grunge de Seattle nos anos 90) que apostou nos Shabazz Palaces de Ishmael Butler. Não por acaso, as THEESatisfaction colaboraram nesse maravilhoso disco que dá pelo título de “Black Up” (Sub Pop, 2011), o primeiro e aclamado LP dos Shabazz Palaces, através da sua vocalização em duas faixas, com destaque para “Swerve… The Reeping of All That Is Worthwhile (Noir Not Withstanding)”.
Aliás, Butler (um dos fundadores dos Digable Planets, referência assumida de Irons e Harris-White) retribui o favor em “awE naturalE”, igualmente com a vocalização em duas faixas: “God” (pérola soul jazz minimalista) e “Enchantruss (desconstrução rítmica sob texturas electrónicas alienígenas). Mais, nota-se a sua influência em alguns elementos de produção, pelo que se depreende que a colaboração entre ambos vai muito para além das vocalizações (em sentido recíproco?).
As auto-proclamadas “queens of the stoned-age” (miúdas como os Odd Future) presenteiam-nos com um disco admirável, trilhando o caminho aberto, em meados do ano passado, pelos Shabazz Palaces: a tentativa de refundação da linguagem hip hop através de uma espécie de retro-futurismo que fusiona a plasticidade e sofisticação electrónicas com as raízes profundas do jazz, da soul e do funk.
Nada que não tivesse sido já profusamente ensaiado por Madlib, o alquimista do corta & cola de “standards” de jazz (replicado por Whitefield Brothers, Strong Arm Steady, entre outros, na Stones Throw), ou desde há muito sugerido nos discos de Anti-Pop Consortium e Sa-Ra Creative Partners (expoentes das novas electrónicas aplicadas ao hip hop). Mas as THEESatisfaction trazem toda uma frescura, energia, desprendimento, sentido lúdico e hedonista (“Whatever you do / Don’t funk with my groove”, repetem em loop na borbulhante “QueenS”) que acabam por soar a algo novo e inusitado. “awE naturalE” contém matéria altamente viciante.
Gustavo Sampaio