
Edição: RVNG Intl. CD
O leitor há-de se lembrar: ainda nos primeiros dias deste ano antecipávamos o prelúdio para a promissora colaboração entre os norte-americanos Cameron Stallones (Mr. Sun Araw), M. Geddes Gengras e o lendário grupo vocal jamaicano The Congos. Refiro-me ao 12” “Multiply”/“Earth”, duas faixas exemplares de um gênero batizado pela dupla como “outer orbit dancehall”, com a participação dos toasters jamaicanos Dayone e Early One. Como desdobramento deste 12”, o álbum foi lançado pelo selo RVNG Intl. em Março, como o nono volume da série FRKWYS. A série, dedicada a reunir artistas de gerações diferentes para projetos colaborativos, já rendeu boas convergências entre Julianna Barwick e Ikue Mori, Excepter remixado por Carter Tutti e JG Thirlwell e David Borden com Laurel Halo, James Ferraro, entre outros. Porém, na medida em que vivemos uma época saturada de colaborações, muitas vezes sem resultado efetivo ou razão de ser, vale notar que estamos diante de um dos momentos musicais mais instigantes deste ano. E não me refiro somente à seara do dub e do reggae.
Para começo de conversa, vale enaltecer a forma do trabalho, pois não basta reunir dois grandes artistas sem intuir alguma relação de composição entre eles. Pois, neste caso, a contribuição produziu um efeito positivo em ambas as partes, reforçando e expandindo as características criativas dos envolvidos. De um lado, a formação original do The Congos, com Roydel Johnson (tenor), Cedric Myton (falsete) e Watty Burnett (barítono), acrescido por um novo membro, Kenroy Fyffe (classificado como “cosmic vocal”). Responsáveis por um dos grandes álbuns dos anos 70, The Heart Of Congos, produzido por Lee “Scratch” Perry, o grupo, que havia encerrado suas atividades no início da década de 80, lançou recentemente o excelente Dub Feast, confirmando seu melhor momento desde o retorno em meados da década de 90. De outro, Cameron Stallones e M. Geddes Gengras, dupla de artistas norte-americanos da costa oeste, que vem se dedicando a explorar um percurso singular, situado na encruzilhada do dub com o lo-fi e o rock psicodélico, triscando a seara “cósmica” de Sun Ra e Acid Mothers Temple. Acompanhados por uma equipe de filmagem encabeçada pelos cineastas Tony Lowe e Sam Fleischner, Stallones e Gengras viajaram até St. Catherine, 45 minutos de Kingston, para encontrar com o The Congos por dez dias, resultando na produção de Icon Give Thank e, em paralelo, de Icon Eye, o filme.
Icon Give Thank não se resume exatamente a um prolongamento dos “riddims arejados e sem pátria” com o qual identificamos o 12” com Dayone e Early One. A começar pelo universo de referências, que não se restringe ao dancehall e ao dub, mas, como sugere a introdução “New Binghi”, aposta em reinterpretações psicodélicas dos cantos religiosos niyabinghi, marcados pelo temperamento meditativo, o andamento lento e a marcação característica do bongô — celebrizado por Bob Marley no clássico “Rastaman Chant”, do álbum Burnin’, de 1973. Depreende-se o ânimo contemplativo das próprias texturas vocais reproduzidas pelo quarteto, fortemente marcadas pelo fervor dos cantos religiosos, que tende a se reconfigurar “cosmicamente” com as guitarras e intervenções protagonizadas por Stallones e Gengras. Como em um processo positivo e inesperado de desenraizamento das sonoridades tradicionais, ocorre a relativa intensificação do sentido contemplativo do canto nyabinghi e das percussões, tocadas por Roydel e Negus Johnson, amparadas pela trama difusa de violões, sintetizadores e efeitos. O trabalho magistral de edição e composição das bases empresta um recorte ordenado a este ambiente rico em sonoridades, de modo a favorecer as canções, ao que tudo indica compostas em parceria: o núcleo norte-americano encarregando-se do instrumental, enquanto os jamaicanos elaboram os arranjos vocais e as letras. A imposibilidade de se delimitar qualquer preeminência na contribuição dos artistas testemunha que se trata de uma interação se não perfeita, certamente uma das mais bem sucedidas dos últimos anos. Do chamamento sincopado de “Happy Song”, marcada pelo entrelaçamento das percussões acústicas e digitais, até a confraternização com cara de field-recordings em “Thanks and Praise”, somos tomados por uma beleza simultaneamente ímpar e orgânica, límpida e carregada, que se exprime canção após canção através de momentos excepcionais, com destaque para os tambores com efeitos em “Jungle” e “Invocation”, um convite expresso ao transe.
Mesmo para um indivíduo pouco dado a sentimentos religiosos, não há como evitar a recepção austera e atenta de Icon Give Thank. Apesar da originalidade, sua fluência liberadora me lembrou a revolução silenciosa que Candombless de Carlinhos Brown protagonizou na história recente do batuque afro-brasileiro. Mas foi Amazing Grace, o magistral álbum de convalescença de Aretha Franklin, que me ocorreu como uma reminiscência à altura. Pois não se trata de música para ouvir com a disposição supostamente impessoal do crítico, ou ao sabor evanescente do contexto pessoal — e, aqui, me reservo o silêncio diante da crença religiosa, que parte de tendências particulares e culturais. Posso dizer por mim mesmo que, da audição de Icon Give Thank, decorreu, sobretudo, um sentimento vigoroso de alegria, louvação à vida e à força intensa que a música exerce sobre ela.
Bernardo Oliveira