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Sónar São Paulo 2012: Diversões Eletrônicas (segundo dia)

Gang do Eletro (LIVE, SonarVillage)

O segundo dia do Sonar SP se iniciou com a vivacidade e os altos BPMs da Gang do Eletro, máximo expoente do chamado eletromelody. Trata-se de uma versão turbinada e agressivamente digital do tecnobrega, idealizado pelo DJ Waldo Squash e pelo cantor e compositor Marcos Maderito. Não parece exagero afirmar que a Gang do Eletro representa uma vertente da música eletrônica brasileira perfeitamente assimilável a outras manifestações como o shangaan, o kuduro e o juke. Jogando de forma inteligente com o pop-romântico e o hip hop, adaptados à forma da canção brega, a Gang do Eletro fez um dos melhores shows que assisti no Sonar, tanto pela presença articulada e enérgica, mas também pela forma desabusada com alternam a batida característica do eletromelody, com diversos gêneros da eletrônica contemporânea. Destaque para a performance da cantora Keila Gentil e para a participação especial da guitarrada do conterrâneo Felipe Cordeiro, cantor e compositor que lançou esse ano o bom álbum Kitsch Pop Cult.

KTL (LIVE, Sonar Hall)

Após o fim da apresentação do Psilosamples (LIVE, Sonar Hall), com sua vertiginosa mistura de samplers e referências pop, e das cantilenas melancólicas do SILVA (LIVE, Sonar Hall), foi a vez de assistir a um dos melhores shows do festival. Peter Rehberg e Stephen O’Malley apresentaram uma experiência única e inigualável : o KTL, projeto de drone eletrônico e noise que a dupla desenvolve desde 2006, certamente um dos shows mais aguardados do festival — pelo menos para aqueles que esperam da música mais do que o acalanto das canções. De um lado, Rehberg, acionando uma variedade assustadora de detritos sonoros com seus computadores, enquanto do outro, Stephen O’Malley, o homem por trás do Khanate, do Sunn O))) e de outros tantos projetos, executando notas e acordes com sua guitarra. A dupla conduz o improviso de forma a culminar em uma cacofonia infernal, aproximando o espectador de outro nível de experiência sonora — como sugeriu O’Malley em entrevista à FACT Magazine PT. Êxtase e controle, regados no vinho, em uma apresentação definitiva.

Alva Noto & Ryuichi Sakamoto (LIVE, Sonar Hall)

Sala lotada, música ambient: havia algo de errado no ar. Errado não, estranho, mas muito, muito positivo. Dificilmente se imaginaria que a colaboração inefável entre Carstein Nicolai, mais conhecido com o Alva Noto, e o lendário Ryuichi Sakamoto pudesse interessar a tanta gente. Mais ainda, que essa multidão fosse respeitar o silêncio necessário para que a música soasse em todos os seus detalhes. Pois assim se deu: malgrado alguns poucos momentos, a apresentação transcorreu sob uma clima de absoluta atenção e concentração, interrompidos apenas por aplausos efusivos. O palco é de uma elegância hipnótica, tomado pelo piano multimicrofonado de Sakamoto e pela mesa de aparelhagens de Nicolai. Ao fundo, uma faixa de LED exibe grafismos em diálogo com as melodias e ruídos que constituem as faixas de Summvs, lançado pela dupla no ano passado. Ao fim da apresentação, somos tomados pela sensação de que algo especial se deu naquele lugar, mas que, ao contrário do KTL, contava mais com a presença da racionalidade do que do êxtase.

Rustie (LIVE, SonarVillage)

O produtor de Glasgow, Russell Whyte, mais conhecido como Rustie, foi o grande ponto de interrogação do festival. Responsável por Glass Words, um dos três melhores álbuns do ano passado, segundo a renomada revista Wire, Rustie fez um set extremamente instável. Alguns odiaram sua hiperatividade, os momentos “farofa”, os riffs de guitarra, as viradas de bateria, a descontinuidade radical entrecortada por batidas estranhas, timbres intoleráveis e desleixo punk na execução. Para muitos, esse arsenal imprevidente resultou em uma experiência decepcionante, mas confesso que, para mim, Rustie oscilou entre o irritante e o fascinante. Algumas pessoas chegavam às gargalhadas por não conseguirem dançar, tantas eram as viradas e mudanças de clima, andamento, batida, etc. No início, ele parecia ter se perdido, mas aos poucos percebemos que não foi bem assim: instabilidade e descontinuidade são próprios do seu temperamento, que comporta uma variedade insana de estilos e possibilidades. Aos poucos fui percebendo que tudo aquilo era produto da sua mente igualmente insana. Certamente um dos momentos mais estranhos de um festival que pretende justamente explorar “a borda”…

Flying Lotus (LIVE, SonarVillage)

…justamente o que não podemos dizer de Flying Lotus! Eis um artista que consegue conciliar batidas quebradas, ruídos e dissonâncias de forma palatável, em uma estética rigorosamente identificada ao hip hop. Resultado: agradou até a quem não queria. Músicas do novo álbum (“new album shit”), clássicos de Los Angeles (“Melt” e “Camel”), uma seleção matadora de citações que passaram por Dilla, Eryka Badu, Tyler The Creator, Portishead, Radiohead, Diplo, entre outros. O fato é que FlyLo conseguiu empolgar a plateia com seu balanço performático, como se batucasse sobre as máquinas, investindo também naquele protocolo muito comum entre rappers americanos como “Jay-Z”, aproximando-se à beira do palco para apontar um a um, “I see you, and you, and you…” Carisma que fez de sua apresentação uma das mais ovacionadas de todos o festival.

Four Tet (LIVE, SonarVillage)

O Four Tet começou desprovido de um público à sua altura. Poucos eram os presentes no SonarVillage enquanto Kieran Hebden acionava os primeiros botões. Porém, aos poucos, o público foi tomando o espaço, egresso talvez da apresentação de James Blake ou do Justice, enquanto Hebden lançava uma caixa, um bumbo, uma linha de baixo, um synth, um efeito, percussões: nitidamente tratava-se de uma construção improvisada, talvez a partir de elementos do EP Ringer (Domino, 2008), mas não se pode ter certeza, pois nada resiste ao seu ímpeto desconstrutor e improvisador. A plateia, sensível às viradas e ao suingue, gritava e aplaudia este artista capaz de aliar um senso extraordinário de construção durante a improvisação com a sensibilidade para conduzir a pista de dança. Aos poucos, Hebden foi substituindo o olhar desconfiado por um sorriso tímido, até presentear o público com o final apoteótico: “Love Cry” consumou uma apresentação rigorosa e empolgante.

Squarepusher (LIVE, SonarHall)

Com o corpo moído, me dirigi ao SonarHall para acompanhar a última experiência do festival: o aguardado espetáculo multimídia montado por Tom “Squarepusher” Jenkinson. Ora, quem viveu a década de 90 com ouvidos abertos tem uma dívida de gratidão para com este indivíduo, sobretudo por conta de seus dois primeiros discos, Feed Me Weird Things e Hard Normal Daddy. Representante do breakcore e do drill’n’bass, ele formava com The Orb, Aphex Twin, Theo Parrish, Fabio, Goldie, entre outros, um time de experimentadores que ressoam até hoje na verve da juventude ligada à música eletrônica. Já sabíamos que o trabalho de Squarepusher tinha retomado algumas experiências mais radicais do que as que marcaram a última década do artista, o que parecia um bom sinal. Mas o que se viu no palco me parece difícil de definir até agora:  uma pletora de LEDs em branco e preto, tanto no fundo, como na bancada adiante do artista e em seu capacete, ritmos radicais em um volume extremamente alto. Pois bem, minha já combalida condição física sofreu um verdadeiro massacre de som, luz, ritmo e volume. Jenkinson agradeceu ao público, encerrando a apresentação. Então, me levantei, cumprimentei alguns amigos que estavam por perto e desejei de verdade que um festival como o Sonar pudesse acontecer todo ano no Brasil.

Artigo Bernardo Oliveira
Fotografia Mariana Mansur

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