
O Primavera Sound terminou este Sábado em Barcelona. Por lá passaram, nos três dias de festival, cerca de 120 mil pessoas e mais de 200 bandas, como os Refused, The Cure ou The Rapture. Na quinta, o festival chega ao Porto, naquela que é a sua primeira internacionalização.
Enquanto Lisboa se preparava para o segundo fim de semana de Rock in Rio, não muito longe – em Barcelona – começava o Primavera Sound, a Meca indie que há 12 anos marca o arranque dos festivais de Verão na Europa e um dos eventos estrangeiros que reúne mais público português. Nesse aspecto, esta edição não foi diferente – mesmo havendo, já a partir desta quinta-feira no Porto, uma versão portuguesa do festival com praticamente as mesmas bandas. A edição deste ano distinguiu-se sim porque foi a primeira vez que o Primavera Sound recebeu duas bandas portuguesas, e em palcos importantes.
O concerto dos Linda Martini começou às 18h00 no palco Mini que ao contrário do que o nome indica não é nada mini. É patrocinado pelo carro e é um dos maiores palcos do Primavera, em tamanho e audiência. Àquela hora pareceu grande demais para a banda lisboeta, mas a excitação e adrenalina de tocar perante um público estrangeiro que não fazia ideia quem eles eram levou-os dar tudo o que tinham e a angariar alguns fãs.
Mais eficaz a ganhar fãs foram os PAUS, a banda portuguesa que se seguiu, literalmente. Eram 19h30 quando começaram a tocar no palco ATP, que é mais pequeno que o Mini mas carrega o enorme peso do nome: ATP é a sigla de All Tomorrow’s Parties, outro conceito de festival criado pelo empresário britânico Barry Hogan e apadrinhado pelos Sonic Youth.
Também eles deram tudo por tudo e a cada tema eram mais as pessoas que se juntavam para ouvir. No fim, perguntava-se como se escrevia o nome da banda.
Foi assim que arrancou o Primavera Sound de 2012, na quinta, 31 de Maio. Estava dado o tiro de partida para mais uma maratona de concertos que obriga a fazer horários, a andar de caneta na mão a assinalar o que se quer ver e, acima de tudo, a tomar decisões porque há sempre sobreposições.
Logo no primeiro dia foi preciso escolher entre Afghan Whigs e Lee Ranaldo. Decisão: Ver os dois, até porque o Primavera é tão pontual que dá para acertar os relógios pelo início das actuações. Ambos deram concertos para verdadeiros fãs, mas os primeiros traziam a bagagem emocional de se estar a ver uma banda dos anos 90. E os 90 estão na moda agora. O mesmo se passou com os Mudhoney ou com os Mazzy Star, que tocaram nesse dia, ou com os Chameleons, que actuaram no dia seguinte.
Quando o punk fez as pazes com o capitalismo
Nesta coisa dos festivais – principalmente aqueles com mais de 50 concertos por dia – é difícil escolher apenas um que se destaque. Mas neste caso, nem por isso. O primeiro dia teve um claro vencedor: Os Refused. A banda que mudou a face do punk nos anos 90 e que se voltou a juntar agora, numa espécie de trégua com o capitalismo e com a ideia de fazer dinheiro a dar concertos (quem o disse foi o próprio vocalista da banda). Mais do que recordar, o concerto dos Refused foi uma confirmação. É caso para dizer: “ainda bem que vão ao Alive em Lisboa!” porque esta é uma daquelas actuações que não se deve perder.
Os suecos conseguiram mesmo superar bandas mais recentes como Beirut, Wilco, Spiritualized ou Franz Ferdinand. No top, depois dos Refused, só mesmo os Death Cab for Cutie e os The XX, que estarão ambos no Primavera no Porto. As duas bandas souberam pegar nas suas canções e ambientes intimistas e agarrar o público com jogos de luzes e um som inabalável e muito reconfortante.
O concerto de três horas e uma boa surpresa
Recordar está na moda e qualquer banda de renome com mais de 20 ou 30 anos é uma aposta ganha, mesmo que seja num festival alternativo com bandas que só alguns conhecem. É por isso que os Cure foram um dos vencedores do segundo dia de Primavera. Uma banda que tem temas suficientes para manter o público interessado durante três horas merece todo o respeito e ainda por cima fê-lo com uma boa disposição inesperada. Quanto às canções, não faltaram A Forest, Boys Don’t Cry, Love Cats, Spiderman, Desintegration ou Fight (que não tocavam desde 1987).
Os Cure não foram, no entanto, os únicos a arrasar o Primavera Sound neste dia. Menos de 15 minutos depois da banda de Robert Smith dizer “já chega!”, no palco Mini – a uns 10 minutos do palco principal – os M83 começavam aquela que foi a maior surpresa do festival. Com uma percussão poderosa e um jogo de luzes a condizer, os M83 – que em disco são apenas interessantes – transformaram-se em espectaculares e trouxeram o ritmo para dentro dos corpos cansados.
E por falar em cansaço, ainda não foi no final dos M83 que o longo dia (já ia com nove horas de música) acabou. Faltavam os The Rapture para fechar o palco principal e mesmo tocando apenas uma hora foram tudo o que se previa: divertidos, arrebatadores e robustos. House of Jealous Lovers ou o novo single How Deep is Your Love foram os temas mais aguardados numa actuação que apenas pecou por ser curta. Talvez no Porto, sem os Cure, toquem mais tempo.
As revelações
O Primavera Sound de Barcelona deste ano ficou reduzido a dois dias e por ver ficaram bandas como os Beach House, Sleepy Sun ou Yo La Tengo. Ainda assim, em dois dias houve mais de 100 concertos, alguns dos quais de bandas que ainda estão à procura do seu espaço na música como os Sleigh Bells, War on Drugs, The Oh Sees ou White Denim. Uns mais rock que outros, outros mais eletrónicos, mas todos eles promissores.
Destaque ainda para os Afrocubism – um mix entre ritmos cubanos e africanos – ou para Spoek Mathambo – mais tribal – que levaram o Primavera para os meandros da world music. E também para Laura Marling, cuja base é o folk e o story telling com reminiscências de Cat Power, e que teve a sorte de tocar no Auditório, o melhor palco do festival, uma sala fechada para cerca e três mil pessoas que tem uma acústica exemplar.
Este texto não ficaria, no entanto, completo, sem referir os cancelamentos dos Sleep e do Melvins, e sem destacar outros nomes como Rufus Wainright, que passou despercebido porque tocou de dia e se centrou muito no álbum novo, não dando espaço à normal reacção efusiva que as canções antigas provocam. Passaram ainda por Barcelona os Death in Vegas, que estarão cá no Alive, Marianne Faithfull, que arrebatou o auditório, os The Drums, que tocaram ao mesmo tempo que M83 e por isso ficaram de fora do programa ou ainda os Dirty Three.
O líder desta banda já com mais de 15 anos é Warren Ellis, o violinista de Nick Cave e dos Grinderman. A sua figura faz lembrar um reverendo da América profunda (e atenção que são australianos), com barba farta e longa e cabelo comprido, que fala com uma voz de bagaço arrastada e deambula pelo palco como se tivesse acabado de tomar LSD. Mas não se assustem que ele não canta, só toca o violino e de forma agressiva e apaixonada. Junta-se depois a bateria visceral e uma guitarra experimental (ali dos lados dos Sonic Youth) e sai um caos organizado onde se consegue encontrar sentido.
Vão estar no Optimus Primavera Sound no Porto e é, sem dúvida, um concerto que não se pode mesmo perder.
Ana Baptista