
Edição: Post World Industries CD, digital
“Apenas os pensamentos andados têm valor”. Estamos diante de um álbum viajado, andado, respirado… Um disco que põe em xeque os próprios motivos de uma crítica musical. Por que fixá-lo, disseca-lo em palavras? O que uma visão crítica poderia acrescentar-lhe? Se o leitor carece de impulso, que o tome destas palavras: simplesmente ouça. Se não lhe servir, paciência. Somente a experiência, neste caso, pode ajudar. Quilombo do Futuro não é um disco perfeito, ainda que seus deslizes e excessos exalem uma ambientação cultural e sonora no mínimo instigante. Em todo caso, não me sinto à vontade para uma crítica, escrevo o que me veio à cabeça durante sua audição.
Atire a primeira pedra o cidadão que jamais lidou em seu próprio país com a “questão nacional”, perguntando-se e, eventualmente, debatendo-se com assuntos relativos aos conflitos entre nação e cultura. Quem somos nós? Filhos da pátria, da comunidade local, do hábito? Produto do “local” e do “global”? E o que isso significa precisamente? Por mais que o caráter fictício dessas questões seja, forçosamente, reflexo da constituição do estado moderno, que obteve do colonialismo europeu seu impulso propagador universal, é inevitável a percepção de que tenha adquirido um aspecto múltiplo, moldado conforme os mais diversos aspectos, desde conflitos territoriais até contextos econômicos, passando por traços culturais e outros fatores.
No Brasil, a máscara do pensamento colonizado começa a cair no início do século passado, quando o problema da “identidade nacional” passou a ser debatido com método e pesquisa nos meios intelectuais. Surgem, então, tendências críticas que marcariam a discussão sobre o país durante todo o século XX, das quais podemos identificar pelo menos duas, de certa forma alinhadas ao Modernismo: uma que buscava interiorizar-se nas manifestações culturais próprias do que costumamos chamar “folclore”; e outras, apregoando que o Brasil seria um país essencialmente “antropofágico”, isto é, que se constituiria a partir da deglutição da cultura alheia, transformando-a em sua própria. Referente a dois ângulos complementares, plenamente compatíveis com a história do país, esta polêmica se prolonga no debate cultural brasileiro até os dias de hoje, capaz até de reavivar antigas querelas, como a de Caetano Veloso e Roberto Schwarz.
No filme Tenda dos Milagres, Nelson Pereira dos Santos se baseou na obra de Jorge Amado para aprofundar um tema comum no debate descrito acima: a denúncia e a crítica do do artista e do intelectual colonizado, que ao rebaixar a cultural local em favor da europeia, busca sua própria autoafirmação. Ao narrar a história de um alemão que chega ao Brasil para pesquisar a vida fictícia de Pedro Archanjo, importante antropólogo e pensador baiano, desconhecido da maioria dos brasileiros, Santos enfoca o aspecto ridículo deste sentimento de menoridade, cujo pior efeito é a própria ignorância. Reproduzindo-se o desejo íntimo e escancarado de ser “europeu” ou “americano”, desconheceríamos a riqueza e a dinâmica própria dos muitos “países” (e culturas) que habitam o Brasil.
É evidente que essa situação mudou e muito nas últimas décadas, embora perdurem muitos de seus traços mais terríveis. Permitam-me ressaltar o estranho fato de que o brasilianista americano Thomas Skidmore foi o primeiro a ressaltar criticamente a questão racial durante o período que cobre a primeira metade do século passado até o golpe militar de 1964, desavisadamente esquecida em grande parte do debate político e cultural brasileiro. A questão racial durante o tropicalismo, também foi exclusivamente analisada pelo professor norte-americano Christopher Dunn em seu livro “Brutalidade Jardim: A Tropicália e o Surgimento da Contracultura Brasileira”. Por fim, diante da decisão do Supremo Tribunal Federal em favor da adoção de cotas para negros nas universidades brasileiras, tivemos a oportunidade de topar com opiniões convictas de que não há absolutamente racismo por essas terras. Ainda vale o que é dito em uma canção de Aldir Blanc, na voz de Elis Regina: “O Brasil, não conhece o Brasil…”
Este longo preâmbulo pretende identificar um problema, cujo antídoto parece se alastrar sobre o Quilombo do Futuro de Maga Bo: a relativa inversão de uma determinada situação cultural. Sim, é inegável que ainda padecemos de um certo prejuízo moral em ser “colônia”, presente no discurso de uma classe média possuída por miragens do american way of life e dos benefícios do welfare state. Mas é igualmente inegável que esta situação vem mudando e tomando nuances imprevisíveis — e não somente pelo fato simplório de que agora são europeus e norte-americanos os maiores interessados em ritmos africanos e latino-americanos, mas, sobretudo, porque muitos deles são conscienciosamente introduzidos em artes e ritos como a capoeira, o candomblé, a escola de samba, o baile funk, a umbanda, etc. E pensar que há pouquíssimo tempo, essas práticas eram criminalizadas e discriminadas pelos governos e elites locais… Por outro lado, não se pode negar que entre o roqueiro que cultiva somente o gosto pela música anglosaxã, e o funkeiro que transforma o “miami bass” em “baile funk” há no mínimo uma semelhança: a maneira livre e selvagem, sem grandes culpas e dilemas ideológicos, com a qual a população lida com os artefatos culturais ditos “estrangeiros”.
Antes de Maga Bo, DJ Dolores e DJ Tudo já operava na seara da reconfiguração do folclore brasileiro, seja pela via do registro, do sampler ou da síntese com ritmos estrangeiros. E antes deles, Chico Science e Nação Zumbi reabilitavam o maracatu misturando-o ao hip hop dos Beastie Boys e do Public Enemy. Quando eu tinha apenas treze anos, no final da década de 80, fui à Recife e assisti a um maracatu. Perguntava, então, à minha mãe: por que eu não nunca ouvi falar disso? Daí, o leitor pode tirar a medida da importância de Chico Science. Não por nos tirar o “véu da ignorância”, mas por saber dar um novo sentido a uma tradição musical centenária, não importando se era “brasileira” ou não. Para Science, e isso ficava muito claro a cada show de seu grupo, o que importava mesmo era a música, que costumava falar mais alto que o “orgulho nacional”. Pois assim se deu, e hoje o maracatu é servido como prato principal, assim como o coco, a embolada, o samba-reggae, o jongo, o baião (que recentemente cruzou fronteiras com a sanfona de Michel Teló) e demais ritmos e gêneros que contaminaram o norte-americano radicado no Rio, Maga Bo.
Quilombo do Futuro possui a característica comum a muitos dos artistas citados, qual seja: superar tais tensões e dicotomias entre nacional e internacional, entre nacional e popular, através de um só e único elemento: a música. Do ponto de vista da sonoridade, o panorama é homogêneo por obra da qualidade técnica e do arrojo da concepção. Desaparece a tensão entre digital e analógico, cada instrumento de percussão, tocado por Maga Bo e por João Hermeto, se integra perfeitamente aos sons eletrônicos, filtros, vozes, configurando um todo orgânico, pesado e consistente. E surgem pérolas como “Rapinbolada”, com a participação do rapper Gaspar, “É da nossa cor”, com a participação do Mestre Camaleão — mestre de capoeira de Maga Bo, que toca um berimbau estridente, processado por algum plugin, “No balanço da canoa”, com Rosângela Macedo, do grupo paulistano Paranapanema, e Marcelo Yuka, ex-O Rappa, o maculelê do funk carioca em “Piloto de Fuga”, com Funkero e Bnegão, e “O Neguinho”, com o rapper-funkeiro Renato Biguli… Nota para a participação do saudoso rapper de Niterói Speed Freaks, na rapercussão de “Drobrado” e do nuyorican soul Jahdan Blakkamoore na fanfarra desvairada de “Maga Traz a Lenha”.
Muito diferente da aproximação cautelosa característica de trabalhos como Rei Momo, Graceland ou até mesmo Getz/Gilberto — que, felizmente, resistiu à roupagem jazzy graças ao gênio de João Gilberto —, Maga Bo parece saber por onde pisa. Pois sua principal virtude é a capacidade de vivificar manifestações musicais circunscritas ao universo antiquário do “folclore” — e isso a partir de um olhar familiar, mas, ainda assim, estrangeiro. Assim, não importa se são ritmos “orgânicos” ou eletrônicos, se são batucadas digitais ou batidas na palma da mão, ainda menos se essas categorias servirem como parâmetro para determinar uma suposta “brasilidade”. Não importa, por fim, se é uma mistura de gêneros e ritmos, brasileiros ou não. Quilombo do Futuro é portador de uma aparente contradição: desconhece fronteiras, mas interage com todas elas. É, como escrevi acima, um trabalho andado, viajado, feito de canto e batucada, máquinas e técnicas, reunidos com o intuito de conduzir a dança, o êxtase, a festa.
Bernardo Oliveira