
Edição: Hyperdub LP
Hype Williams (Dean Blunt e Inga Copeland, nomes inventados) é uma metaficção fragmentada, cujos sucessivos desdobramentos de personalidade impossibilitam uma plena acepção do todo, mas somente das partes que o decompõem. Dean cresceu no bairro londrino de Hackney e vive hoje em Lisboa, ao passo que Inga é originária da Rússia e mudou-se para a Estónia. Reencontram-se para intensas sessões criativas através de voos “low-cost” da Ryanair. Também terão passado uma temporada em Berlim mas queixam-se do tédio de uma capital onde “nada acontece, é o purgatório para pessoas que falharam nos seus próprios países”, em entrevista recente ao “The Guardian”.
Há mais. Dean diz que foi pugilista em Londres, perdedor profissional: “Perder combates de boxe, era essa a minha fonte de rendimento. És pago para perder no ‘wrestling’, e não é diferente no boxe do East End. Fui ao tapete uma porção de vezes”. Quanto a Inga, ao que tudo indica terá prestado provas na equipa de futebol feminina do Arsenal, sem sucesso. Eles que começaram por distribuir a sua música através de canetas USB camufladas em maçãs que vendiam no mercado de Brixton. Para além de serem amigos do rapper nova-iorquino Cam’ron e de aparecerem no enquadramento de uma fotografia do encontro de 1997 entre Tony Blair e Noel Gallagher. E Dean conta ainda que foi apanhado a roubar guaxinins de taxidermistas e que ingressou na Nação do Islão. Entre outros feitos e bizarrias.
Assim mesmo, sem nexo, ou causalidade, peças espalhadas de um puzzle sem solução aparente. “A vida é muito excitante, alguma dessa merda é verdadeira, algumas coisas acontecem realmente”, garante Dean. Mas como destrinçar entre o real e o imaginário? A obscuridade é o seu habitat natural, como aliás pudemos comprovar há exactamente um ano atrás, na actuação ao vivo no Kolovrat 79, em Lisboa. Enquanto tocavam os Niagara, perguntámos a Dean e Inga, na plateia, se os podíamos fotografar. Responderam que não, ressalvando que poderíamos fazê-lo durante o concerto que se seguiria. Só que apagaram as poucas luzes que subsistiam e vaporizaram o sótão quase até ao ponto de não os conseguirmos descortinar aos comandos das caixas de ritmos, sintetizadores, vocoder, samplers, entre outros instrumentos de manipulação sensorial.
Eis o circo alienígena dos Hype Williams, estranhíssimo mas nem por isso menos cativante, algo psicótico mas absolutamente transcendental. Não por acaso, esse concerto em Lisboa terminou abruptamente, por causa de um corte de electricidade. Dean e Inga não quiseram retomar as hostilidades e, pura e simplesmente, começaram a arrumar as malas, de costas voltadas para a audiência que ansiava por mais qualquer coisa. E há mais relatos de acontecimentos estranhos noutras actuações, noutras paragens, pelo que o bizarro e imprevisto, no caso dos autores de “Find Out What Happens When People Stop Being Polite, And Start Gettin Reel” (De Stijl, 2010), tornou-se norma. Ou seja, só devemos estranhar quando algo parece fazer sentido.
Tal como o anúncio de um primeiro disco com o selo da Hyperdub. A editora londrina de Steve Goodman (Kode9), expoente da vanguarda do dubstep que, sobre as ruínas de um género em processo de auto-implosão, procura diversificar a oferta, parecia ser o porto de abrigo ideal para a multiplicidade difusa dos Hype Williams. Previa-se, enfim, a formação de uma identidade, através de um disco com princípio, meio e fim, ou uma narrativa palpável, com uma imagem concreta – “One Nation” (Hippos In Tanks, 2011), talvez o mais consistente dos trabalhos anteriores, adoptava a estética de um “white label” em 12’’ e continha títulos tão imperscrutáveis quanto “Your Girl Smells Chung When She Wears Dior”).
O resultado, “Black Is Beautiful” (Hyperdub, 2012), não surpreende ao desapontar quase todas as expectativas. Desde logo no que toca ao título do álbum, que remete para uma eventual exploração das raízes da música negra que, afinal, não chega a ser, ou pelo menos em pouco ou nada se diferencia dos trabalhos anteriores. Electrónica, downtempo, lo-fi, dub, leftfield e alguns pozinhos de free jazz, soul e funk, mas sobretudo espectros, fragmentos de melodias, vestígios de canções, estruturas sonoras que se desvanecem no impreciso momento em que parecem começar, de algum modo, a materializar-se.
Num disco de 15 faixas em que apenas a primeira é intitulada, “(Venice Dreamway)”, a maior parte com menos de 3 minutos de duração (por entre várias abaixo de 1 minuto e a 9ª faixa a rondar os 10 minutos). Do qual sobressai a obsessão pela não-identidade. Uma cortina de fumo que adensa o mistério. Existirá uma solução para este puzzle em que as peças não parecem encaixar umas nas outras? Ou trata-se de um labirinto sem saída (nem fundo) à Jack Torrance?
Gustavo Sampaio