
Já aqui falámos várias vezes sobre Trikk, jovem produtor portuense que funde com habilidade as convenções do tecno, house e bass music, membro fundador do arrojado selo Terrain Ahead e última adição ao catálogo da editora londrina ManMakeMusic. Com o surgir de uma nova oportunidade para se dedicar inteiramente à electrónica, Bruno Deodato, 21 anos, fez malas para Londres e é a partir de lá que tem dado passos calculados para a formação daquilo a que já chama de “uma carreira”.
O entusiasmo do produtor é compreensível ao assistirmos à recente vaga de apoio que tem gerado o máxi “Jointly / I Fall Down”, editado pelo recém-formado selo de George FitzGerald, nome sonante para apreciadores de uk garage, mas que também se deixa levar pela onda de hibridização do house. Para além de estarmos sempre atentos às novidades saídas do estúdio de Trikk, quisemos estar à conversa com ele para conhecer melhor a pessoa por detrás das batidas despidas e corpulentas que já começam a fazer correr tinta. Finalmente, em jeito de cereja em cima do bolo, ainda nos ofereceu uma versão alternativa do êxito “Jointly” para stream exclusivo na FACT, que temos estado a ouvir em loop constante. Carreguem no play e vão perceber logo porquê.
Para dar início à conversa começa por contar-nos quem é o Trikk.
Comecei aos 16 anos a entrar na música electrónica ao ouvir tecno. De início era mesmo só tecno, depois é que comecei a descobrir o dubstep e todas essas sonoridades londrinas, da bass britânica e por aí. Na altura ainda não existiam as fusões que há hoje, as coisas estavam bem separadas e na verdade não me interessava muito. Não era bem aquilo que eu queria e sabia fazer. Ao não me interessar tanto por produzir dubstep puro, uk funky e esse tipo de coisas, começo ao mesmo tempo a ouvir muito tecno de Detroit e house de Chicago e a fazer experiências nesses estilos. É aí que começa a nascer o projecto que se veio a chamar Trikk, há coisa de ano e meio. Ao começarem a aparecer aquelas fusões do house com o mundo da bass music comecei a interessar-me mais, a ver novos caminhos para o house, e quis explorar esses híbridos.
O que é que ouviste que te fez despertar para o tecno aos 16 anos? Foi ao começares a sair à noite, foste iniciado por algum amigo?
Lembro-me de começar a ouvir um produtor que é o Rick Wade, que ouvia vezes e vezes sem conta a ver se conseguia aprender alguma coisa dali. Nessa altura eu estudava num colégio e o pessoal não conhecia nem se interessava por música electrónica, muito menos deste tipo. Não me lembro muito bem qual terá sido a primeira faixa que descobri, mas a partir desse tema e artista comecei a pesquisar e a conhecer mais sobre o tecno, mas foi sempre sozinho. Aliás, comecei tudo sozinho: a produzir e a conhecer a electrónica. Só numa fase posterior é que comecei a travar conhecimento com pessoas que ouviam este tipo de música.
Antes da electrónica ouvias o quê?
Rádio (risos). Eu gostava de música, mas só com a electrónica é que comecei a interessar-me mais. Nunca quis tocar um instrumento numa banda nem nada disso. A primeira vez que me interessei por fazer música foi ao descobrir a electrónica.
Começaste logo a fazer batidas nessa altura?
Sim, mas nunca saiu nada de jeito. Nunca terminava as coisas que começava, nada passava de um minuto e tal, nem sequer sabia exportar os projectos. Aliás, quando comecei nem foi com o Ableton nem com nenhum software de produção, foi com o Virtual DJ, um programa para tocar discos. Por exemplo, pegava numa música que começava só com uma batida de bombo e tarola. Pegava nessa parte, gravava, ia buscar ao Ambiente de Trabalho e voltava a pôr no programa, onde sobrepunha com outra parte de outra música que combinasse. Basicamente colava loops de músicas que encontrava, que tinha que gravar em tempo real.
Depois de uns anos a fazer batidas sozinho em casa, acabas por conhecer uma série de produtores do Porto com quem colaboraste na criação da Terrain Ahead. Como se deu essa aproximação?
Eu estudei durante sete anos num colégio em Rio Tinto, mas quando era mais miúdo – com uns sete ou oito anos – vivi em Paços de Ferreira. Por acaso é engraçado, porque soube que o IVVVO [co-fundador da Terrain Ahead, com quem criou o projecto Baliac] também viveu em Paços de Ferreira e em Rio Tinto nas mesmas alturas que eu, mas sempre sem nos conhecermos. Em 2010 fui estudar para o Porto, para um curso de Técnico de Som, e ele estava na mesma escola que eu. Conhecemo-nos aí, começámos a mostrar as nossas produções um ao outro e chegámos a fazer umas coisas juntos. Antes dele acho que nunca tinha falado de electrónica a sério com ninguém. Depois de umas experiências acabámos por criar Baliac, que foi a primeira colaboração que se tornou pública.
Desde o momento em que começaram a dedicar-se mais seriamente à música até fundar a editora, o que aconteceu?
Foi um passo grande, mas ao mesmo tempo foi tudo muito rápido. Quando o IVVVO foi expulso da escola em que estudávamos por faltar às aulas, encontrávamo-nos de vez em quando para colaborar em projectos como Baliac. Uma desses vezes ele contou-me que o PURPLE e o Tiago estavam com ideias de fundar uma editora, que seria uma coisa muito restrita, sem pessoal de fora, baseada num grupo de amigos que faziam música com uma certa estética definida. Foi algo natural, sem pensar muito nisso.
A Terrain Ahead acabou por ser a tua (e vossa) plataforma de lançamento.
Sim, até porque coincidiu mais ou menos com a criação do projecto Trikk. Mas atenção: não fundei a Terrain Ahead, apenas estive sempre presente, a acompanhar o processo e a ajudar no que fosse preciso.

Apesar do Porto ser um terreno muito fértil para linguagens electrónicas menos convencionais, não se via ninguém a representar esta faceta mais abstracta do universo da electrónica de clube. A Terrain Ahead nasceu para preencher este vazio?
De certa forma sim. Pensámos um pouco em que devíamos estar a mostrar melhor música às pessoas do que aquela que é geralmente consumida. Olhámos também para Lisboa e perguntámos porque é que não existia nada do género, uma editora de música diferente, sem medo de arriscar. O PURPLE e o Tiago não se interessavam minimamente que a música não fosse ouvida ou que não tivessem público, queriam era fazer e mostrar música. Acho que este é o espírito. Quando as pessoas têm medo acabam por não arriscar e desistir. O conceito da editora foi o contrário disso: não queríamos saber se as pessoas gostavam ou não, se formos só os quatro a ouvir então que seja. Se quiser fazer uma música com um minuto de silêncio, então faço.
Sem restrições.
Sim, sem medo nenhum. Às vezes as pessoas só fazem as coisas para ter algum tipo de notoriedade, ter os outros a dizer que está fixe ou tentar chegar a algum lado com isso. A editora não foi feita com o propósito de chegar a lado nenhum, foi simplesmente um colectivo de gente que se conhecia a juntar-se para oferecer temas para download gratuito. Os downloads gratuitos também foram uma parte importante do conceito, já que podes sempre vender os temas por preços mínimos no Bandcamp.
E depois do aparecimento da Terrain Ahead e da afirmação de estilos como o dubstep e variantes na noite do Porto e de Lisboa, como vês o actual panorama da noite portuguesa?
Ao princípio, quando isto começou a criar algum hype no Porto, parecia haver alguma mudança. Lembro-me de um rapaz e uma rapariga que, apesar de terem aspecto de frequentarem as festas de maximal, estavam em todas as festas da Terrain Ahead do princípio ao fim. Dava para ver que eram pessoas que vinham de outro estilo mas que abriram um bocado a mente e passaram a apreciar coisas diferentes.
Sentias que o público deixava de estar tão restrito a um certo estilo de música?
Sim, isso acho que mudou bastante. Por exemplo, se num grupo de amigos que sempre ouviram drum & bass um deles começasse a ouvir house, então ia ser gozado. Há estilos muito fanáticos. O drum & bass era muito fanático e agora o dubstep também, principalmente aquilo que chamam de brostep, do Skrillex e esses. O maximal também era muito fanático, era só aquela cena francesa que interessava. Agora acho que algo mudou e as coisas estão melhor distribuídas. No entanto, isto não quer dizer que as pessoas já estejam muito receptivas. Depende muito do hype: se tiveres amigos a gostar de algum estilo, então é possível que fiques a gostar também.
Depois da tua estreia na Terrain Ahead lançaste o “Late Night EP” pela editora berlinense Spagat Music. Como surgiu esta ligação?
Isso surgiu depois do Eric D. Clark, um grande nome do house, ter ido tocar ao Porto no Plano B. Antes da actuação decidiram fazer uma espécie de masterclass com ele, e como me dou bem com o pessoal do Plano B convidaram-me para ir assistir, juntamente com o Pedro Chamorra dos Voxels e mais uns quantos. Mostrei-lhe alguns temas, ele gostou, levou-os consigo para a Alemanha e lá mostrou aos tipos da Spagat. Eles gostaram, contactaram-me e assinámos os temas.
E daí para o lançamento de “Jointly/I Fall Down” na londrina ManMakeMusic?
Antes disso cheguei a lançar ainda outro EP na Spagat, o “East End”, e ia enviando demos a mais editoras sem que ninguém me respondesse. Um dia vou ao Soundcloud e vejo que tenho lá uma mensagem do George FitzGerald [produtor e DJ londrino, fundador da editora ManMakeMusic] a pedir que o contactasse rapidamente porque tinha gostado muito dos temas. Foi uma surpresa muito agradável, como é óbvio. A editora dele está agora a arrancar e eu estou ainda a começar, é uma oportunidade óptima.
Foi nesta altura que decidiste ir viver para Londres?
Na altura em que começámos a falar já tinha vontade de viver em Londres, mas ainda não tinha nada programado. Finalmente decidi vir para cá, cheguei numa sexta-feira e domingo já estava a fazer uma sessão fotográfica com o pessoal todo da editora. Até agora tem corrido tudo muito bem, tenho tido muito bom feedback, sinto que as pessoas se interessam. Estou a ter contactos de editoras, promotoras, agentes, blogues. Essa parte está a correr bem, mas agora o mais importante é construir uma vida aqui sem contar com a música, porque a música ainda não me dá dinheiro nenhum. É normal quando vens viver para um país novo, sabes que tens de passar sempre por algumas dificuldades nesta fase inicial.
Ainda assim tem corrido tudo bem. O George FitzGerald tem sido o meu ‘pai’ na música aqui, quase como um agente que não é agente. Por exemplo, se quiseres enviar uma demo à Hotflush [editora fundada pelo DJ e produtor Scuba] nem sequer a ouvem, mas como ele os conhece vai entregar em mão e facilita muito esse processo. Também entregou uma demo à AUS Music, portanto não podia estar mais satisfeito com este começo. Aqui é bastante diferente porque as pessoas gostam, ouvem e ajudam-se.
Sentes que aí é mais fácil ou mais difícil para um produtor se afirmar?
Bom, aqui tens oportunidades. Aí não há muitas, só se fores dono disto ou tiveres o teu cunhado a tomar conta daquilo. Claro que aqui também há bastante disso, mas pelo menos tens capacidade de agir, existe uma indústria. Londres também é um sítio difícil, mas por razões diferentes. Aqui há muita criatividade junta, mas não precisas de ser melhor que o outro para te afirmares. Há muita gente melhor que eu que nunca saiu do quarto e possivelmente nunca vai sair. Depende de muita coisa, do estilo de música, da sorte, de quem é que pega em ti, mas sempre podes tentar. Em Portugal por mais que tentes nunca vais a lado nenhum. Podes ter aquele bocadinho de hype matinal, mas ninguém vai pegar em ti na mesma. Fazem like na tua música no Facebook e fica por aí.
Sentes que estás a ter esse hype?
Não acho que seja bem um hype. Vejo pelos comentários e pela actividade nas redes sociais que as pessoas começam a interessar-se pela minha música, mas não lhe chamaria hype. Isso é sempre bem-vindo, mas também acaba rápido. Daqui a uns bons meses, um ano e tal, quando já tiver lançado mais material em editoras porreiras, aí sim, que venha o hype.
O projecto Baliac, a tua colaboração com o IVVVO, continua?
Sim, continua. Não temos é tido muito tempo para trabalhar a sério nisso, e também por Internet é um bocado difícil. O projecto estava a mudar bastante, a ficar mais físico e meio uk funky, mas agora não temos tempo para trabalhar em nada. Para já vai ficar um bocado parado mas hão-de vir coisas novas, possivelmente um EP na Terrain Ahead, uma coisa escura.
Então no que é que vais estar a trabalhar nos próximos tempos?
Quando entras na ManMakeMusic não te querem para fazer só um EP, querem que faças vários. Por isso vou lançar outro EP por eles e já andamos a escolher as faixas. Depois vou estar todos os dias a tentar lançar um EP na Hotflush e noutras editoras de referência, tentar tocar mais regularmente, continuar a enviar demos e aparecer na FACT inglesa também (risos).
Entrevista: João Pedro Silva
Fotografia: João Retorta