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Sónar São Paulo 2012: Diversões Eletrônicas

E o bonde do Sónar São Paulo passou. Quem pegou, pegou, quem não pegou… Durante os dias 11 e 12 de maio, no Anhembi, o festival catalão, especializado em “música avançada e ‘new media art’”, aterrisou pela segunda vez em terras brasileiras — a primeira vez, em 2004, o evento se chamava Sónarsound. Além da vasta seleção de artistas, distribuídos por três palcos (SónarHall, SónarVillage e SónarClub), foram apresentados filmes e documentários (SónarCinema), além de palestras acerca de softwares e produtos que promovem a interação da tecnologia do presente com as artes em geral (SónarPro). Um panorama rico e abrangente que englobou as diversas tendências e relações entre aparatos eletrônicos, cultura digital e online, experimentação estética, audiovisual, business e, sobretudo, música.

Muita música, diga-se de passagem. Tanta música que foi impossível assistir a todos os artistas que gostaríamos, dada a sobreposição de horários. Foi necessário, então, que os espectadores traçassem seu próprio itinerário, selecionando os artistas que mais lhes apeteciam ou suscitavam curiosidade. Durante dois dias de programação intensa, muitas vezes tendo que escolher entre a cruz e a caldeirinha (Doom ou Kraftwerk? Cut Chemist ou Hudson Mohawke?), percorri as distâncias kilométricas do Anhembi, entre a praça de alimentação e a sala de imprensa, encontrando amigos, travando contatos, fazendo amizades, e, sobretudo, usufruindo as apresentações. Maratona exaustiva e prazerosa, sem dúvida. Mas como dar conta de uma cobertura jornalística convencional, “objetiva” e impessoal, diante de uma sucessão de experiências musicais sem precedentes?

Assim, preferi assimilar a proposta do evento e relatar minha própria experiência durante as quase 20 horas que passei dentro do Sónar. De tal forma que apresentarei ao leitor um recorte pessoal do festival, em duas partes, obedecendo a uma regra básica: abordo apenas as apresentações de artistas que de fato assisti, inteira ou parcialmente, além de algumas impressões relativas ao conceito e à organização do evento como um todo.

Curadoria

Consideravelmente maior que o Sónarsound, em termos de programação e dimensão espacial, o Sónar São Paulo foi aparentemente um sucesso de público, talvez amparado por nomes como Justice, Kraftwerk e James Blake, mas que também rendeu situações positivamente inexplicáveis — como o SónarHall lotado para assistir ao belíssimo concerto de Alva Noto e Ryuichi Sakamoto. Não imagino, portanto, de que forma se poderia estabelecer um termo de comparação capaz de avaliar o evento no Brasil, sobretudo do ponto de vista das opções estéticas. À exceção do finado Free Jazz Festival, que encerrou suas atividades em 2009 rebatizado como Tim Festival, o Festival Multiplicidades, o Novas Frequências, que levou Andy Stott e Sun Araw ao Rio de Janeiro, e algumas das programações do SESC paulista, poucos foram os investimentos dedicados à chamada “música avançada” e à “new media art”.

Há que se destacar a ousadia da escalação brasileira, que não só apostou no eletromelody, como também em Emicida, no mosaico do Pazes, na música muito particular do Zé Rolé, mais conhecido como Psilosamples e em Djs como Bruno Belluomini e Dago Donato; a seara do drone e da ambient muito bem representada pelo KTL de Peter Rehberg e Stephen O’Malley e pela dupla Alva Noto/Sakamoto; as “batidas críticas” e o dubstep com Hudson Mohawke, Rustie e Flying Lotus; a experimentação particular de Four Tet, Za! e Squarepusher; as leituras techno encetadas por Ricardo Donoso e Gui Boratto; o pop de James Blake, Cee Lo e Justice e a cartada final: Kraftwerk substituindo Björk.

Em relação à diversidade dos artistas escalados, fica evidente que o conceito de “música avançada” se refere a um certo equilíbrio entre as correntes da música eletrônica e experimental, elaborada a partir da década de 70, excluindo-se os trabalhos inscritos na seara da“musique contemporaine” — como, por exemplo, aqueles artistas que travam um diálogo restrito com a cultura pop, como a francesa Eliane Radigue (homenageada em Londres com uma suntuosa mostra comemorativa pelos seus 80 anos), o francês Raphael Cëndo, o ensemble Zeitkratzer e o percussionista português Pedro Carneiro, que também operam nas fronteiras do som, da técnica e da tecnologia.

Esta música mais sisuda parece ficar de fora, apesar de marcar presença no Sónar Bacelona de 2011 (com Steve Reich) e de 2012 (com Masaki Batoh). Vale notar também o contraste entre a música eletrônica dos anos 70 e 90, através do Kraftwerk e do drum’n’bass de Marky e Patife, e a ausência de artistas representativos de dois estilos de última hora: o juke norte-americano e o shangaan sulafricano, que fariam boa companhia ao colorido frenesi do eletromelody da Gang do Eletro.

Trata-se, portanto, não de uma visão total ou de um conjunto amplo e irrestrito de vertentes, mas de um recorte específico, que tende a dialogar sobremaneira com as pistas de dança, através de gêneros como o dubstep e o techno, mas também com tendências que, sabe-se lá porque, se afirmaram nas últimas duas décadas, mais precisamente a ambient, o drone e a música de improviso. As opções da curadoria, portanto, resultam em um equilíbrio bem sucedido entre as tendências assinaladas, conjurando o avassalador KTL com o gospeltronic de James Blake, as guitarras estridentes do Mogwai com o “maximalismo” inquieto de Rustie, a miríade techno do Four Tet com Doom e suas experiências particulares com o rap…

Organização, sugestões

De um ponto de vista geral, a organização do festival foi satisfatória: som de qualidade na maioria das apresentações (deficitário apenas em algumas das apresentações no palco SónarHall, sobretudo a do SILVA e a do Za!); arsenal de iluminação e aparatos técnicos aparentemente corretos. Nas apresentações mais concorridas, os espaços de trânsito ficavam relativamente lotados, mas o fluxo se normalizava conforme a plateia se dirigia a outros palcos. Os atrasos foram mínimos, corrigidos a tempo e sincronizados de forma a não prejudicar as atrações nos outros palcos. As filas para compra de fichas e banheiro escoavam com relativa rapidez, e a alimentação me pareceu satisfatória, embora cara para os padrões brasileiros.

Já entre os itens que deixaram a desejar, destaco a sinalização precária, aspecto fundamental em qualquer evento com dimensões monumentais — basta dizer que não havia identificação com o nome dos palcos. Um outro item problemático foram os horários da programação do SonarPro, que coincidiram com alguns shows. E, o mais estranho: a ausência de uma barraquinha com os produtos e merchandising dos artistas. Quem levou aquele dinheirinho guardado para gastar em CDs, vinis, posters e camisetas, ficou a ver navios…

SÓNAR SÃO PAULO 2012_11/05 (PRIMEIRO DIA)

Za! (Live, SónarHall)

A dupla de Barcelona, formada pelo guitarrista headbanger Spazzfrica Ehd e o baterista doidivanas Papa Dupau, promoveu uma verdadeira arruaça na apresentação que abriu os trabalhos no palco SónarHall. Multiinstrumentistas e virtuoses em seus respectivos instrumentos (guitarra, bateria, trumpete, percussão, etc.), Ehd e Dupau percorreram não só diversas colorações do jazz, do metal, do improv e de batucadas próximas da música oriental e africana, como também o próprio espaço. A dupla se lançou em direção à plateia, causando comoção, muito embora poucos fossem os presentes. O baterista chegou a sair do próprio “hall”, batucando no chão, nas cadeiras, no corrimão das escadas e em tudo o que via pela frente. Apresentação frenética e empolgante de uma dupla ainda desconhecida pelas bandas de cá.

Ricardo Donoso (Live, SónarHall)

Radicado nos EUA, expoente da cena de Boston, o brasileiro Ricardo Donoso está envolvido em projetos bastante diferentes entre si. Essa diversidade, no entanto, deixa transparecer seu interesse pela música concreta, pelos sintetizadores, pelo noise e demais ruídos, presentes tanto no drone do Perispirit, como no metal do Ehnahre. Em apresentação solo no SónarHall, Donoso lançou mão de algumas faixas de seu último trabalho, Progress Chance, cuja sonoridade remete a uma espécie de minimal deprovido de batidas, constituído apenas por sequências melódicas que se desencadeam pouco a pouco. Um set concentrado e austero, repleto de bons momentos.

James Blake (DJ, SónarClub)

Pode parecer estranho que um só indivíduo tenha sustentado como DJ o maior dos palcos do festival, precedendo o Kraftwerk, uma das apresentações mais aguardadas. O problema é que esse indivíduo se chama James Blake, que com suas canções saturadas por um sentimentalismo R&B (que se pretende “spiritual”), introduziu as sonoridades graves e estridentes do dubstep, conquistando o coração dos ravers e emos em todo mundo. Como DJ, Blake destila a sua verve romântica, perceptível tanto como compositor quanto como produtor, mas vai além dela. Ele se arrisca corajosamente logo na introdução, com uma sequência lenta e melancólica, até desembocar em bons remixes para “Etched Headplate” (Burial) e “Get Up” (Pinch). Dentre as suas próprias produções, Blake escolheu “Klavierwerke” (se não me engano), mas deixou de fora duas de suas melhores faixas, oriundas do período pré-baladeiro: “CMYK” e “The Bells Sketch”.

Kraftwerk (Live 3D, SónarClub)

Os quatro alemães mais queridos do planeta começaram dando um susto na plateia: a sequência inicial sugeriu que eles tocariam o disco The Man Machine na íntegra, tal como fizeram com toda a sua obra no MOMA, durante a mostra Retrospective 1 2 3 4 5 6 7 8, mês passado. “The Robots”, “Spacelab”, “Metropolis” e “The Man Machine” foram acompanhadas por imagens em 3D, que provocaram gritos histéricos na plateia — particularmente em “Spacelab”, quando um satélite rumou em nossa direção, dando a nítida impressão de que iria colidir. Mas a surpresa seria ainda maior, pois seguiram-se “Numbers”, “Computerworld”, “Autobahn”, “Tour de France”, “Aerodynamyk” e “Boing Boom Tschak”, acompanhadas por seus respectivos aparatos visuais. Surpreendente foi a inclusão de “It’s More Fun to Compute”, acompanhada de um mosaico visual pixelado e colorido. Cultura pop, tecnologia, ritmo contagiante, relação homem-máquina, política: o Kraftwerk será sempre atração principal em qualquer festival do mundo, independente do enfoque ou da abordagem.

PS – E eis que ocorreu a primeira “tragédia” da noite: como o Kraftwerk fazia um dos melhores shows do festival, não consegui me desvencilhar a tempo de assistir nem a um segundo de um outro show que gostaria muito de presenciar: Doom. Paciência.

Hudson Mohawke (DJ, SónarClub)

“New Edition on ecstasy”: foi assim que caímos todos na lábia de um cara simpático chamado Hudson Mohawke — HudMo para os íntimos. A referência ao “moicano” me lembrou Neymar, com sua ginga e dribles desconcertantes, condizente com as escolhas de seu DJ set. Misturando faixas próprias e remixes, Mohawke demonstrou a jovialidade dançante de seu som, carregado de referências ao R&B e aos videogames, porém, mesclado a uma sonoridade estridente e maliciosa. Não sou grande fã de sua estreia discográfica, Butter, de 2009, mas é inegável que algumas de suas faixas cresceram ao vivo.

Emicida (Live, SónarVillage)

Ontem à noite, terminamos o dia com a notícia constrangedora e revoltante de que Emicida fora detido e autuado em flagrante durante um show na cidade de Belo Horizonte, Minas Geraes, por “desacato a autoridade”. Consta que o artista teria incorrido neste crime ao entoar a música “Dedo na Ferida”, estendendo o dedo médio a todos os políticos do Brasil. Ora, seria cômico se não fosse trágico. Fontes dão conta de que o rapper usou o tema da canção — os “políticos corruptos” — para fazer alusão à remoção violenta de famílias sem-teto na última sexta-feira por obra da prefeitura local. Dois dias antes, Emicida estava no Sónar, fazendo o mesmo gesto que o incriminou em Belo Horizonte, acompanhado pela plateia que assistia à sua ótima apresentação no SónarVillage. Dotado de um flow peculiar e envolvente, talvez o maior rapper de sua geração, Emicida desfilou as produções de suas três mixtapes, prestou homenagem à dupla carioca Claudinho e Buchecha (“Quero Te Encontrar”) e finalizou com “A rua é nóis”. Carisma puro!

DJ Marky vs. DJ Patife (DJ, SónarVillage) / Skream com Sgt Pokes (DJ, SónarClub)

Enquanto o Little Dragon finalizava sua apresentação e o Chromeo apenas começava, optei por alternar o revival do final dos anos 90, com os DJs Marky e Patife, com o set de Skream, um dos expoentes do dubstep “farofa”, que com seu parceiro Benga, arrasta multidões até mesmo nos EUA. Dubstep e drum’n’bass pesados, com muitos “rewinds” e viradas, permitindo aos DJs esbanjarem técnica e precisão, empolgando ambas as audiências. Acompanhados pela plateia que lotou o SónarVillage, Marky e Patife tocaram hits como “Nitrous” (Bad Company) e “Carolina Carol Bela”, armando um circo cheio de virtuosismo, como o leitor pode verificar na foto acima. O estranho é perceber que, apesar de fazerem parte do que há de melhor no drum’n’bass mundial, Marky e Patife se entregaram abertamente ao revivalismo, enquanto Skream, um produtor mediano em relação a seus companheiros como Mala ou Coki, se arriscou em sonoridades mais ousadas — embora tenha finalizado com um recurso apelativo: “Smells Like a Teen Spirit”.

Na sequência, me rendi ao cansaço, deixando de assistir ao Gui Boratto. Infelizmente. O produtor brasileiro entrou para uma longa lista de shows perdidos, que conta com Mogwai, Cut Chemist, Criolo, Modeselektor, James Blake, Justice, Psilosamples e o já citado Doom. Não se pode ter tudo, e já era hora de descansar…

(Continua amanhã!)

Artigo Bernardo Oliveira

Fotografia Mariana Mansur

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  • icsan

    havia barraquinha de merchan sim, ficava no sonar club…

  • Bernardo Oliveira

    Ah sim, mas essa barraquinha tinha somente material do próprio evento (camisetas, chaveiros…). Me refiro aos produtos das bandas, como cds, singles, posters, camisetas, etc.. 

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