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Traxman: Da Mind Of Traxman

Edição: Planet Mu 2×12”


Chilllll

O footwork de Chicago é um sucedâneo do krumping de Los Angeles. Linguagem suburbana, dança de rua, batalha teatral (e de índole tribal) entre “breakdancers” que se movimentam ao som e ritmo de breakbeats, rimas e demais samples (ou “Beats, Rhymes and Life”, título certeiro por A Tribe Called Quest). Mas não é tanto de hip hop que se trata, muito menos a “daisy age” do género. Ao passo que o krumping estilhaçou as fronteiras do hip hop, por sua vez o footwork deriva da cena house de Chicago, aliás do subgénero ghetto house, mais ácido, físico e minimal (ou rudimentar, no que respeita ao equipamento utilizado e à sofisticação da produção).

A editora britânica Planet Mu tem explorado este filão, com destaque para os dois volumes da série “Bangs & Works” (2010 e 2011), seguindo-se o primeiro LP de DJ Diamond, “Flight Muzik” (2011). Fonte de inspiração para produtores britânicos, nomeadamente Kuedo (Planet Mu) e Addison Groove (Fifty Weapons), jovens expoentes da bass music que utilizam o footwork como mais um ingrediente de fusão. Ou para produtores norte-americanos como Starkey (Planet Mu), Machinedrum (Planet Mu), Sepalcure (Hotflush) e respectivas derivações estilísticas. Ainda a ressaca do dubstep (o movimento centrífugo da fragmentação) a gerar novos trilhos criativos.

Traxman (Cornelius Ferguson) não é propriamente um novato, mas um dos mais respeitados artífices do footwork de Chicago, a par de DJ Rashad, DJ Diamond ou DJ Roc, desde os tempos primordiais do juke (uma versão pioneira do footwork, baseada num processo de aceleração rítmica do ghetto house). Trata-se, aliás, de um dos fundadores do lendário colectivo Geto DJ’z, prolíficos divulgadores dos subgéneros da cena house de Chicago, com epicentro nas zonas Sul e Oeste da “cidade ventosa”. Após décadas na sombra, por entre colaborações, DJ sets e remisturas, Traxman lança finalmente um LP em nome próprio, com o selo da Planet Mu.

“Da Mind Of Traxman” é um disco admirável, através do qual sobressai o conhecimento enciclopédico de Traxman sobre um género que domina melhor do que ninguém. São 18 faixas de puro deleite sensorial, com um pé no passado (nos clássicos old-school) e outro num presente pautado pelo diálogo entre as linhagens originais e as potencialidades futuras. Do ghetto house ao juke e ao footwork, passando pelo deep house, acid house, funk, soul, jazz, bass music, glitch, até ao techno da vizinha e rival Detroit. Ritmos quebrados, camadas sobre camadas de samplagens, disrupções abruptas entre as faixas e a sensação de urgência em compactar tudo o que de melhor se sabe logo na primeira obra (só que da autoria de um veterano que teve tempo para filtrar e processar a informação recolhida ao longo de décadas de experiência). Respeito.

Gustavo Sampaio

 

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